Semelhança

Uma mulher tem uma criança. Fala próxima aos ouvidos, ao nariz dela. Quer ser sentida. Quer que a criança a inale, junto do sentido das palavras que se transmitem feito sopro. A criança responde alguma coisa. Com o passar do tempo a mulher vai percebendo que a criança não é semelhante a ela. Fisicamente, é semelhante. Mas não subjetivamente. Parece-lhe, então, essencialmente dessemelhante.

Deus fez uma figura de adama. Semimaciça, com canais que ligam o exterior ao interior oco. A mulher é capaz de produzir uma figura, assim. Após a primeira etapa, Deus soltou seu hálito sobre a figura de barro, e o hálito entrou e a preencheu. Deus tem a capacidade de fazer um ser semelhante a ele, não apenas fisicamente semelhante. A mulher não sabe do que foi feito com o hálito que lançou sobre a criança. Alegra-se quando presencia algo da criança que pareça semelhante a ela própria.

A mulher cola o rosto no espelho, e respira. Fala com o espelho, que devolve o hálito dela mesma. Isso é estar sozinho. Deus não estava sozinho, quando moldou a argila. Também não estava quando soprou na narina de Adão, pois o sopro voltou e Deus o inalou. A existência de Deus e de Adão acontece junta, por essa troca gasosa. A da mãe também acontece junto da do filho: ele é mais semelhante a ela do que ela consegue perceber. Não é um igual, é um semelhante.

Semelhante é parecido, e assim o é por uma parceria. Parceria de inspirações para além do que cada um entende. Quando a mãe quer entender o filho, e o filho à mãe, acham-se bem diferentes entre si. Uma troca de mesmo tipo, e também entre pessoas diferentes, é a da mulher com ela mesma. Pensar, segundo Platão, é fazer uma conversa íntima. A pessoa faz perguntas a si mesma, sem saber a resposta, e ela mesma responde. Isso nos explica o Paulo Ghiraldelli Jr.

Diferentes, semelhantes e em sintonia. A mulher pode ter dificuldade de entender o que ela mesma sente sobre alguma coisa, assim como sente em relação à criança. Deus fez um ser semelhante a ele, isso é sabido. Quanto a nós, não atribuímos a nós mesmos esta capacidade. Mesmo que a tenhamos. A semelhança entre a mulher e a criança é justamente o fato de que cada uma delas está próxima da outra. Uma anseia pela outra.

Inspirado no “Esferas I”, o livro que sopra você.

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