Vaiar com moderação?

Vamos aos estádios de salto alto e zíper na boca?

Você vai ao teatro e no meio da peça atende o celular. Como não ganhou a tal educação de berço e também não aproveitou a escola, então a atriz interrompe a peça e lhe passa um sabão daqueles. É necessário. Você vai à uma partida de tênis e, ao invés de aplaudir, começa a esgoelar. Alguém deve lhe ensinar a ver o tênis. Você está na prova de hipismo e monótono não poder gritar. Então fica claro: hipismo não é para qualquer um. Até aí, tudo bem. Educação é algo mais que necessário, inclusive e talvez principalmente para ser membro de um público.

Todavia, quando você vai ao estádio, mesmo que seja nas Olimpíadas, a coisa muda. O estádio nosso não é grego, ele não está ligado à religião. O nosso estádio é romano, ele está vinculado ao pastiche, ao sangue e à catarse. Somos latinos herdeiros do Coliseu, e não dos antigos lugares sacros da Grécia Antiga. Mas, ainda assim, não somos bárbaros. Pois se um Bolt nos pede silêncio, ficamos mudos. Todavia, se um francês fresco faz beicinho durante toda a prova, e começa a dar mostras de que está ali enfarado ao ter de disputar com alguém que ele avalia “menor”, então nosso estádio reergue-se como que impulsionado pelos forças fantasmagóricas do velho mundo imperial. Queremos cristãos aos leões, queremos gladiadores sangrando, desejamos algo seja da ordem do “pão e circo”, uma permissão para a catarse, mesmo que fiquemos com esse comportamento ainda bem longe do que ocorre nos estádios do Primeiro Mundo. Não somos capazes de bater os hooligans britânicos.

O problema todo é que o brasileiro tem uma relação difícil com a sua própria imagem. Ele é capaz de perdoar os que tomam seu dinheiro, por meio de  impostos, para despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas, e que de fato nada fazem. Ele é capaz de perdoar a si mesmo por ainda continuar jogando lixo no Tietê. Mas ele adora não perdoar seu vizinho, e até ele mesmo, pelos gritos e vaias no estádio. Não sabe nada do Coliseu. Não sabe nada de si mesmo. Vivemos numa Atenas sem Sócrates, onde o “conhece-te a ti mesmo” não é invocado. Então, vamos dando cabeçadas em nós mesmos, cobrando etiqueta no lugar errado, e deixando de cobrar etiqueta e ética no lugar que deve ser cobrado.

Precisamos urgentemente invocar o “conhece-te a ti mesmo” no exato sentido grego antigo, que não dizia respeito a um conhecimento sobre uma instância subjetiva, mas referia-se à situação objetiva do homem na polis.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 17/08/2016

 

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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