Veja a menina pedindo comida

Uma menina veio até a minha casa, pedir comida. Todos na rua sabem que trabalhamos com venda de comida. Realmente quase sempre temos de sobra.

Pegamos do maior tamanho de quentinha, enchemos quatro e demos à pequena menina. Ela se foi, levando as duas sacolas pesadas e uma caixinha de balas. Ela havia dito que tinha um irmãozinho para alimentar.

Estávamos almoçando. O almoço prosseguiu com comentários sobre o que aconteceu. “Caramba, que triste.”; “A comida era para a mãe dela, que a mandou pedir.”; “Essas mães que mandam os filhos pedir dinheiro são umas abusadoras. Elas têm filhos só para faturarem. O governo deveria fazer uma ‘ligadura’ nelas.”

Estas conjecturas respondem o por que de a mãe daquela menina tê-la gerado? A sociologia investiga as estratégias de sobrevivência das famílias pobres. A psicologia estuda os sentidos que uma mãe atribui à sua gravidez. Pobreza e sentidos são aspectos da realidade, não a realidade toda. E um senso comum não generoso lê o fato pesando a mão no julgamento moralista e até criminalizador.

Por que uma mãe gerou aquela menina que pedia? O fundamental no fato de uma criança existir é a sua geração. Tendo alguma informação de como é a vida dos mais pobres, lanço a hipótese: a geração de um ser humano pode ser a única coisa que uma mulher pobre pode fazer, no mundo. A única coisa que ela pode produzir. O que mais ela teria para se orgulhar e ter alguma identidade?

Mas, veja, há algo mais que ainda não estamos vendo: uma menina veio pedir comida para si e um irmão. Não enxergamos o fato. Teorias sobre pobreza, geração e falhas morais enchem nossas cabeças. Certos fatos são insuportáveis, então desviamos.

O que veio até a minha casa foi uma menina querendo pôr comida em sua barriga e na de seu irmão. Ela é em si uma mãe, uma nutridora. Talvez cuide daquele irmão desde bebê. Então, mesmo que suplementarmente, ela participa da geração daquele ser humano.

Nossas falas foram a respeito de uma geração que não estava em jogo. A menina, sim, é a geradora do seu irmão. (Então quer dizer que ela se aproveitou do irmão para conseguir comida? Mesmo que fosse, quem condenaria quem tem fome?). Não apenas uma criança. Ela era uma mãe zelosa. E zelar por uma mãe é um princípio humano.

A filosofia chama a atenção do homem para o que é, para a coisa em si. Ela quer que ele volte a ver o que se banalizou. Contra algo que surge lança-se discursos os mais diversos. O que é essencial nas coisas, inclusive nos homens, fala justamente nos fatos. Os fatos e o pensamento sobre as essências e princípios de comportamento são coisas das quais muito se foge. Contra os fatos fica-se ressentido ou indiferente. Contra o que é abstrato impõe-se a incapacidade.

As teorias sociológicas e psicológicas pretendem atacar o problema da menina. A filosofia, ao buscar essencialmente o que é aquilo, ao ver a realidade inteira, pode inspirar os homens na direção da diminuição do sofrimento no mundo.

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