Autenticidade filosófica

Notas sobre o livro Heidegger ou as vicissitudes da destruição, do Roberto B. Graña.

[O presente livro tem como subtema a psicanálise e a crítica filosófica.]

Não há nada mais desgostoso que pegar um livro sobre Heidegger, cuja proposta da obra é analisar sua filosofia, e se deparar com “ Heidegger e o nazismo”.  E quando este livro não dá elementos para pensarmos Heidegger sem este conectivo “e”, como se nazismo fosse um adjetivo para o pensador, daí o desprazer é total.

Heidegger ministrou por dez anos seminários para os psicoterapeutas. Este evento originou um livro Seminário de Zollikon, editado por Medard Boss (Alemanha). Assim o livro descrito no título deste texto faz a análise sobre este seminário de Heidegger.

Logo de início espantei-me com o prefácio feito para a obra de Graña, pois o autor do texto, Donaldo Schüler (professor aposentado da UFGRS), faz uma dicotomia simplória e dá como título ao seu prefácio Heidegger entre o Ser e o ente. E, lá pelas tantas , escreve sobre Heidegger “O incansável explorador em busca de palavras escondidas (Alétheia) não se deixava abalar por entes que se contorciam ensanguentados em campos de batalha ou que inspiravam  ar envenenado em monumentos erguidos à limpeza étnica”  e continua “ Os fenomenólogos proclamam que só conhecemos o que desejamos conhecer” (p.10).[1]

Por que este prefácio é de mau tom?

Ora, ele colocou o pensador alemão como se fosse um militar na primeira fileira da infantaria alemã. E não nos dá, que tem como obrigação depois deste prefácio, fatos ou documentos que comprovem o conhecimento de Heidegger das atrocidades que o exército nazista  praticava. Saliento, que  há uma lacuna em acreditar que só pelo fato de Heidegger pertencer ao partido hitlerista  implica em conhecimento das condutas do exército alemão – falta, ao autor do prefácio, o nexo de causalidade entre o conhecimento de Heidegger e as atrocidades que aconteciam no período; e, só posteriormente, poderá alegar alguma negligência de Heidegger sobre os fatos.

Pois, como relata Alain Boutot, em Introdução à filosofia de Heidegger, alguns dos seminários do pensador alemão são vigiados pelo partido hitlerista, outros até interditados: como o seminário consagrado ao Ernst Jünger, O Trabalhador. A sua publicação [de Heidegger], A Doutrina Platónica da Verdade não deve ser comentada nem citada.  E uma das primeiras ações do reitor Heidegger é proibir o auto-de-fé a livros –  evento de “limpeza” da biblioteca da universidade de autores judeus. E  Heidegger se opôs quando o Ministério lhe pedira a demissão de dois professores judeus: o professor de medicina, Thannhauser, e o professor de físico-química, Von Hevesy, e proibirá uma manifestação de estudante contra Thannhauser (p.15-16).[2]

Todavia, a exposição e a crítica superficial ultrapassa o prefácio e  continua no primeiro capítulo da obra de Graña. E este afirma “ Heidegger não poderá , por razões diversas, ser comparado, como crítico, a Sartre e a Deleuze, devido a intencionalidade hostil que a priori o move. Ele não leu suficientemente a obra de Freud – como fizeram os dois filósofos franceses – e possuía razões de ordem íntima para expressar o seu desagrado para com uma obra redigida em língua alemã por um judeu […]” (p. 19). Ignorando, portanto, a relação que este teve com Arendt e com Husserl. E, para piorar, arrisca uma análise da identidade de Heidegger “ O sentimento predominante em tais personalidades [inclui Heidegger] é de uma ausência de identidade estável – o que predispõe à servidão imaginária a um Outro tirânico, assim como a identificação com este -, de indiferença afetiva e de um persistente taedium vitae; e talvez não seja por puro acaso que Heidegger dedica um de seu mais importantes livros [Os conceitos fundamentais da metafísica] justamente a análise deste sentimento – o tédio […] (p. 34). Tais características tentam aproximar, em nota de rodapé (que não reproduzirei aqui), as identidades de todas as figuras que foram contemporâneas de Hitler. Tal gênese da identidade é atribuído, pelo autor, ao sistema educacional do período que gerou todas as personalidades e que impossibilitou outros indivíduos de identificar a loucura na sua própria educação.

Por fim, o autor fecha o capítulo 1 (um) enaltecendo o legado do filósofo Heidegger.

