Qual o recado dessas eleições?

Os números não mentem, e o recado é claro: algo está acontecendo na política brasileira. Não esperem que eu faça o discurso maniqueísta dos de sempre, pois não farei. É o discurso que pauta a análise do avanço do conservadorismo nesta eleição. Ora, esse tipo de análise não foge da dualidade direita versus esquerda. Agora avança o conservadorismo, e na próxima um progressismo. E assim gênios da academia não param de brincar de gangorra, uma hora subindo, outra descendo. Isso não passa de coisa de criança!

As cidades do Rio e de São Paulo dão o tom do que está acontecendo. Sabemos bem, mas ainda não queremos enxergar. Temos dificuldades em fugir da rotina e do corriqueiro, e de arrisca no novo e no diferente. E isso nada tem haver com sermos conservadores. Faz parte da natureza humana.

Os paulistas nos pegaram de surpresa ao elegerem Doria ainda no primeiro turno. Ninguém esperava. Nem mesmo os institutos de pesquisas previram isso. Até mesmo o próprio João foi pego de surpresa com a força da sua vitória. Realmente, foi de lavada! Já os cariocas elegeram Crivella não por ser o melhor, mas por ser o menos ideológico. Claramente fugiram do Freixo, mas não pelo seu discurso a esquerda, mas sim pelo seu discurso forçadamente ideológico.

O recado foi claro: um não a política.

A vitória de Dória ou de Crivella não é um avanço conservador, ou uma derrota da esquerda ou do PT. Em São Paulo Dória usou do discurso do não político, e sim do empresário: administração, e não ideologia. No Rio Crivella obteve 1 milhão e 700 mil votos, mas os nulos, brancos e abstenções foram mais de 2 milhões. No fundo, Crivella não venceu. O Carioca, na verdade, não aderiu a campanha de Freixo devido a sua reincidência no discurso ideológico. Nesse momento, pouco importaria se seria de esquerda ou direita.

O  brasileiro cansou da política. Cansou das promessas não cumpridas, dos roubos e desvios de dinheiro, e da cara de pau dos políticos. Lula saiu derrotado, mas Aécio também. Perdeu em 2014 na eleição estadual, e perdeu agora na municipal. O recado do brasileiro daqui para frente é semelhante ao do americano: pouco importa a ideologia, se de esquerda ou direita, o que importa é fazer as coisas funcionarem. Só mesmo os inteligentes percebem isso.

Em todos os níveis de governo, seja federal, estadual, ou municipal, quando um governo é de esquerda ou de direita, muda uma coisa aqui e outra ali, mas no fundo as estruturas continuam muito semelhantes. Politicagem, desvios de recursos, benesses em proveito próprio, e o mais importante, os serviços públicos que não funcionam. Saúde, educação, segurança e transporte não tem funcionado no Brasil a décadas. Sem falar no caos das cidades. Entra governo e sai governo e quase nada muda. Quer exemplo melhor do que o salário do professor? Foram 8 anos da direita no poder com o PSDB, e 13 anos da esquerda com o PT, e o salário do professor continuou uma merda. Esquerda, direita, centro, etc, etc, etc.

É preciso compreender – ao menos os alfabetizados e inteligentes – que a população, no senso comum, está cagando e andando para se o político é de direita ou de esquerda. A população quer a saúde funcionando, a educação de qualidade, as cidades organizadas, e quer sair na rua sem voltar depenado feito galinha ou levar uma bala perdida. Dória venceu porque percebeu isso e fugiu do discurso ideológico, mostrando-se como o administrador que vai fazer as coisas funcionar. Se fará ou não, aí são outros quinhentos. Já Freixo perdeu não por causa da milícia, mas sim por causa do excesso de ideologia em seu discurso, da tentativa crescente de achar que por ser de esquerda tudo funcionaria bem. Isso afundou Freixo e Aécio, e afundará todo o PSOL como fundou PT e PSDB. Acordem, caso contrário o picolé de chuchu da Marina será a nova Presidente.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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