As vaias para o Temer não foram vaias ao Temer

O Presidente Michel Temer foi vaiado no Maracanã em plena abertura das Olimpíadas. Dilma passou pela mesma situação ao ser vaiada na abertura da Copa do Mundo de 2014 no mesmo estádio. Vaias a líderes são mais comuns do que imaginamos. Mas isso não nos autoriza a deixa a análise crítica de lado e reproduzir discursos de senso comum que em geral agradam determinados grupos ideológicos.

Esquerda e direita não conseguiram fugir da ideologia de costume e analisar o caso. A direita preferiu simplesmente dizer que quem vaiou foram comunistas defensores da quadrilha do PT. Há, há, há!!! Ainda há cabeças de bagre que pensam que os comunistas existem. Já a esquerda preferiu ficar discutindo se a fala do Galvão Bueno. Repetiu a mesma dose de infantilidade ao chamar a Globo de golpista e dizer que Galvão estava defendendo Temer. Pura bobagem.

A vaia que Temer ouviu foi a mesma que Dilma. A intensidade pode ter sido diferente, mas o sentido foi o mesmo. Pouco importava quem seria o chefe de Estado ali presente. O fato é que seria vaiado. Dilma, Lula, Temer, Aécio, qualquer um ouviria as vaias, pois elas não foram vaias ao Temer, mas sim vaiais endereçadas ao Temer por ocupar o papel institucional de Presidente da República. Foi o mesmo que aconteceu com Dilma na Copa de 2014. Mas infelizmente a imprensa brasileira, e muito menos nossa classe política conseguiram entender isso.

A Copa e as Olimpíadas mostraram estruturas de padrão de primeiro mundo. Estádios luxuosos e instalações modernas mostraram a capacidade do Estado brasileiro em realizar grandes obras e eventos como poucos países ricos e desenvolvidos fazem. E foi justamente esse o ponto que poderíamos chamar de propulsor paras ambas as vaias. A população ficou e está irritada pelo fato do Estado ser capaz de construir e fazer funcionar um estádio de futebol padrão FIFA, mas não ser capaz de construir e fazer funcionar um hospital ou uma escola padrão FIFA ou padrão COI.

Ambos os eventos mostraram que recursos não faltam ao Estado brasileiro, e muito menos capacidade técnica para realizar as obras e os eventos. O que falta mesmo é a vontade política em fazer os serviços públicos terem qualidade, em fazer o hospital, a escola e o metrô funcionarem. Isso irritou a população de uma forma inimaginável. Quem da esquerda pensou que Temer foi vaiado por ser golpista enganou-se. Puto besteira. O mesmo aconteceu com a direita ao pensar que Dilma foi vaiada pelos escândalos de corrupção do PT. As vaias foram vais direcionadas ao chefe da República no sentido de reverberarem a toda a classe política, de Brasília aos Estados e municípios.

A prova maior disso é a alta rejeição entre a população que ambos os eventos tiveram. Duvido muito que o Brasil sediará uma nova edição da Copa do Mundo, Pan-americano ou Olimpíadas no futuro. Essa rejeição já acontece em países europeus que não aceitam mais terem que canalizar recursos e esforços para esse tipo de competição em detrimento de toda a sua população. Infelizmente nossa classe política não quer perceber isso, e aí a irritação aumenta. Irritação não com a democracia representativa – como alguns defenderam – mas sim com quem nos representa, ou não.

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