Quem mata a polícia no Rio?

Quatro Policiais Militares foram mortos na tarde deste sábado (20) no Rio de Janeiro durante uma operação sobre uma favela. Um outro PM também morreu na zona norte do Rio. Num único dia 5 policiais foram mortos, o que só confirma o fato de que o Rio de Janeiro se tornou um campo de extermínio dos homens da lei. Os números não mentem sobre isso. São mais de 100 policiais assassinados esse ano. Mais de 3 mil nos últimos anos. Mas isso não passa de um ciclo vicioso. No fundo, os próprios policiais se matam, ou, no senso comum, “cavam a própria cova”.

O Rio de Janeiro entrou no ciclo da violência difícil de sair. Que ciclo é esse? O ciclo do matou morreu! A PM carioca é a que mais tem baixas no mundo, mais até do que exércitos em guerra. Mas também é a que mais mata em todo o planeta, também mais do que em várias guerras. Ou seja, a PM do Rio mata muito, e morre mais ainda. Em termos proporcionais morrem mais policiais do que bandidos mortos pelos PMs – isso baseando-se nos casos em que conhecemos, pois sabemos bem como funciona o sistema de desova! Numa termos mais sofisticado, a polícia carioca mata… e depois morre.

Todo policial bem formado compreende isso que acabei de explicar. Parte da cúpula da PM também entende. Só mesmo o policial tonto a nível Bolsonaro da vida que não entende. Recados não faltam. O próprio Profeta Gentileza tentou dizer isso ao Rio de Janeiro: violência não se combate com mais violência. É questão de lógica. Não é possível ser tão burro assim. Basta pensar um pouquinho para perceber que há uma ligação de ação e reação que demonstra que se a polícia mata mais, ela também morre mais, e se mata menos, morre menos. Países onde a polícia não morre, como Inglaterra, ela também não mata ninguém!

Infelizmente passamos pela Constituição de 88 sem discutirmos a fundo a Polícia Militar. Nossos constituintes creram – erroneamente – que se resolvêssemos as mazelas sociais desse país, e melhorássemos a qualidade da educação, o problema da segurança estaria resolvido. Bom, a história nos mostrou que as coisas não funcionam dessa forma. Ou repensamos a polícia, sua estrutura e seu funcionamento, ou continuaremos dando murro em ponta de faca. O Rio não sairá do buraco que se meteu, e mais gente continuará morrendo todo dia, independente de ser policia, bandido, cidadão, etc.

Precisamos enfrentar a desmilitarização da PM, que por sinal é apoiada por cerca de três quartos dos soldados. Elevar os salários para atrair as melhores cabeças, e assim poder colocar o filtro do curso superior já no ingresso. Com essas duas medidas vamos reduzir em 80% a corrupção dentro da PM, principalmente a carioca, que é alarmante. Sabemos bem o quanto – principalmente nós moradores do Rio de Janeiro – o quanto parte da violência é causada pela vista grossa dos policiais em vários casos. Basta relembrarmos centenas de denúncias de polícias desviando fuzis de batalhões, levando drogas e armas para morros, fazendo escolta de traficantes, e até transportando chefes de favelas dentro do “caveirões”. Isso sem contar das milícias instaladas dentro dos batalhões.

Os policiais cariocas acabam cavando a própria cova por fazerem o ciclo da violência funcionar, e por contribuírem para que ela não diminua, auxiliando os bandidos em várias situações. Atitudes como a do Bolsonaro e de outros malucos da vida em nada ajudam. Os policiais merecem serem elogiados? Claro que sim. Há muitos PMs honrados e que dão duro no dia a dia para combaterem a criminalidade. Poderíamos elogiar os Pracinhas da Segunda Guerra, os militares que salvaram as crianças da chacina da escola de Realengo, ou até mesmo todos esses policiais mortos no dia a dia. Mas não. O Bolsonaro elogia justamente o Coronel reconhecido pela Justiça Federal como torturador. Isso em nada ajuda os militares, ao contrário, atrapalha.

Esse ciclo vicioso precisa ser quebrado. Se a polícia continuar matando, ela continuará morrendo. Não podemos deixar que a sede de vingança tome conta da situação. A polícia mata e o bandido se vinga. O bandido mata, e a polícia se vinga. Isso precisa parar. Chega de brincarmos de guerra, pois nem nas guerras de verdade há tantos mortos e feridos.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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