Não contrarie o status quo e seja midiático!

Os melhores filósofos sempre foram consciência de seus lugares. Assim fizeram por fustigar o status quo não contra o ethos local, mas a favor do melhor do ethos, às vezes posto de lado. Quando a mídia começou a crescer, os filósofos souberam se aproveitar dela para continuar nesse projeto. Até que um dia, a mídia passou a andar por pernas próprias, sem dono, sem eira e nem beira. Foi quando Marshal MacLuhan falou  “o meio é a mensagem”, que outros procuraram complementar dizendo que “o meio é a massagem”.

A mídia passou a ser objeto dos filósofos nos anos setenta. Mas, o que se tinha em mãos para analisá-la era apenas a teoria da ideologia, um subproduto do que então chamávamos de “ilusões metafísicas”. A Teoria Crítica e seus derivados denunciaram a mídia como ideológica, como o supra sumo do que Debord chamou de “sociedade do espetáculo”, que era nada verdade não o espetáculo produzido pela mídia e, sim, o espetáculo da mercadoria, que fez vingar todo um tipo de espetaculização. A crítica da “indústria cultural” virou moda. Os cursos de comunicações se tornaram muito procurados. Ou seja, ao mesmo tempo que toda a mídia era apontada como o bicho papão, mais a juventude corria para profissões midiáticas. No anos setenta, um dos principais personagens do Jô Soares era a pseudo-intelectual “comunicóloga de PUC”. Não se queriam mais jornalistas, mas comunicólogos. Jô atingiu em cheio, com crítica ferina, o momento! O humor já dizia mais que a Teoria Crítica.

Fizemos críticas de todo o lado, mas não conseguimos notar o que a mídia iria fazer sobre nós mesmos, os filósofos e os intelectuais de um modo geral. O “meio é a massagem” foi muito mais poderoso do que podíamos imaginar. Aliás, desprezamos essa condição, ficamos na crítica chapada contra a técnica e a tecnologia, na esteira do som heideggeriano. Quando veio a Internet, não soubemos utilizá-la. Ainda não sabemos. O resultado é que hoje temos grupos grandes de intelectuais completamente dominados pela mídia. Gente que é incapaz de não se deslumbrar por estar na mídia, por achar que é “formador de opinião”. Intelectuais que não percebem, ou não querem perceber, que estão sendo chamados porque estão reiterando o senso comum e dando cimento ao status quo. Ao pior do status quo. Pessoas que fingem para si mesmas que estão contrariando alguém – em geral um partido – para não dizerem que são completamente aderentes ao banal, e que não estão contrariando coisa alguma.

Nesse afã, surge o intelectual adepto ao jornalismo “do ponto de vista”. Ninguém tem mais verdade nenhuma, todo mundo tem pontos de vista. Todos falam verdades absolutas e, se questionados, esquizofrenicamente dizem ao outro “você não é dono da verdade, nem eu”. Então, nunca há para tais pessoas, segundo elas mesmas, o favorecimento do senso comum, pois se são de esquerda estão contra a direita e vice versa. Isso basta para elas. Não imaginam o quanto isso é, no fundo, reiterar o senso comum.

“Pensar com a própria cabeça” é, para tais pessoas – os midiáticos do momento -, pensar de modo conservador rebeldinho, ou então, do lado contrário, ser um pensador de uma “nova esquerda”. São chamados para reiterar isso na mídia e não entendem que se estão nessa mídia já estão massageados por ela. Não há espaço inovador na mídia. Não por conta de censura, embora também por conta de censura (vejam quantas propagandas foram censuradas pelo Conar nesses últimos anos!), mas por causa do formato dos programas. São programas que precisam ser vendidos como entretenimento que só é entretenimento se não contrariar os grupos pagantes, ou seja, não os patrocinadores, mas os ouvintes, ou compradores dos produtos do grupo pagantes. Desse modo, o intelectual hoje que aparece num programa de entrevistas, pensa estar falando o que quer, e de fato está, mas está falando o há nele de medíocre, pois já está moldado para falar o que é o medíocre. Já é medíocre, se não fosse, não teria sido chamado. Não à toa qualquer garoto que lê um pouco vê o ridículo dos intelectuais na mídia. Aliás, isso é o que salva algumas escolas e faculdades, há uma juventude, pequena ainda, mas que ri muito do intelectual midiático, que o vê como bobo da corte.

Essa avalanche de lugares comuns que dominam nossa TV cultural (não falo da comercial não!) é a prova disso, do espraiar da mediocridade. Aliás, há também o afunilamento: sempre os mesmos ou o “mais do mesmo”. Cinco ou seis intelectuais estão como porta vozes de tudo, uma situação nunca antes ocorrida na mídia brasileira. A universidade parece, assim, não ter mão de obra. Os cientistas não são ouvidos. Os filósofos acadêmicos são postos de lado. Só sobrevivem na mídia os que não tem conteúdo, os “engraçadinhos”. Os professores piadistas de cursinho, agora com doutorado, viraram os filósofos oficiais da mídia. É como se a mídia tivesse macacos oficiais, trabalhando de graça mas felizes, para um zoológico modelo aplaudido por Ongs.

O resultado disso, ao menos no Brasil, está sobremaneira marcado pela reiteração. As revistas publicam a mesma coisa, os jornais mantém os mesmos assuntos, os programas de TV parecem uma monotonia sem fim. Os mesmos rostos. Nunca o Brasil foi tão monocórdio. A própria Internet, pensada antes como espaço de liberdade, começa a imitar essa reiteração da TV. Todos precisam falar em favor de algumstatus quo. Todos falam se há golpe ou não, só sabem isso, ou então jogam pokemon e dizem por aí que a Abertura da Copa estava certa em achar que italianos não colonizaram o Brasil. É a festa da pseudo-formação.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo. 08/08/2016. São Paulo.

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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One thought on “Não contrarie o status quo e seja midiático!

  1. As propagandas têm potencial para falarem coisa diferente. Elas precisam abrir novos públicos, ou surpreender os antigos! Mas, como queremos o discurso único, censuramos as propagandas. Engraçado, justamente elas, que querem vender, que deixam claro que estão lidando com o nosso desejo, geram incômodo nos sujeitos que buscam que os midiagogos tenham esse efeito neles. É como se a absorção de informação não os deixasse perceber que estão consumindo. É uma busca por profundidade, e uma desconfiança da imagem e do desejo trabalhado nas propagandas.

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