Violência sufocante

Uma adolescente foi pega na estrada. Atearam fogo nela, e a estupraram enquanto morria. Após nove meses, ninguém estava preso. Nenhum culpado fora encontrado.

Na entrada daquela pequena cidade, a mãe da adolescente pagou cinco mil dólares por um ano de exibição de três outdoors, lembrando a todos sobre o crime. Um dos outdoors trazia o nome do xerife da cidade, como alguém que havia cruzado os braços para o caso. E havia mesmo. Como o próprio disse à mãe, depois de ter o nome de exposto, as investigações deram em nada.

Enquanto tinha a filha, a mãe usava cabelos soltos e maquiagem. Agora os cabelos viviam presos, a roupa era um macacão e o rosto envelhecido. Ela estava furiosa. A cidade estava incomodada com os outdoors.

O xerife sofria de câncer terminal. De vez em quando, ao falar, cuspia sangue. Mas a crise provocada pelos outdoors o fez retomar as investigações. Ele, um bom policial, voltou a querer pegar o criminoso. Mas, após um belo dia com sua família, ele se despediu da vida. Em uma carta, disse à mãe da moça que achou boa a ideia dos outdoors: eram tudo o que ela podia fazer, e mexeram com os brios dele. Reanimar-se para ser policial, enquanto o sopro não passasse a barreira dos seus dentes, ela tudo o que podia fazer. Ele até pagou pela renovação do tempo dos anúncios!

Em outra carta, o xerife disse ao policial encarregado que ele podia ser um detetive se conseguisse sentir amor. O amor daria calma, que daria a possibilidade de raciocinar. Mas assim que soube da morte do chefe, o policial quase matou o jovem da agência que pôs os outdoors.

Mais tarde, na delegacia, o policial  leu a carta do xerife para ele. Nesta hora, a mãe incendiou a delegacia. Alguem havia incendiado os outdoors. Parece óbvio que fora o policial. Ele escapa, mas salva os arquivos da investigação sobre a filha da mulher.

Bastante queimado, ele vai parar na mesma enfermaria do jovem que ele agrediu anteriormente. Apesar de sentir raiva, o jovem lhe ajuda a tomar suco de laranja. A raiva pode cessar, o outro está muito mais ferido do que ele.

A mãe reage agressivamente a algumas provocações, na rua. A raiva não sai dela.

Um tempo depois, o policial está no bar. Escuta dois homens se gabando de terem matado e estuprado uma moça. O policial pensa estar diante do assassino que eles tanto procuram. Envolve-se numa briga com ele, pegando mostras do seu dna. A análise dessas mostras diz que o homem não é quem eles procuram. Apesar disso, ele diz à mãe, aquele homem é um estuprador e assassino. Eles vão matá-lo.

O ódio que gera ataques e contra-ataques nunca termina. Atinge a todos. A morte do xerife mostra que a justiça institucional está saindo de jogo. Ela é necessária à cidade, mas o que pode oferecer àquela mãe? Viver naquele ódio a está destruindo e também à cidade.

O policial percebeu que precisa compreender o amor como daquela mãe por sua filha. Ela deve poder resolver o tormento dela, matando um homem que causa mal por onde passa. Que ela resolva logo, para que a cidade volte à paz!

Aquela seria a última morte, para que não haja mais mortes. Essa é a função do bode expiatório: alguém que não poderá ser vingado, por não ter familiares, é morto, para a expiação dos pecados da comunidade. Paulo Ghiraldelli explica isto a partir da análise de René Girard para o crucificado Jesus (http://ghiraldelli.pro.br/antropologia/qual-funcao-do-bode-expiatorio.html).

O homem será morto, como a única possibilidade para a mãe e o policial continuarem vivendo. E para que cessem as injustiças na comunidade. Os cartazes anunciavam que isso seria feito, que a pendência seria resolvida.

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One thought on “Violência sufocante

  1. Boa tarde, tudo bem?
    Então, gostaria de saber o nome do filme a que o texto faz referência. Despertou-me uma tremenda curiosidade.

    Grato pela atenção.

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