Relacionamento e tempo

Tive um relacionamento amoroso em que, da minha parte, o agrado com a beleza dela, com os prazeres e com a vida junto que rapidamente começamos a ter, fizeram-me querer que aquilo se perpetuasse. Eu queria continuar vivendo aquilo, como um presente que não termina, ou como uma cena que renasce junto com o sol.

Tive um outro relacionamento amoroso em que havia, da minha parte, o agrado com a beleza dela, os prazeres e os momentos passados juntos. Eu queria que eles retornassem nos dias seguintes. Mas, eu não queria perpetuá-los. Eu estava tomado por outros planos de futuro.

O futuro é incerto. Ele vai ganhando substância, para nós, à medida em que prometemos coisas para quem está conosco (incluindo a nós mesmos). Em uma relação, sugestões de viagens, de morar junto, de ter filhos vão ocorrendo. O parceiro recebe bem essas sugestões, então dá permissão a que se comece a desenhar um futuro.

Das sugestões, então, passa-se aos planos concretos, como juntar dinheiro, melhorar a vida profissional e o ganho de renda, resolver impedimentos emocionais com pais ou outros parentes. Assim surge o amanhã de um relacionamento.

Na relação sem amanhã prometido (mesmo considerando que toda promessa feita pelo homem, segundo Sloterdijk, seja promessa impossível de se cumprir, mas que, afinal, faz o homem levantar-se), fica-se na repetição do presente. Aliás, neste momento me vem a pergunta: Será que as pessoas não buscam um relacionamento pensando no futuro que ele lhes possa dar?

Imagine a repetição de um dia maravilhoso: você teve prazer, inclusive o prazer de dar prazer; você desempenhou bem a tarefa do prazer e do bem-estar. Mas, o que haverá depois? O homem é um ser pertecente ao tempo: algo o precedeu, algo o sucederá. Um ato o causou, um ato dele tem uma consequência. Estamos numa cadeia contínua irreversível e causada por nós mesmos sem, contudo, que tenhamos muito controle do que acontece.

Segundo Boécio, esta é uma diferença fundamental nossa para com Deus, que é eterno, fora do tempo. Para Ele, tudo o que aconteceu e acontecerá é presente, acontece agora. Os homens insistem em querer a enternidade, eternizar seus momentos. Mesmo a intenção de um futuro é senão o desejo de que o gostoso presente aconteça de novo, e de novo, e de novo. Por isso que nunca se chega nesse futuro sonhado, pois sua busca se mantém em nome do que está por vir.

O tempo, vivemo-lo preenchendo-o: hoje eu fiz tal coisa, com tal pessoa, em tal lugar, estive em tal humor, etc. O futuro é algo que não existe enquanto não for preenchido com promessas. Muitos namoros ruins são suportados devido à promessa de um bom amanhã, devido a um futuro definido. Há de se dar uma continuidade ao momento, à cena, ao quadro. Marco Casanova, em um dos textos do livro “A falta que Marx nos faz”, conta que na arte a imagem não mais é pensada por si só, mas como necessariamente atrelada a um enredo literário, que dê a quem assiste e a quem viva a sensação de que a vida tem começo, meio e fim.

Todo mundo que se relaciona é autor de um romance, que atrela imagens a enredos. Devido a isso, nenhum orgasmo ou gargalhada devem se encerrar em si mesmos, mas apontar para uma causa e uma consequência. Dessa forma, o homem espera controlar o tempo, para controlar as coisas que ocorrem com ele. Controlar o tempo, e não estar ao sabor dele. O que o tempo fará com você, nas horas em que você não se programou? E, pior ainda, se não fizer nada? Se nada de interessante acontecer?

Casanova, no mesmo livro, fala de um dos sentidos do tédio, em Heidegger: você está em uma festa muito divertida, a melhor da história. Logo você se despede e, uma vez em casa, dá-se conta de que tudo foi uma grande bobagem. O tédio que agora surge, pleno, estava no sofá no centro da sala, na festa. O tédio o ameaçou antes de você se preparar para a festa, fazendo você querer evitá-lo a todo custo sábado à noite. Impossível não perceber que este também é um motivo para a procura por se ter e se manter um relacionamento amoroso (a paixão é outra história…).

Voltando a falar dos momentos, das cenas, uma cena tem um ser próprio, e este ser não se reduz a um antes ou a um depois. Dizer isso, no entanto, não é o mesmo que dizer que as coisas não tenham compromissos umas com as outras. O sentido do Todo nos é impossível determinar, mas ele está lá.

Uma das exigências que esse Todo nos faz é que cuidemos do outro, mesmo que não saibamos quem ele é. Havendo momentos de prazer e de encantamento compartilhados com ele, então, é mandatório o romance. É como se em meio à incerteza da vida, o que aconteceu de bom devesse ser agarrado com unhas e dentes.

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