A queda de Portugal, o capitalismo e a efemeridade da história

Será que algum dia alguém vai me ter dentro de uma memória ?

No meu caso, não.

Eu sou uma chama que queima sozinha, depois que eu apagar, deixarei de existir.

Se você me lê – você abriu um arquivo. O resto de uma alma que perdeu todo o brilho e vivia esgotada.

Talvez eu tenha te trazido alguma companhia. Peço desculpas por nem sempre te trazer boas novas.

Para esses que eu escrevo. Para os perdidos, para os viajantes solitários, para os estrangeiros de terras distantes.

Quem sabe você não aprende português comigo ? É uma língua bonita. Comparada com o alemão, francês, espanhol, russo, chinês, italiano – de todas, é a mais melancólica. Independente se estamos falando de textos de Brasil ou Portugal, Camões e Machado de Assis conversam muito bem juntos.

Enfim.

Ainda existe história, senão só essa história, frágil, efêmera, esquecida ?

Esse período histórico onde nos preocupamos com textos, documentos, túmulos, registros, diários, memórias, etc, é algo bem específico da nossa época. Até então, não importava tanto sabermos tanto do nosso passado, desde claro, quando começaram a pisar nas terras os grandes lordes, reis, imperadores. Eles escreveram a história.

Eles disseram o que era e o que não era – os historiadores daquela época, só o escreveram. Eram escribas, não eram tão pretensiosos como são hoje ou sequer chegavam perto do que um Foucault e um Nietzsche foram capazes de fazer seguindo os passos do grande Voltaire.

A história nos olhos do filósofo, do que consegue fugir dessa tal de verdade, e ainda consegue trabalhar com os mitos da mesma forma que Homero e Hesíodo o fizeram.

Então, o que explica a tristeza da minha língua ? Essa mágoa quase subconsciente que nós falantes de português, temos ?

Um dia, Portugal foi grande. É. Tinha colônias por todo o mundo. Tinha o Brasil, mas também tinha Macau, como tinha a Malásia, Nagasaki no Japão, Angola, Guiné, Congo, Moçambique, a Índia chegou a ser portuguesa !!! Ser grande já foi sinônimo de ser português…

Então um belo dia, como uma filha de Roma, foram se perdendo terras aqui e ali, a grandeza dificultava o andar, machucava os pés do gigante. Como ato desesperado e de certa inocência de Portugal, ele começou a tomar empréstimos do que seria a futura nação, rosto do nascente capitalismo, o império da Grã-Bretanha.

Claro que esse não seria o grande motivo (se existe um só) de Portugal hoje não ser nem metade do que foi – mas explica porque até hoje o país sofrer com crises do capitalismo dessa natureza : a dívida. Oh, a tal da dívida pública. Oh Deus !!

Aos poucos não conseguia mais mandar tantos navios, não conseguia também atualizar a tecnologia, foi ficando difícil mandar recursos para as colônias e parte do que conseguia ia para pagar suas dívidas. Portugal foi encolhendo e a Inglaterra tomou o seu lugar como grande potência mundial.

A última monarquia da Europa não foi a portuguesa, mas a inglesa. Nem os nossos nobres se aguentavam mais, olha Dom Pedro II. Morreu de cansado.

Essa queda foi muito diferente da romana. Roma também foi grande demais e aos poucos foi ficando frágil. No entanto, ela nunca perdeu a sua glória, lutou até o fim e o espírito de Roma vive. O que é a Rússia hoje, senão uma Roma que nunca foi conquistada ? O próprio Estados Unidos da América, quando Obama era o seu líder, foi a Roma negra tão sonhada pelos afro futuristas.

A grande tristeza de Portugal – da língua portuguesa no geral – é que um dia nós fomos tão grandes que sentimos o gosto de sermos poderosos. Mesmo nas colônias, isso eu posso dizer por experiência própria, havia tanto recurso que a pobreza que hoje todas sofrem é surreal. O mesmo problema persiste : a tal da dívida e a tal da desigualdade !!

De Nagasaki, que foi atomizada, passando por Macau que virou um grande cassino, pela Índia portuguesa, pela Malásia, pelo grande Congo, Guiné, Moçambique, Angola e Brasil – A flecha que nos faz sangrar é justamente essa a do capitalismo rentista.

