Vestir-se do tempo

Para construir sua casa, obter seu alimento, obter material para negociação com outros homens, e para proteger-se destes mesmos homens ou eventualmente atacá-los, o homem domina a natureza. A lógica que governa isso é a da escassez-providência.

Um passo além é o da tradição. Vitórias sobre estrangeiros e sobre problemas internos são comemoradas, lembradas, também pelo vestuário, e este recebe o valor e o nome  de “tradição”. Reis, rainhas, comandantes, generais, até presidentes e industriais, mostram uma indumentária que não muda. As roupas são símbolo de vitórias, entendidas, hoje, como sucesso.

A industrialização da produção, no entanto, gerando uma sempre crescente demanda de consumo, ocorre junto do fenômeno da moda. O trabalho de homens, as matérias primas, as máquinas e a energia são transmutados em mercadorias. Mas há certas mercadorias que existem para ditar o ritmo dos nossos tempos: as mercadorias da moda. Poderia até se dizer que elas não são mercadorias, mas objetos que possuem o valor do uso de se vestir do tempo atual.

Se um Macdonalds mata a fome, a moda escapa totalmente da lógica da escassez-providência, pois é a exibição da lógica da efemeridade e do frívolo. Não se chega a extinguir a fome e a miséria de um território, para que a moda ocorra. A rede de produção, trabalho, consumo e poder, ao encontrarem uma situação de ausência de guerra, de grandes catástrofes e de um mal estar-social ameaçador para aquela rede, começa a produzir o supérfluo.

Mercados precisam se expandir, e neste ganho de novos consumidores inclui-se o re-ganho de consumidores anteriores. Eu vou sair da casa dos meus pais e, para que eu tenha uma companhia em minha própria casa, comprarei uma televisão. Em dois anos, sentirei vontade de comprar uma nova.

Bem, a moda analisada por Lipovetsky, a do vestuário, é a de mudança mais veloz, e constitui o maior alvo da condenação de “inutilidade”. Os ataques que a moda sofre sempre evocam uma situação de carência: “há muita gente morrendo de fome, e você achando que está sem roupa para a ir à festa!” Ou “você está cheia de dívidas no cartão, mas está a comprar mais roupas!”.

As roupas estão na moda apenas enquanto estão na vitrine. Uma saia que se retira do manequim deve ser utilizada o mais rápido possível, pois logo ela sairá de moda. Cinderela, ao menos, tinha a garantia de que sua moda duraria até a meia noite. A moda só possível no excesso, e celebra o excesso. É a vida fora do ditame da necessidade, e celebra essa condição. É fora de moda falar da pobreza, a não ser que a pobreza vire grife “ação social”.

Recentemente, militantes do movimento negro queixaram-se de uma mulher que apareceu nas redes sociais usando turbante. Segundo os militantes, a mulher era branca e estava fazendo uma “apropriação cultural”, ou usando algo que era deles. A pré-história e a história dos Estados e da produção moderna ocorreu com o uso agressivo e muitas vezes mortal de certos grupos de indivíduos. No Brasil, falamos em índios, negros, nordestinos e em pobres, seres dotados de tempo, tempo este que foi uma das principais commodities das produções. Essa população, sem dúvida, foi extensamente abusada e mal paga.

Hoje indivíduos que se identificam com eles reúnem-se em minorias, e pleiteiam direitos. A história é recusada, e procura-se fazer uma historiografia desses vencidos. As marcas da cultura também são recusadas, e utiliza-se as marcas que se entende como pertencentes à minoria, ao seu passado. Entende-se que isso é um “apropriar-se de si mesmo”. Uma pessoa branca que use algo afro está fazendo algo não permitido.

O negro entrará na moda. Ou melhor, a moda usará cada vez os motivos afro. O que se mantém como tradição, como aparato que se refere a um passado, entra na produção em massa de mercadorias e de consumo. E a parte dessa indústria que produz não vestuário para corpos nus, comidas para barrigas vazias, mas looks efêmeros e inúteis, contra todas as queixas, pegará os turbantes, os encaracolados, até os pontos de macumba.

A produção precisa crescer, e incorpora quaisquer elementos, por mais díspares ou protegidos por ciúmes que possam ser. E a moda os transforma em pura exibição. Ela distribui os signos do poder, realizando o fim das hierarquias rígidas. Todos podem vestir o signo do poder. Os militantes estarão vestidos de época, enquanto se imaginam vestidos de tradição. 
P.s. escrito com inspiração no “O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas”, de Gilles Lipovetsky.

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