Tentamos vencer por um atalho!

Pouca coisa aprendemos com a derrota por 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014. As reportagens da imprensa brasileira tentando explicar o sucesso da Alemanha e o nosso fracasso demonstram bem isso. Tentar explicar a revolução feita pelos alemães em seu futebol através do investimento nas categorias de base é apenas a ponta do iceberg da questão. Para entendermos o que aconteceu precisamos voltar os olhos para toda a história da Alemanha enquanto nação.

Pouco poderia se esperar de uma nação arrasada após duas guerras mundiais e marcada para sempre na história da humanidade como algoz dos povos. Os alemães saíram da II Guerra Mundial arrasados. Não só economicamente, mas também culturalmente. O país estava aos frangalhos. A culpa pelos mais de 6 milhões de assassinatos que lhe eram atribuídos fizeram os alemães sentirem vergonha de si mesmos. Haviam se tornado uma máquina mortífera que não poupou judeus, gays, ciganos, deficientes, etc. Levou um tempo para o mundo por um freio em Hitler.

A reconstrução da Alemanha – depois dividida entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, durante a Guerra Fria – teve seu auge na vitória do futebol masculino na Copa do Mundo de 2014. E foi isso que não entendemos. Quando os programas esportivos mostraram o investimento nas categorias de base, aquilo não era um projeto de futebol, mas o símbolo de um projeto de país. A Alemanha decidiu ser grande e apagar seu passado, ou ao menos tentar. Investiu pesado em educação, cultura e esporte, mas sempre tendo a educação como a sua base. Em pouco mais de meio século a Alemanha se tornou uma potência educacional, cultural e esportiva. Talvez só o Japão e a Coréia do Sul tenham conseguido um feito como esse, também em seus pós-guerras.

Mas o projeto de nação da Alemanha, do Japão e até da Coréia do Sul são mais recentes, com pouco mais de meio século, diferente do projeto de nação dos americanos. Os EUA estão a mais de 200 anos nesse projeto, o que explica o seu sucesso inalcançável em todas as edições do Jogos Olímpicos. Não é um projeto esportivo, é um projeto de país. O esporte nos EUA faz parte do DNA americano, assim como a música, incorporados de tal forma na identidade americana que se torna impossível pensar no americano sem pensar no esporte e na música. Algo semelhante ao que acontece com o futebol incorporado a identidade brasileira. Mas aqui, apenas um esporte.

Nosso sucesso nesses Jogos Olímpicos – melhor desempenho do Brasil na história, com 7 ouros – não são frutos de um projeto de país, que por sinal nunca tivemos, mas apenas um resultado momentâneo que dificilmente se manterá. Não temos um projeto de nação que envolva educação, cultura e esporte como os alemães fizeram. Infelizmente tentamos vencer não pela pista principal, mas sempre tomando um desvio, um atalho, algo mais fácil e rápido.

Somos hoje um país fracassado. Não em termos políticos ou econômicos, mas sim em termos culturais e esportivos. O quase meio século de fracasso da escola pública mostra a dimensão e a gravidade do nosso problema. Os militares arrocharam o salário dos professores e assim afundaram a profissão transformando-a em um bico. A escola enquanto instituição não resistiu sem o seu profissional nato, e sucumbiu. Restou hoje um país incapaz de tarefas simples, onde a cultura está vegetando, um país em que a população lê em média 1 livros por ano – isso contando com a Bíblia – enquanto os americanos leem 20 e os franceses 14. Os Alemães leem 13, e os japoneses e sul-coreanos leem 11. Em todos esses países o esporte de base começa na escola pública. Mas nos Brasil nem temos mais escola funcionando, apenas um órgão de distribuição de diplomas. Não conseguimos fazer sequer o dever de casa, como ter uma simples quadra esportiva em cada escola. Nem isso conseguimos.

Preferimos sempre tomar o caminho mais fácil, e que no fim não da em lugar algum. Deveríamos investir fortemente no salário do professor para fazer a escola básica voltar a funcionar, mas preferimos deixar o professorado de lado e pulverizar os recursos da educação em vários programinhas midiáticos do MEC. Deveríamos ter um projeto de país onde o esporte estivesse incluído, para aí sim termos a tão falada transformação social, que na prática está mais presente na boca do narrador da Rede Globo, do que na vida dos jovens, mas preferimos remediar distribuindo bolsas pelas Forças Armadas, para que nosso atletas prestem continência no pódio. Agora só falta colocar a fantasia de azeitona para o fracasso estar completo!

Licenciado em História pela UFRuralRJ, cursando especialização em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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