A grande tristeza de falar português é lembrar dessa história. Dos Reis se acharem abençoados demais por Deus e acreditarem que Portugal não poderia fazer outras coisas além da coleta de recursos – pelas colônias aceitaram até hoje serem exportadoras de matéria prima e grandes cassinos de especulação financeira.

É uma história precisa e extremamente detalhada ? De forma alguma. Mas nos ensina algo. Nos mostra porque essa melancolia, esse pessimismo constante ou um otimismo forçado, que encontramos na nossa amada língua portuguesa.

O pessimismo do devedor que precisa pagar uma dívida – o otimismo do apostador que precisa de sorte. Esses são os humores do capitalismo. Nós fomos os primeiros a nos tornarmos empresários de nós mesmos !! Ou era navegar por mares inexplorados com o risco de morrer ou perecer endividados. Não é difícil enxergar porquê Portugal pegou os empréstimos. Apostar estava no nosso sangue, tínhamos a fé, Deus estava no nosso lado. Éramos católicos. 

Dever é uma palavra no nosso vocabulário que serve tanto para descrever o pecado. A dívida perante a Deus. Como para descrever uma dívida perante ao banco. O novo Deus, capital usava da mesma linguagem. Devedor e pecador são mais parecidos do que pensávamos. A culpa é o sentimento que tornam os dois um só. Honra passou a ser crédito, pagar suas dívidas, passou a ser o “fazer o bem” do cristão.

Explica também por não sermos revoltosos no geral. Estamos desgastados demais. Talvez a grande preocupação ainda seja no final do mês pagar as contas, ainda que nesses países já houve/há riquezas o bastante para todo mundo viver bem e sem precisar se preocupar com as dívidas…Alguém tão rico como o Império português poderia muito bem esbanjar fartura para todos.

Quem se revolta ? Os que se são lesados pelas injustiças do capitalismo ou os que se veem incapazes de pagar suas contas ? A grande preocupação hoje, a única, não é nem saber se vai pro céu, mas se no final do mês vai se conseguir quitar as próprias dívidas. Não se revolta contra o capital, mas contra o dever. O grande daemon que sussurra nos nossos ouvidos é o da propaganda da educação financeira. Assim como se faz catequese, se faz essas aulas de educação financeira, que diz que devemos nos controlar com os gastos, assim como já foi dito que deveríamos conter nossos instintos.

O que gera uma sociedade que não tem mais vida. O único propósito de viver é ganhar dinheiro (que nem se sabe se vale algo).

Nós lusófonos levamos o capitalismo aos 7 mares. Fomos os primeiros a sermos globalizados no sentido extenso da palavra, ainda sim, nós somos meros devedores e não mais os grandes conquistadores que um dia fomos.

Enfim.

Você decide o que quer fazer com o que aprendeu hoje. Não vou impedir você de olhar por outros olhos. Ou até, fazer a sua história. Mas, sabe, tem algo essencial que não pode ser perdido. Por quê eu faço isso ? Por quê eu escrevo para estranhos ? Existe um motivo, caro amigo. Escrevo para os condenados, os que ninguém vai sentir falta, os que os olhos da história jamais alcançam. Há uma certa magia em ser assim, ser legitimamente um mito, o que inspirou algum dia Aquiles a ser Aquiles. O obscuro, o oculto, o impreciso, nos engrandece, enquanto a luz é limitada, as sombras permeiam tudo.

Então, mesmo esse saber histórico, tem um propósito primeiro de te ajudar a pensar estratégias para viver melhor. Saber, mas saber dessa forma, sem travas com a realidade, ou com alguma verdade, ou com algum interesse econômico, ou algo do gênero. O grande interesse é viver melhor. Saber para viver. Conhecer como um instinto, como enxergar, ouvir, cheirar, comer.

Será que alguém vai me ter dentro de uma memória ? Não amigo. Seremos esquecidos, assim como os reis do Egito tiveram seu nome apagado, sendo criaturas divinas, nós seremos apenas pó e nessa condição de pó, precisamos mais do nunca aprender a viver. Dado que a morte nos reserva uma eternidade no esquecimento.

Como Shelley um dia escreveu:

“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!”

Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas se espalham para longe”

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