Só os medievais explicam Lady Gaga

Quem gosta de mulher sabe que a miríade de caras e bocas que elas são capazes de fazer vai muito além do imaginável. Ao menor tempo de convivência com uma mulher já se percebe que “caras e bocas” dão espaço para caras, bocas, cabelos, ombros, braços, mãos, cinturas, barrigas, coxas, canelas e pés. E chega a quase enlouquecer os que, além de estarem ligados nisso tudo, amam, como eu também amo, seios, bundas e vulvas! Basta tocar nisto para querer elevar o grau do toque e, claro, o grau do tocado… Tocar neste assunto é tocar no coração dos seres de bom gosto.

Mas o que ninguém consegue perceber é que há uma outra parte na mulher ainda mais fascinante! Ao menos em se pensar sobre ela. Não falo de uma parte e nem de um conjunto específicos, porque trata-se é de uma relação. O que eu estou falando é do funcionamento da parte que compreende olhos e narizes.

“Os olhos são o espelho da alma”, é comum se escutar. Basta eu olhar você me olhando para dizer, por exemplo, se você, mulher, é “uma cachorra” ou “uma mulher para casar”, se é Maria Capitolina ou, caso dotada de um olhar “oblíquo e dissimulado”, Capitu. Mas Bentinho, como bem sabemos, morreu na dúvida se foi traído ou não. Sempre podemos achar estar assinando um casamento com uma Maria Capitolina, e, depois, descobrirmos que assinamos é um contrato de corneamento com uma Capitu. A alma, por ser coisa de Deus, ou não deveria estar relacionada aos olhos ou talvez seja demais para as nossas capacidades humanas.

Já os narizes, são o fixo, que, mesmo com as plásticas, maquiagens e demais jogadas para “suavizá-los” ou “valorizá-los”, continuam como os menos passíveis de grandes modificações ao longo da vida. “Mulher tem que ter nariz de boneca!”, se dizia há não muito tempo, quase como se fosse regra. “Ele não é bem o meu tipo” pode dizer atualmente a mulher sobre o homem com nariz “feminino” demais para ela. Assim dizendo, homem e mulher pensavam estarem se preocupando não com um “defeito” de alguém, mas, sim, com o não-mutável, com a mulher que por ter um narizinho, seria “a minha eterna boneca” e com o homem que mesmo “não mais subindo a coisa” seria “o meu eterno macho”.

Todavia, repito: estou falando é da relação olhos-narizes, ou, melhor dizendo, da relação olhos-nariz. E por que falar da relação entre eles e não deles em si? Acontece que olhando Lady Gaga, “olhos” e “nariz” são ingredientes necessários, mas não suficientes para a receita dessa mulher que foi preparada por ninguém mais e ninguém menos que Deus.

Pensando na relação entre seus olhos e nariz eu consigo dar um ar ao meu espírito que vê um nariz que não é o de boneca, mas que o gama. Por que os olhos de Lady mudam mais que qualquer outro? E por que seu nariz parece que foi feito para seus olhos? Mesmo que respondidas essas perguntas, impera-se a relação olhos-nariz como que a de um casal o mais perfeito. Pensando na relação talvez eu consiga fazer como os medievais fizeram com a filosofia. Deus e sua obra são perfeitos. Mas já que a filosofia, uma vez produto do homem, é imperfeita, que ao menos seja utilizada para se apreciar um pouco melhor a beleza da obra do Criador. E que beleza…

Isaias Bispo de Miranda – 19 de maio de 2018

Isaias Bispo de Miranda é violoncelista com formação na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP). Graduando do bacharelado em Ciências e Humanidades e do bacharelado em filosofia, ambos na Universidade Federal do ABC (UFABC), estuda a obra do filósofo alemão Peter Sloterdijk pelo Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA), onde também é membro.

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