Reflexões sobre a humanidade a partir de Agamben

Compreender o ser humano é e foi uma das principais tarefas da Filosofia. Do bípede sem penas de Platão, do animal racional de Aristóteles até o Dasein heideggeriano, não faltaram novos adjetivos para o homem dentro da Filosofia. E como essa empreitada não poderia ocasionar numa multiplicidade de propostas e tentativas? Nós que temos conhecimento de ao menos parte da história da humanidade, sabemos o quão é difícil captar o ser humano. Pois quando pensamos tê-lo compreendido, este, sarcasticamente, muda de forma e começa a se apresentar de outra maneira. Mas isso nem de longe deveria nos inibir a continuarmos as intermináveis investigações acerca da humanidade. E é isso que, inspirando-me em Agamben, me proponho a fazer.

Para Agamben, o homem é aquele ser que perdeu a sua voz, a voz animal, para ganhar a linguagem, ou seja, para herdar a história da cultura. Mas, observe bem, o homem perdeu algo que nunca possuiu, pois qual é a voz animal do homem? Os gatos miam, os cachorros latem e os lobos uivam. E o homem o que fala, sem a linguagem? Qual é a sua voz? Será, então, a linguagem a voz que a natureza nos deu? Mas a linguagem não pode ser a nossa voz natural! Explico, ainda me aproveitando de Agamben: no texto Experimentum Vocis, Agamben bem nos lembra que se uma criança não entrar em contato com a linguagem até os onze anos de idade, esta perderá em definitivo a capacidade de aprendê-la. Isso significa exatamente que a linguagem não é a nossa voz, pois depende de algo externo à natureza para ser incorporada a nós. Aí, também, vemos a grande amizade entre contingência e humanidade. Até para o Homo Sapiens, recém expulso do seu útero, conquistar a sua humanidade, este depende da contingência de ser exposto à linguagem até os onze anos. E se a criança se perder nas matas, nas florestas e nunca mais retornar ao esteio materno? O que será desta criança, então? Não será humana, com certeza, ou será, mas apenas pelo julgamento da biologia. Mas se esta criança for vista pelos olhos dos costumes sociais, veremos que nela não há nenhum, e então mais se assemelha a um bicho. Mas nem isso ela pode ser, pois esta, como Homo Sapiens, não possui nem voz animal e muito menos um ambiente natural. Deveria este infante ter, sim, linguagem e mundo, mas por um acidente, estes não foram dados a ela, ela é o fruto do erro sobre outro erro.

Digo isto pois o ser humano já é em si um erro, o ser humano é o filho da natureza que falhou em ser um animal. Recordando Heidegger, “… a pedra é sem mundo, o animal é pobre em mundo e o homem é formador de mundo”, isto é, o animal possui o seu meio ambiente, que lhe é próprio, e o homem está no aberto, ou seja, ele é o ser-aí. O homem não está preso a nada, ele pode ir para qualquer lugar e pertencer a qualquer meio. Por essa razão, Heidegger afirma que o homem é formador de mundo. E como diria Sartre a respeito do ser humano, a existência precede a essência, pois a cada esquina que viramos, a cada escolha que tomamos, isto molda a nossa essência, de modo que nós nascemos sem uma, diferente dos animais, e conquistamos a nossa volátil essência a partir da existência. Mas até para isto acontecer, ou seja, para pertencer ao aberto, o homem precisa satisfazer uma condição: possuir linguagem. Esse é o grande drama da humanidade: nem o aberto nos é assegurado, nem isso nos é certo, de tamanho erro que se deu em nossa criação.

Mas é justamente essa a força e a grandeza do homem. Ser um erro, ser uma afronta ao natural, é o que nos possibilitou ser o que somos hoje. E se retomarmos Agamben, para aclarar ainda mais a nossa visão, o ser humano sai da vida nua, da vida do simples respirar e estar vivo, quando a linguagem se assenta na voz e a remove por isso. E se falo, logo o ethos se faz presente em mim, pois é assim que os costumes são passados, pela linguagem. É a linguagem o evento fundador da humanidade, dado que, citando Agamben, o homem é o “ser vivo que tem acesso à sua natureza apenas através da história”. Eis um ótimo passo para entender o homem.

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