Bolsonaro dará um golpe?

Dias atrás minha amiga Flávia Motta me perguntou o seguinte: “você acha que há chances de o Bolsonaro dar um golpe de Estado e implantar uma Ditadura?” Não, respondi a ela. Não há nenhuma chance.

Vários políticos, jornalistas e até mesmos intelectuais andam dizendo que Bolsonaro está preparando um golpe de Estado, mas eles estão completamente errados. Para que haja um golpe é preciso haver duas coisas: conjunturas favoráveis e projeto político. No Brasil atual, “governado” por Bolsonaro, não há nenhuma das duas coisas.

Quando do golpe de 1964 havia uma conjuntura nacional e outra internacional favoráveis ao golpe. No plano externo, havia o embate da Guerra Fria entre EUA e URSS pra ver quem teria mais hegemonia sobre o mundo. A questão de CUBA havia acendido um alerta em toda a América, mostrando que o comunismo não estava tão longe de nós quanto pensávamos. É claro que no Brasil nunca houve ameaça real de comunismo, até por isso os EUA nunca se preocuparam realmente com a nossa situação. Mas o fato é que os militares criaram a narrativa do “inimigo comunista” pra justificarem o golpe.

Nossa conjuntura interna também era favorável. A classe média, principalmente a carioca e a paulista, aliadas a Igreja e a imprensa nacional, tinham calafrios ao ouvirem a palavra “comunismo”. Era como um fantasma que dormia debaixo de cama para na calada da madrugada lhes atacar. Foi por isso que, quando do 31 de março de 1964, a imprensa, a classe média, a Igreja, Juscelino, e tantas outras entidades e figuras políticas acabaram por apoiar o golpe. A narrativa de que havia uma ameaça comunista, por mais louca que fosse, saiu vencedora.

Hoje não há nem contexto externo, muito mais interno, para um golpe de Estado no Brasil. Nem mesmo as Forças Armadas estão dispostas a fazerem isso. A democracia liberal prevaleceu em todo o mundo – ao menos em grande parte dele – e qualquer tentativa de golpe é rapidamente repudiada por toda a comunidade internacional. Da mesma forma, não há apoio interno para isso. As manifestações de rua não tem reunido mais do que meia dúzia de lunáticos em frente ao Palácio do Planalto, ou na Avenida Paulista. A Igreja, a imprensa, até mesmo a classe média, não apoiam um novo governo militar. Até mesmo porque sabem que dá última vez que apoiaram acabaram traídos: o golpe que deveria durar pouco tempo e ser apenas um momento passageiro para o retorno a democracia (já que eles acreditavam que Jango estava implantando uma ditadura comunista) acabou durando 21 anos e perseguindo seus próprios apoiadores.

Da mesma forma, não há um projeto político como havia em 1964. Os militares já deixaram claro que não querem assumir a linha de frente dos problemas do país. Dar um golpe é sinônimo de trabalho, muito trabalho. Igualmente, Bolsonaro continua no mesmo ritmo com o qual foi Deputado Federal durante quase 30 anos: nenhum trabalho, a não ser a guerra de narrativas contra a esquerda, coisa que ele aprendeu na AMAN.

Muitos não conseguem perceber que Bolsonaro não quer governar. Ele não quer ter trabalho. Ele não quer seguir a liturgia do cargo. Ele não inaugura obras, ele não respeita os protocolos, ele não segue os rituais. Ele é o cara que aparece de blazer e chinelo, que come pão com leite condensado, que mostra a barriga gorda e cabeluda em plena rede nacional. Ele é o político da não-política, do não-governo. Dar um golpe significaria ter que trabalhar, ter que de fato assumir as responsabilidades do cargo pela condução do país. A todo momento Bolsonaro deixa claro que não quer que joguem nenhuma responsabilidade e nenhuma culpa em seu colo, que tudo é culpa de terceiros, sejam os Governadores, os Prefeitos, o STF, a imprensa, etc. Ele não chama as responsabilidades para si, coisa que todos os Presidente da nossa história fizeram.

Pela primeira vez temos um Presidente do não-governo. É isso que a maioria dos analistas não percebem. O que temos hoje é algo totalmente inédito. Temos um Presidente que não se preocupa em inaugurar obras, lançar programas, subir em palanques, não. Nada disso. Ele se preocupa simplesmente em criar guerrinhas ideológicas diariamente, como fez durante 30 anos em que esteve na Câmara dos Deputados.

Aliado a tudo isso, é preciso lembrar que Bolsonaro venceu na democracia, se elegeu nela e por ela, então não faz sentido dar um golpe. Pessoas só dão golpe quando percebem que pelo voto, no jogo democrático, nunca obterão êxito, como foi o caso dos militares em 1964: eles sabiam que jamais venceriam uma eleição, pois, afinal, quem votaria em caras vestidos de verde, feito azeitonas. Ninguém, neh!

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2 thoughts on “Bolsonaro dará um golpe?

  1. Caro amigo, é com grande satisfação que leio o seu texto. Sóbrio, coerente e importante. Grande abraço!

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