Não há nada mais estranho que, diante de Heidegger, um filósofo que possui mais de cem mil folhas manuscritas – algumas inéditas-, olhar para o homem Heidegger e tentar encaixá-lo em um perfil  nazista, através de uma “análise” psicopatológica-psicanalítica.

Quando a proposta não é biográfica e, querem rotular o homem, pode ser algo pouco plausível e, em última consequência, beira à desonestidade intelectual. Claro! Uma boa biografia faz o oposto da rotulação.

Enfim, devemos aprender que diante da proposta crítica da obra, devemos ater-nos nesta. Pois, quando queremos criticar o caráter do autor, além de desviar da proposta [obra], incorremo-nos ao erro ad hominem.

Arrisco aqui uma conclusão ou situação hipotética: seria possível um analista escrever uma biografia sem confundir esta com o homem? E  nesta confusão, homem e biografia, tentar analisar e tirar conclusões psicanalíticas da biografia que ele mesmo criou?

Entretanto, o erro crasso está no fato de Graña não compreender que Heidegger é um filósofo clássico e querer deste um comportamento de psicanalista diante de psicanalistas, ao invés de perceber que se trata de um filósofo diante de psicanalistas. O autor pede para Heidegger dar uma palestra de Freud, ou Ponty ou  Sartre; esquece, portanto, que não pode pedir para um filósofo se comportar como não filósofo. E, em última instância, confunde palestra com seminário.   

[1] GRAÑA,  Roberto. Heidegger ou as vicissitudes da destruição. Porto Alegre: AGE, 2016.

[2] BOUTOT, Alain. Introdução à filosofia de Heidegger. Portugal: PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA, 1991.

6 thoughts on “Autenticidade filosófica

  1. Pelo livro da Arendt, os oficiais nazistas utilizavam eufemismos para o que faziam. Até em documentos oficiais. Por exemplo: para a morte de um grupo de pessoas eles davam o nome de “solução final”. E apenas os encarregados de cumprir essas ordens tinham acesso a esses documentos. Isso servia não apenas para ajudar a nublar os olhos de quem as cumpria, mas também para manter, por parte de intelectuais, jornalistas e o publico em geral, um total desconhecimento do que se fazia.

  2. Eu me lembro de um professor, na graduação, que contava que nem mesmo os alemães sabiam de campo de extermínio. E muitos se envergonhavam por não saber explicar como isto aconteceu. Sobre a obra, do meu texto, achei muito leviano (eufemismo) a forma com que o autor trata Heidegger. Mas nada melhor que Arendt para saber o que passava, que sentiu de perto o nazismo.

    1. É na linha do “Guia politicamente incorreto”: livro feito para quem não frequentou direito a escola, além de querer ser um crítico dos críticos. Há a conhecida figura do jovem que escutou que o “capitalismo explora o trabalhador”, e parou de ir às aulas para ficar fazendo greve. Agora há o também o que pára de ir às aulas, mas o faz para ficar reclamando dos colegas “politizados” e da escola “crítica”. Para este segundo tipo é que são feitos esses guias politicamente incorretos, um material para se queixar dos outros, entendendo tão pouco das coisas quanto eles.

  3. Vi isto em uma livraria – exatamente isso que você diz. Estava na estante de filosofia, procurava um livro específico, foi quando aproximou perto de mim dois jovens. Eles olharam um tempo o livro de longe, logo depois a garota disse : “aquele é francês, Sartre….” e quando chegou no Heidegger ” aquele era nazista” e ela saiu da livraria. Isto ocorre porque alguns escritores brasileiros acham que podem substituir toda a filosofia de um clássico por jargões. Mas isto tem que parar, pelo menos ao tocante sobre livro de filosofia.

  4. Hoje eu estava pensando nos universitários que fazem questão de mostrar uma militância, de mostrar uma posição definida: a filosofia é um entregar-se a um filósofo. Quem está nessa, torna-se difícil de ser enquadrado por uma identidade ou identificação. O próprio filósofo é algo que se renova. Então essa entrega é tudo o que pode haver de mais difícil para quem precisa basear-se numa afirmação. Veja, posso afirmar identidades e requerer direitos. Posso afirmar o que estudei, um saber. Mas dizer que me defino por essas coisas, que elas encerram tudo o que quero ser, aí me torno um boneco cheio de jargões tatuados.

  5. O duro quando o entregar a um filósofo é apenas entregar-se a uma militância. E há confusões entre conceitos filosóficos e jargões. A filosofia deve dissolver essas confusões.

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