Relativismo histórico ou etnocentrismo no caso do impeachment?

Cortella responde, em  vídeo , uma pergunta sobre a questão do Impeachment    de Dilma e o julgamento da história sobre o fato. E como resposta ele diz: “que nos livros de história quando os romanos tomavam os territórios dos bárbaros (os não romanos) o fato era narrado como expansão do império romano. Todavia quando os bárbaros retomavam seu território, o livro  narrava invasões bárbaras.” E, claro, o entrevistado acredita que é o mesmo caso do Impeachment atual – um apelo ao relativismo histórico. E como conclusão diz que há uma diferença entre direito e justiça, como exemplo, ele recorre ao fato da legalidade da escravatura anterior ao ano 1889.  No final de sua fala diz “que daqui a 30 (trinta) anos poderemos chamar o Impeachment de golpe, como fizemos em 64.” E ressalta que poderemos  chamar de golpe algo  que  é chamado hoje de legal.

Quais são os pontos rasos das respostas? O  problema é que elas não são totalmente falsas, assim para analisá-las   é necessário fazê-lo de forma isolada, isto é, examinando cada momento da fala. Daí poderemos ver que há vários erros e generalizações pouco  usuais e termos errados aplicados aos eventos históricos, e como a mesma concepção de história muda na fala do entrevistado.

  1. É verdade que o livro de história trata as invasões bárbaras nestes termos (expansão do império e depois invasões bárbaras). Todavia a conclusão, ou acepção, retirada do fato não tem relação com relativismo histórico e menos ainda com o caso da presidente [ver 3]. Veja como a própria antropologia  trata fatos deste tipo, classificando-o como etnocentrismo e não  como relativismo histórico. O Etnocentrismo etimologicamente significa em grego etnos: lugar de origem, e kentron: centro. Desta forma etnocentrismo designa a atitude geral mais ou menos inconsciente dos membros de determinados grupos de considerar sua sociedade e cultura como modelo de referência para julgar outras sociedades e culturas[1]. Assim a aplicação correta do livro de história, nos termos do entrevistado, é etnocentrismo e não relativismo histórico [este poderá ser um contradição em termos quando usado por um historiador, sem os devidos cuidados – veremos a seguir (3)].  Portanto não se trata unicamente de diferenças territoriais, no caso dos romanos e bárbaros, mas de distinções de língua, religião, práticas sepulcrais, etc. Aplica-se, então, o termo etnocentrismo a este evento histórico específico. Ora, se etnocentrismo é correto para o exemplo do Cortella; este, evidentemente, não poderá aplicá-lo ao evento atual – julgamento de Dilma. Não se trata do julgamento de um povo com práticas legais, culturais, linguísticas, etc, distintas que realizou o impeachment. Mas o mesmo etno e o kentron que a colocou no exercício do poder político, este também a tirou.  Logo todo dentro e fora, nas acepções etnos –diferenças culturais de determinados povos -, são afastados do julgamento, relativo ao impeachment, e não poderemos usar relativismo de valores no caso romano como se fosse idêntico ao julgamento da presidente. Pelo fato deste povo estar submetido às mesmas leis, culturas e constituição. Enfim, não se aplica o etnocentrismo e nem relativismo histórico no evento atual, pois estamos sob uma mesma perspectiva [etno] no sentido cultural, territorial e  jurídico.
  2. O segundo ponto é a distinção entre lei e justiça. Para isto o entrevistado recorre ao exemplo da escravatura. Entretanto, esta distinção não é uma oposição entre termos, mas é abrangência entre ambos. A lei é um subconjunto da justiça, portanto esta tem uma abrangência maior que a outra. Assim a distinção é conjuntural (conjuntos, abrangência) e não de oposição. O que houve foi uma expansão da concepção de homem (direitos universais do homem) e uma expansão do próprio conceito de homem, que anteriormente não abrangia o escravo – outro exemplo similar é o conceito de cidadania na Grécia antiga. Podemos recorrer ao outro exemplo, onde a lei não alterou. O roubo e o assassinato  são considerados repugnáveis em todos os sistemas jurídicos e políticos. Todavia, isto não nos dá suporte suficiente para afirmar que a lei é idêntica à justiça, e ambas são imutáveis. Todavia as diferenças não são apenas conceituais, mas podem ser de práticas da justiça sobre uma mesma matéria – decisões, jurisprudência. Os conceitos jurídicos são construídos dentro de determinações e culturas históricas, mas isto não significa que toda lei é relativa apenas à cultura; pois a lei sai da concepção de justiça como aplicação de princípios. Se pego o artigo 5º da CF, onde garante direitos como vida, liberdade, propriedade, dentre outros, é  inegável a influência de pensadores liberais, que surgiram e filosofaram em determinados períodos históricos. Em outro momento, no art. 6º é inegável a influência de pensadores sociais e a obrigatoriedade do Estado a partir disso de tornar tais direitos efetivos. Dizer, então, que há uma contradição entre ambos é não entender a abrangência da justiça e ignorar a cultura do período histórico.  Pois uma trata da justiça formal e a outra da justiça social. Todos são conceitos-históricos. Conceitos, pois desprenderam de um caso ou circunstância específica e tornaram-se princípios. Históricos, pois foi fruto de uma determinada circunstância histórica de um tempo e de concepções culturais que  opuseram-se no período. Portanto, lei e justiça são conceitos-históricos (com hífen)! E não como lei, expressão material; e justiça como conceito metafísico. Desta forma, podemos estudar a lei anterior a 1889 e juntamente com sua cultura compreender suas razões para admitir a posse de escravos. E, evidentemente, repudiar tais razões caso algum parlamentar, atual, queria colocá-la em vigor em forma de lei, pois somos envolto pelos valores atuais.  Em suma, leis e justiça são conceitos-históricos.
  3. E como consequência do raciocínio supracitado do entrevistado, a conclusão é que a história julgará daqui a 30 (trinta) anos o impeachment e poderá considerá-lo golpe. Aqui o entrevistado perde-se no raciocínio, pois abandona sua concepção inicial de história, o relativismo histórico. Ou seja, se digo que algo sobre romanos e bárbaros, adotando uma perspectiva relativista da história (erradamente, como visto em 1), agora depois de 30 anos o relativismo se foi e a história é, agora, uma perspectiva da História Absoluta, mesmo que utilizo a conjugação poderá para chegar nesta certeza histórica. E sabemos que se adotarmos uma perspectiva exacerbada do relativismo histórico não haverá história, pois  perder-nos-emos todo o  alcance de legitimar quaisquer fatos! Enfim, no início de sua fala a história é relativismo puro, já no fim de sua fala a história é uma exposição dos fatos absolutos, história é a Verdade.

Estes erros não são exclusividade do Cortella. Mas se perguntarmos o porquê das posições A ou B para Clóvis, Karnal ou Pondé veremos os mesmos erros. As distinções do quarteto midiático é só fantasia. Pois se questionarmos, com cinco minutos de conversa, todos vão para o mesmo lado. E a fantasia da erudição cai.

[1] Ver: Dicionário básico de filosofia. JAPIASSÚ, H.; MARCONDES, D. Ed. Zahar: 2006.

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One thought on “Relativismo histórico ou etnocentrismo no caso do impeachment?

  1. Cortella escreve bem e fala bem… para plateias que pagam para isso. Ele ganha dinheiro, e muito, com isso. Está correto. Errado é quem o toma como filósofo. Ele é apenas midiagogo!

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