A vida como jogo

“Comentário sobre a imagem : Note como cada pedaço da terra é organizada conforme uma lógica bem específica e precisa, não há espaço para as ervas daninhas crescerem, dos insetos comerem as folhas, do arroz adoecer e ser jogado fora.”

 

Se tem um fenômeno moderno, além de claro, da globalização e do capitalismo, que engloba os 7 mares é o suícidio.

 

Não deveríamos estranhar que essa prática tão condenada seja tão frequente em lugares tão diferentes ?

 

A explicação de muita gente passa pela narrativa da psicanálise/psiquiatria, se chega em alguma outra motivação, costuma-se citar alguma influência de um término de relacionamento, mudança no contexto político social, ou por exemplo com uma demissão ou algo do tipo.

 

Ainda que sim, isso funcione como explicação e traga à luz alguma prática para prevenção do suícidio, isso ainda não é suficiente para responder a pergunta : por que as pessoas cometem suícidio ?

 

Eu venho a partir de uma leitura de Byung Chul e um pouco do meu Durkheim do ensino médio, para tentar trazer não respostas, mas perguntas melhores sobre esse assunto.

 

Se o suícidio é comum no Brasil, como é comum na China, ou na Noruega, o que esses países tem em comum ?

 

O Brasil, vocês bem devem saber, só pode ser explicado pelos olhos de Machado de Assis. Munido da “metafísica do mal” do Schopenhauer, Machado sempre retrata o Brasil como o lugar do trágico par excellence. O conto Cartomante é um belo exemplo, Machado constrói uma história onde Camilo, no início da história um não crente em crendices, numa situação de tensão, usa da consulta da cartomante para se acalmar diante da incerteza do futuro.

 

Nada define mais o Brasil, como um país onde “O presente que se ignora vale o futuro”. O que explicaria um suícidio no Brasil ? 

 

A maneira que muita gente vive e isso é universal em relação as classes sociais. Acordar cedo, trabalhar das 5 às 5 sem descanso e na pressão constante de desemprego é a vida de muita gente. Do pobre ao rico.

 

Da noite pro dia pode se tornar um miserável no Brasil, independente da sua história e sem nenhuma lição para te ensinar. O contrário, só é verdade por algum tempo, se enriquece rápido em alguns sob o peso de cometer algum crime, ou se apostar alto demais na bolsa de valores, ou de se arrumar amigos famosos, fazer sucesso na internet, etc.

 

Há uma certa instabilidade constante – mas não é a instabilidade da vida, mas a do jogo.

 

Os positivistas introduziram a ideia de progresso na história, a indústria do Self Made Man trouxe a ideia de vencedores e perdedores.

 

A ideia de que há quem se fez vencedor e quem é perdedor, é porque quer ser perdedor, não há outras causas senão a vontade de vencer e, para quem perdeu, falta dela.

 

Tanto a perda de um emprego como o término de um relacionamento, são motivações para suícidio. O que há em comum entre os dois ? A ideia de um jogo.

 

O trabalho é um jogo. Se faz tarefas, se compromete com alianças, se cria inimigos, da mesma maneira que se faria no Big Brother. Não é a toa que o programa, apesar de tantas críticas, faz sucesso mundial.

 

E quem é o demitido ? É o que falhou em jogar direito. É quem foi incompetente, portanto, um perdedor.

 

Relações amorosas sempre tiveram, também, uma relação de poder. Amar de certa forma é um se entregar ao poder do outro, e ao mesmo tempo, exercer o seu poder no corpo do outro.

 

Quando um relacionamento se torna um jogo, o que há senão uma disputa de poder conjunta, como uma sociedade empresarial, em busca de mais poder e influência.

 

A ideia de que Bolsonaro e Michelle foram eleitos não deve ser tomada de forma banal : Se quase 40% da população que os aceitam, também concordam que, um casamento serve apenas como uma ferramenta de negócio, uma forma de enriquecer.

 

Michele secretária, casa com seu chefe, Bolsonaro, não por amor, mas por negócios.

 

Amar e jogar nunca foram tão próximos. Perder no amor, não é se perder por amores, mas simplesmente perder o jogo.

 

O jogo é tudo, é o limite da nossa vida.

 

Dos pontos e “achievements” do Uber à ter títulos, carros, casas, uma quantia enorme de dinheiro no banco. Tudo isso define o jogo. É isso que permeia a sociedade chinesa, como permeia aqui e a Noruega. Nós carregamos “achievments” como maneira da nossa vida ter sentido, assim como no jogo, eles são a razão de se continuar jogando.

 

Nossas conversas se tornaram jogos. O que não falta são pessoas querendo vencer os debates. Ou querer “estar certo” e não só isso, vencer o outro que “está errado”.

 

Minha vingança foi vencer, essa é a frase que expressa o ressentimento do derrotado. O que perdeu o jogo, não conseguiu se tornar acadêmico, mas conseguiu “sucesso” de outra maneira. – Este vocês sabem quem é. Ele venceu, supostamente, para isso precisa deixar claro que “deu a volta por cima”, por isso é tão convencido a falar de tudo.

 

Por isso se discute tanto Stalin vs Trotsky. É tão irrelevante e tão sem sentido, quanto os jogos de simulação. Simular um mundo onde um venceu e outro não, onde um é santo e outro não e por aí vai. Se discute a história em termos de que se discute uma partida de League Of Legends, onde há a técnica e a maneira de jogar perfeita para determinada situação.

 

O outro é um inimigo, um corpo estranho, um eu deformado. A imagem do espelho distorcida do narciso – aquele que só busca o outro parte perceber um reflexo de si mesmo.

 

Vilela quase 120 anos depois de quando foi escrito, jamais mataria ninguém, além dele mesmo.

 

Não se perde no amor. Se perde no jogo, que é o limite da vida, onde qualquer dia desses, numa máquina de cassino qualquer que representa nosso destino, nos embriagamos demais, a sorte para de sorrir para nós e paramos na sarjeta onde todos os vencedores um dia vão parar.

 

Vencedores, perdedores, todos vão parar no cemitério, já disse o rapper Jpegmafia, money they don’t die, all the niggas do.

 

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