A zona escura do dizer e do ser

(Resposta ao texto do Paulo, “A acusação de inveja é insegurança, vocação autoritária e incompetência”)

Um especialista fala na tv. Na sala de casa, comenta-se à vontade. Mas que não se ouse respondê-lo em público! Caso você faça isso, o especialista ou o público dele te colocarão de volta no seu lugar, aonde ninguém te ouve.

Paulo chamou de midiagogo aquela pessoa que estudou um pouco mas, ao invés de utilizar isso para propor frases em um ambiente de fazer pensar, de fazer outras pessoas também dizerem frases, adotou um discurso que inibe frases novas.

Leandro Karnal parece estudado, mas ao falar, por exemplo, de religião, não vai além de um discurso comum. E não faz ninguém sair do lugar. Este discurso é o que todos dizem, ao se referirem à religião. Em relação a esse tema, há os que o vivem e há os que falam sobre ele. Os segundos, não raro, repetem um senso comum. O especialista e sua plateia parecem fazer circular um discurso novo, ou profundo, mas falam o mesmo discurso com outras palavras.

Há, entre eles, uma relação de espelho: o que um tem é o que falta ao outro. O que o primeiro tem é na medida do que falta ao outro, ambos acreditam nisso. Com Lacan, o universo simbólico é inesgotável, pois uma palavra sempre reenviará a outra, e isso também responde pela incomensurabilidade do inconsciente. Já o discurso é um vocabulário restrito, e combina bem com a pretensão do eu em ser completo e coerente.

O midiagogo quer ser o “eu que sabe”, e sua platéia quer ser o “eu que precisa saber”. Mas esse saber e esse não saber são saber x e não saber x. O jogo, aí, não tem furos. O midiagogo apresenta-se como o submetido às regras da linguagem restrita, e o seu público como aquele que quer se iniciar.

Sentimo-nos plenos, mas confessamos uma certa falta. Levamos essa falta para quem tem a figurinha certa. Com isso, o eu pensa se completar. Será que, na primeira esquina, ele não perde a figurinha, só para ter que retornar na próxima semana? É difícil distanciar-se do espelho.

Uma outra forma de lidar com os saberes é perceber que, para cada frase, há algo a ser dito. Pensar é percorrer uma ideia e então dizer algo mais. Esse algo não se quantifica, não se sabe o quanto não se sabe. O público do midiagogo imagina saber o quanto precisa aprender a mais: é a distancia entre ele e o midiagogo. No midiagogo não há qualquer sombra de dúvida! A posição dele é feita justamente de parecer um ponto de chegada confiável. Mas não há ponto de chegada.

Diferentemente do saber do especialista, o grande Outro é incomensurável para quem nasce mergulhado nele. Seguimos regras de linguagem, mas cada coisa que dizemos nos faz dizer mais coisas, se não estivermos preocupados em frear nossa fala, em nome de um eu.

Cada saber é cercado de zonas escuras. Cada eu, também. Isso é um potencial para se dizer coisas novas a respeito deles. Ao homem não é possível ser tudo ou dizer tudo. Não se atinge a totalização. Mas algo se é e se diz. E se deve ser e dizer, afirmativamente, para que se seja e se diga mais.

3 thoughts on “A zona escura do dizer e do ser

    1. Nunca me esqueço de quando vi a Marcia Tiburi falando “um filósofo, aí”, referindo-se a Hegel. Soou como se ela quisesse desmerecer o Hegel, e também a filosofia. Desmerecer, tirar o merecimento, o valor. É como se, para ela, a filosofia devesse ser despida do seu valor ao ser oferecida às pessoas. Já que elas são necessitadas, e o autor serve para satisfazê-las, ele não pode ir além disso, para que as pessoas também não sejam forçadas a irem além disso. Então cria-se uma igualdade entre público e autor, o segundo não tendo obra e primeiro tendo menos, ainda.

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