Conviver com o pivete

Os jovens negros e pobres são as maiores vítimas de violencia nas grandes cidades brasileiras. Você pode não concordar com isso, pode pensar que as maiores vítimas são alguém mais parecido com você. Contudo, as estatísticas mostram que, além de serem os que mais se envolvem em crimes violentos, esses jovens são os que mais morrem, por ações policiais ou de “justiceiros”. A falta de direitos e de recursos sentida por uma família pobre pode vir acompanhada do descuidado dessa família pelo seu filho do sexo masculino, e pela rejeição desse menino pela escola e pelo olhar torto da sociedade em direção a ele. Não à toa a palavra carência significa falta material e afetiva.
No ponto de suas vidas em que estão formando sua identidade, esses jovens recebem olhares reprovadores, depois acusatórios. Segundo Luiz Eduardo Soares, os jovens negros e pobres serão invisibilizados pela capa de preconceito que os recobre na dinâmica dos olhares – do outro sobre eles e deles sobre eles mesmos. Não se conhece o jovem senão pela figura do carente, que se tornou revoltado e então perverso. Foucault, no “A vida dos homens infames”, diria que, ao contrário, invisível o jovem era antes do encontro e do confronto com o poder. Os homens vivem existências ínfimas e invisíveis. Ao serem acusados de alguma coisa, são pegos pela polícia ou por médicos. Retirados do anonimato, no interrogatório eles mostram e falseiam uma biografia, jogam com o poder que quer ajudá-los e/ou puni-los. O que se conhece sobre eles, incluindo o fictício, fica registrado em poucas linhas, em arquivos.
Todo pedido de ajuda, pedido por direitos, é uma exposição ao poder. O indivíduo negocia o quanto quer isso para si mesmo. Para Soares, cientista, o fenômeno é o da figura do “pivete” que recobre a do “jovem”. Mas não comentarei, aqui, essas últimas aspas. O menino rejeitado quer ser alguém, enquanto os olhares que lançam sobre ele são enviesados. Na favela, oferecerem-lhe uma arma e uma função. O primeiro roubo que ele fará é inseguro, pois essa roupa ainda não lhe cabe bem. Ele precisará usá-la mais vezes, até aprender, na rua ou nas instituições sócio-educativas. Quem o encontra na rua, seja transeunte ou policial, já faz uma certa figura dele, e a partir disso já lhe prevê comportamentos e destinos, assim como também já antecipa uma reação própria. O olhar que cai sobre o jovem é o do medo e do ódio.
Em todo lugar por onde passe, esse jovem é extracomunitário, o escolhido para ser expulso, enjaulado ou morto, para que a comunidade, nessa ação autoimune, reconheça a si mesma. Os frutos dos roubos do jovem serão a trágica confirmação do preconceito que recai sobre ele, e também uma certa compensação na economia de sangue e de dinheiro. Byung-Chul Han conta que nas comunidades arcaicas, quando um dos seus membros era morto, uma vingança generalizada ocorria. Uma substância secreta, o mana, era perdida com a morte do membro, e era reposta com a morte dos outros, indistintamente, bastando que fosse extracomunitários. Quanto mais uma comunidade matasse, quanto mais um indivíduo matasse, mais protegido da morte, mais vivo ele se sentia. Posteriormente, a reação a um assassinato será a punição, não a vingança, contra o culpado. Uma instância jurídico-institucional se encarregará disso.
Modernamente, com a perda das comunidades e o predomínio das sociedades, as relações entre os indivíduos se dará sobretudo pela mediação das mercadorias e do dinheiro. Acumula-se dinheiro como que pra fugir da morte. O jovem buscará vestir marcas e estilos que o distingam dos outros e que o igualem a um grupo. É comum ver fotos no Facebook de um rapaz com uma camisa de marca e o rosto escondido. Naquele em quem encarnou o pivete, as carências e humilhações de uma vida inteira serão cobradas, e seu soldo será vestido e ostentado. Os assassinatos que ele venha a cometer remontam à arcaica economia de sangue: muitos como ele foram e são mortos, então ele busca sangue. Esse jovem provavelmente morrerá antes dos 24 anos, e a sociedade seguirá injusta e preocupada apenas com sua própria identidade, e com os bens a ela associados.
Uma sugestão para sair dessa dinâmica, Soares oferece ao dizer que devemos olhar os jovens individualmente, para além dos preconceitos. Com Foucault, daria para dizer que cada biografia é descontínua, ou seja, que um acontecimento não necessariamente determina o outro, e que o que chamamos de destino é apenas o efeito de uma visão de história linear. Cada um pode ser diferente do que se vê. Soares clama às instituições assistenciais, policiais e jurídicas para correrem atrás de cada jovem, individualmente, disputando-o com o tráfico, com a família e a escola que o abandonam, com tudo aquilo que quer marcá-lo para o resto da vida. Nessa disputa, a educação, a saúde, o lazer e o esporte serão oferecidos, junto de um olhar que singularize e reconheça o jovem.
Han lembra que, para Aristóteles, a justiça não se alcança apenas com o direito, mas também com a amizade. Justiça sem amizade é violenta. A amizade é o conviver. Atualmente, dificilmente convivemos com alguém. Esbarramos com as pessoas na rua. Precisamos buscar a convivência, o viver junto e bem com os jovens pobres e negros. A sanha por se acumular dinheiro, a irracional e paranóica busca por imunização, deve ser acalmada. Como podemos olhar de outra forma aquilo que incomoda?

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