Beethoven: mais um dos atingidos pelo coronavirus

Ao contrário do que muitos ingenuamente andam dizendo, o coronavirus não atinge a todos por igual. Só os muito desinformados acreditam que estamos isolados por conta de um vírus democrático. Se há no vírus alguma coisa da Revolução Francesa, é o cantarolar dessa criatura maligna, que além de sádica é zombeteira. Ao mesmo tempo em que danifica nossos pulmões, estoura nossos tímpanos ao anunciar para o que veio. Não bastando apresentar ‘’liberdade, igualdade e fraternidade’’ como um lema dela e só para ela, inventou de contaminar até nossos brioches.

Ludwig Van Beethoven, todavia, foi realmente um democrata. Quando compôs sua terceira sinfonia, dedicou à Napoleão. Mas ao tomar conhecimento do que era o bonapartismo e suas aventuras tirânicas, mudou de ideia e fez questão de apagar o nome de Napoleão. A Heroica, isto é, a Terceira Sinfonia, deveria ser exatamente o que ela era: uma sinfonia heroica! E não algo tal como uma bela escultura que, embora se fazendo representar grandiosamente, poderia muito bem ter como representado pessoas as mais baixas. E assim caminhou Beethoven até o fim dos seus dias. Ora como grande compositor, ora como grande democrata.

Já o vírus não compõe nada. O que ele faz é destruir. Retira de nós o que nos é importante – as nossas vidas – e solapa da vida aquilo que ela muito estima – sua beleza. Mas por que Beethoven?  E por que sua obra? Por que tirar, da sua vida, sua obra? E por que tirar, da sua obra, sua beleza?

Grandes foram os ensinamentos dos filósofos antigos quando nos mostraram que as ações corretas acabavam por ser também belas ações. E grandes foram aqueles que os escutaram e viram que as ações belas acabavam por ser também corretas ações. Soubesse, o coronavirus, um pouco de filosofia, não faria o que está fazendo ao impedir que se comemore os 250 anos de Beethoven. Pudesse apreciar ao menos um pouco da beleza da democracia, não estaria perdendo o casamento que não pode morrer entre o Ode à Alegria e a fraternidade.

‘’Abracem-se milhões de seres! Enviem este beijo para todo o mundo!’’, anunciou Schiller. Mas o coronavirus, sabendo-se feio e sórdido, não conseguiu o escutar. Enraiveceu-se e atingiu justamente aquele que tentou dar voz à fala. Atingiu Beethoven! Partiu da raiva e chegou no escárnio. Impediu-nos a proximidade! Ele só não imagina, bicho imundo e burro, que a obra é a Inacabada.

Isaias Bispo de Miranda é estudante de filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – 12 de maio de 2020

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