Riqueza e necessidade

De tempos em tempos acontece o que chamo de definhar. Com tempo livre me arrasto no catálogo da Netflix ou nos títulos que baixei via torrent, mas ainda não assisti. Pego livros para ler, o material dos estudos para revisar, mas nada disso adianta. Não consigo me decidir e ao mesmo tempo faço diversas decisões, mas nenhuma me agrada. Ao fim da experiência, não consigo fazer nada, resta um incomodo tremendo. Não porque não consigo fazer coisa alguma, mas porque o que quero fazer, o que me interessa outrora, já não me interessa mais.

Sinto que perco qualquer coisa que alguns diriam substancial numa pessoa. O que nos identifica, geralmente, são as coisas que aderimos como um mimo; quando não estamos passando por necessidades fisiológicas ou não precisamos de trabalho alheio a nossa vontade para saná-las. Esse mimo é algo que ninguém precisa ter, mas que todos têm porque podem, ainda que em diferentes medidas. Esse mimo próprio do ser humano, e que com muito gosto vemos ser empregado pelos nossos animais domésticos, é como uma marca que mostra nossas possibilidades. Essa marca diz que não vivemos para as necessidades, mas que as ultrapassamos sempre que fazemos o que nos é próprio, o que queremos.

Há perda de identidade, pois, nesse período de tempo, é de todo indiferente se temos contato com algo que outrora nos iria agradar ou algo que agrada apenas a um outro. Quando se perde essa identidade, ainda que por pouco tempo, temos uma sensação de definhamento. Ficamos mais pobres, porque nossa riqueza é o que fazemos enquanto mimo. Ficamos mais fracos, pois perdemos as forças que nos motiva. Experimentar tal perda é olhar para si mesmo e ver que nada se tem de substancial. Ficamos presos numa contemplação desinteressada e cínica da vida.

Não há formula para lidar com tal perda, mas no meu caso optei por ler os Evangelhos. Da última vez que parei tinha acabado o de Matheus, decidi ler Marcos dessa vez. Imaginei que talvez, depois de limpo e desinstalado de toda identidade, poderia ser tocado pela palavra de Deus e acreditar ao menos por um minuto sequer. Encontrei algum conforto nas palavras de Jesus, gosto da passagem sobre o jejum em que Jesus explica que na presença do noivo não se pode jejuar, mas na ausência se deve. Num casamento, qual sentido jejuar? Jesus estava trazendo a nova aliança entre Deus e os homens, e tal aliança extremamente rica desagrega de sentido qualquer ato de pobreza. Mas quando se está pobre, longe de Deus, é preciso jejuar, para que passada a fome, a necessidade, possamos ser abarcados pela riqueza divina.

Essas e outras passagens me causaram algum júbilo, mas não acreditei de todo, quisera eu. De toda forma, de algum modo fui curado, não por Deus, mas pela sua palavra. Não tive meus olhos abertos e Jesus não lambeu meus ouvidos de forma que pude ter alguma revelação, mas pelo menos uma noite tranquila eu tive.

Tenho de concordar, então, com uma amiga de quem me aproximei muito nos últimos meses. Pelo menos algumas vezes, a riqueza não vem dos homens, mas de Deus, e devo dizer que compartilhei de tal riqueza. A Bíblia moldou nossa relação com nós mesmos, é um livro de suma importância. Discordo que é inegavelmente pobre o homem que não tem Deus, e de que toda riqueza de Deus advém, mas creio que na sua palavra há algo de grandioso, e que é um caminho para a riqueza. O que me faz pensar assim é que mesmo os descrentes, como eu, podem ser tocados pela sua palavra, e mesmo de forma superficial sentir a riqueza de tal sabedoria.

Estudante de graduação em Filosofia na UFPB e membro do CEFA.
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5 thoughts on “Riqueza e necessidade

  1. Muitos historiadores divergem sobre o que teria garantido que em meio a tantas seitas que se formavam diante da degradação do Império Romano do ocidente, o cristianismo se sairia vitorioso. Há sem dúvidas os que argumentam na direção de que o cristianismo conseguiu apresentar as pessoas um apoio espiritual e esperançoso diante de tantas dificuldades da vida cotidiana. Mais do que isso. a Igreja teria substituído o Império no papel de provedora das necessidades básicas da população, provendo tudo aquilo que as pessoas necessitavam naquele momento. Sendo assim, dificilmente não teria sucesso. É temos que admitir que nesta tarefa os cristãos se mostraram muito bem sucedidos.

    1. Sim, ao possibilitar a todos glória e redenção a todos, na medida que são pequenos e humildes, o conforto da relação com o Pai consegue prover melhor as necessidades espirituais do povo. Diferente dos pagãos, que precisavam de grandes feitos para alcançar a glória (doxa), que era terrena, no cristianismo é preciso apenas ser pequeno e reconhecer sua pequenez perante Deus e Jesus Cristo. O nome esquecido na Terra, no céu será cantado.

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