ARRIARAM NOSSAS CALÇAS PARA O CORONAVÍRUS

Há pessoas que ainda não entenderam que a pandemia atual do coronavírus não é coisa da biologia, mas sim da política. A pandemia ocorre na polis, o espaço de convivência dos cidadãos da cidade. É nela que a pandemia surge, se desenvolve e gera uma série de efeitos e conseqüência na vida das pessoas, ou seja, na vida “na” e “da” polis. Mas até aí, tudo bem. Se trata daquilo que poderíamos chamar de “divergência conceitual”, ou talvez de “perspectivas distintas”.

Porém, uma outra compreensão, que não se trata de divergência conceitual ou de perspectiva distinta, mas beira a ingenuidade, é aquela que diz que o coronavírus pegou a todos nós de surpresa. Ora bolas, é besteira falar isso em pleno séc. XXI, onde temos uma civilização altamente tecnológica, que já inclusive piso na lua, ou seja, já conquistou o universo, pra relembra uma frase típica do período da Guerra Fria.

O coronavírus não é a primeira nem será a única pandemia deste século, tão pouco da história da humanidade. E nem precisamos recorrer ao passado para afirmamos isso. Uma década atrás tivemos a pandemia do H1N1 que colocou o planeta em alerta – ainda que numa intensidade menor que o coronavírus – alterando a rotina na polis, e fazendo vítimas fatais ao redor do mundo. Mas se visitarmos a história vamos nos deparar com a Gripe Espanhola, que um século atrás matou cerca de 3% da população mundial. E o que falar da tão famosa “peste negra” que dizimou a Europa séculos atrás!

Exemplos não faltam de pandemias na história da humanidade, o que nos leva a uma pergunta crucial: porque, mesmo em meio a tanta tecnologia, não somos capazes de nos preparar para um mal quase que previsível? A resposta pra isso não vem da biologia, mas sim da polis.

Desde as décadas de 80 e 90 do século passado, a política neoliberal vem cada vez mais sufocando os sistemas de saúde e de vigilância epidemiológica ao redor do mundo. A lógica do “Estado mínimo” faz com que esses recursos sejam continuadamente diminuídos de modo a precarizar os sistemas de saúde de tal modo que não sejam capazes de dar vazão a demanda diária, muito menos de uma pandemia de grandes proporções. Da mesma forma, os sistemas de vigilância epidemiológica ficam deficitários e não conseguem atuar de forma a evitar o surgimento de novas pandemias.

Diante desse cenário, é um erro falar que fomos pegos de calças curtas. Na verdade, o capitalismo financeiro atual abaixou nossas calças nos deixando vulneráveis ao coronavírus. O historiador americano Mike Davis afirmou em seu texto “A crise do coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo” que

os departamentos de saúde locais e estaduais – a primeira linha vital da defesa – têm hoje 25% menos pessoal do que tinham antes da segunda-feira negra, há doze anos. Além disso, na última década, o orçamento do CDC caiu 10% em termos reais. Sob Trump, as deficiências fiscais só se ampliaram. O New York Times informou recentemente que “21% dos departamentos de saúde locais relataram reduções nos orçamentos para o ano fiscal de 2017”. Trump também fechou o escritório da Casa Branca contra a pandemia, uma instância criada por Obama após o surto de Ebola de 2014 para assegurar uma resposta nacional rápida e bem coordenada às novas epidemias”.

O mesmo cenário relatado por Davis nos EUA se repete no Brasil, mesmo que tardiamente devido ao atraso com que as políticas neoliberais chegaram ao país. A Emenda Constitucional nº 95 de 2016 congelou os investimentos em saúde pelos próximos 20 anos. Pesquisadores dizem que a área perderá neste período cerca de RS 400 bilhões em recursos. Só no ano de 2019 foram R$ 13 bilhões a menos destinados ao sistema de saúde e de vigilância epidemiológica, aumentando a precarização do serviço público e fragilizando a população diante do coronavírus.

O capitalismo financeiro faz que a polis fique vulnerável diante de ameaças como essa, uma ameaça biológica que rapidamente se torna um problema da polis, ou seja, da política econômica que é adotada pelos países para com seus sistemas de saúde. As decisões políticas, nesse caso, decidem quem vive, e quem morre. É o capitalismo em ação.

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