A saída da Ford e a guerra dos lugares na era do capitalismo financeiro

A notícia do fim da produção de carros da Ford no Brasil não deveria ser tão surpreendente como foi, pelo menos para boa parte dos brasileiros. A empresa já vinha avisando que encerraria sua produção no país desde 2018. Sendo que em 2019 fechou sua filial em São Bernardo do Campo – SP.

Menos surpreendente ainda são os motivos que levaram a esta decisão da empresa. Os muito divulgados “prejuízos anuais da empresa” e falta” de subsídios” não respondem à questão de forma satisfatória, pelo menos não para os mais atentos ao funcionamento e ao movimento do capitalismo atual.

A Ford está fechando fábricas no mundo todo. Sim, no mundo todo! E isso acontece justamente porque ela, assim como qualquer grande transnacional que se preze, entende que a economia capitalista, no que tange à sua matriz energética, está se deslocando para a utilização de fontes renováveis de energia (vários países já estão começando a restringir a venda de automóveis abastecidos por gasolina e diesel). E quando se trata dessa questão, as grandes montadoras já estão reorganizando, há alguns anos, sua produção mundial para o desenvolvimento de carros híbridos e eletrificados. É aí está a questão central. O Brasil não é viável para a Ford e para nenhuma montadora quando se trata de mercado e infraestrutura para carros elétricos ou eletrificados, pelo menos não a curto e médio prazo. O Estado brasileiro pouco investe nesse setor, e pior, ainda privatiza setores de energia, que são estratégicos para o país, não tendo um projeto de modernização das infraestruturas energética, portuária e logística do país, que ainda estão organizadas dentro da lógica do combustível fóssil, fazendo o Brasil perder relevância e competitividade no mercado global de automóveis e em outros mercados também, sendo subjugado até mesmo por economias de menor poderio como a do México, Argentina e Uruguai.

A partir desta conjuntura, faz-se necessário trazermos ao palco das reflexões o geógrafo Milton Santos e sua “guerra dos lugares”.

Milton Santos define, no seu célebre livro “A Natureza do Espaço”, a guerra dos lugares como uma disputa, tanto no âmbito fiscal como no técnico-informacional, entre espaços geográficos (cidades, estados e/ou países) para ver quem receberá os investimentos das transnacionais. Milton afirma que esse processo é realizado pelo circuito superior da economia, mas afeta também o circuito inferior (Conceitos podem ser aprofundados em outro texto), colocando os espaços ou lugares em situação subalterna à economia hegemônica de um período.

Por isso, para poder “vencer” essa guerra os lugares precisam modernizar-se e evoluir constantemente, para que tenham condições de se adequarem ao movimento do capital e do capitalismo, que na atual conjuntura, é hegemonicamente financeiro.

Para Milton Santos, todo espaço conhece assim uma evolução própria, resultado de uma conjugação de forças externas pertencentes a um sistema cujo centro se encontra nos países-polos (donos das patentes e da tecnologia de ponta) e de forças já existentes nesse espaço.

No caso do Brasil, especificamente no que diz respeito à saída da Ford, o país “perdeu” a guerra dos lugares para a Argentina e Uruguai justamente porque não adequou o seu espaço ao que o capital exige em relação à produção de automóveis no século XXI. O espaço geográfico argentino e uruguaio é mais atraente para esse setor da economia por ofertarem uma infraestrutura mais moderna, com portos mais acessíveis, condições fiscais mais interessantes e principalmente abertura para a expansão dos carros elétricos, além de geograficamente estarem próximos do Brasil, um grande mercado consumidor de carros, e fazer parte do mesmo Bloco Econômico que estes dois países, facilitando e barateando o escoamento de produtos para nosso país.

Diante da lógica do capitalismo financeiro moderno, que pouco necessita de geração de empregos em massa no ramo industrial, o Brasil está sendo relegado à mero país exportador de matérias-primas, tanto no setor de alta tecnologia como no setor de baixa tecnologia, perdendo a guerra dos lugares para países que conseguem minimamente corresponder à sua posição na divisão internacional do trabalho, que é a de produtores de produtos de baixa e média tecnologia para exportação regional. O Brasil parece que nem isso está conseguindo fazer. Trágico.

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