Cuspe e sangue

No Coliseu romano, somos a plateia e os guerreiros se matando. Ambos desejam sangue.

O filósofo alemão Peter Sloterdijk explica que ao lado desses espetáculos de liberação dos instintos, que atraíam a atenção de multidões, a antiga Roma também produziu um tipo de educação humanista.

Esta educação, baseada na herança dos gregos, visava dar ao homem uma visão ampla de mundo e de si mesmo, e enraizá-lo, inseri-lo na família dos seres humanos. Ele não podia matar ou desejar ver a morte de um outro homem. Ao contrário, é o cultivo da temperança, da inteligência, da justiça que deveria ser buscado e incentivado.

Como bom leitor de Platão, Santo Agostinho dirá, no século V depois de Cristo, que a comida, as coisas que se vê, que se ouve e até que se cheira devem ser absorvidas no mínimo necessário para que se possa nutrir-se, enxergar, escutar e distinguir, pelo cheiro, as coisas que podem ser nocivas à saúde. Há encantos nas coisas que chegam aos sentidos, e o prazer que se tem com elas é um perigo ao homem que deve atentar-se somente ao que é do alto.

Na época de Santo Agostinho, a aristocracia educava-se com os clássicos. Ao grosso das populações servia a educação cristã do refreamento dos sentidos, e também da humilhação como rebaixamento de si para que Deus viesse e erguesse a pessoa até Ele (outra elaboração de Agostinho).

A civilização gestava-se nos salões da nobreza. Educação era sobretudo refinamento dos gestos. A ascensão da burguesia trouxe primeiro o ideal de liberdade. Em seguida, para que os mercados internos pudessem se desenvolver, veio o valor da igualdade. Todos tinham que consumir. Então tinham que trabalhar e receber por isso. E profissões mais especializadas logo foram demandadas. O ensino se universalizou.

Tudo deveria ser de todos: a moradia, a saúde, o trabalho, o consumo, a família, a educação. Um grande número de pessoas, porém, não pôde ser integrado nestes novos ideais e instituições. A maioria dos trabalhadores ganhava mal. Conheceu-se o desemprego, o sub-emprego e o emprego informal.

O povo, logicamente, não se educava. Tampouco o burguês, arrivista. O saber erudito ficava nas mãos de uma elite intelectual. E desta elite surgiram filosofias de explicação do mercado, da sociedade e da política modernas. Com o aumento das tensões sociais, o intelectual vai se voltando à crítica das relações sociais e do homem formados pelo mercado.

A imagem que atualmente se tem de intelectuais é de que ou defendem, a priori, pobres e minorias, ou são produtores de um saber “alheio à realidade”. E, com os livros sendo produzidos e distribuídos em massa, forma-se uma parcela da burguesia que dedica-se a consumí-los. Mas, não raro, estes fazem sem profundidade, apenas lidam com um produto que é trocado assim que consumido. Nietzsche os chamou de filisteus da cultura.

Temos o ideal de escola democrática. Mas a maioria das pessoas não obtém um nível de ensino sequer razoável. Elas dependem sobretudo da educação familiar e comunitária, que nem sempre consegue ensinar outra coisa às crianças que não a busca pela satisfação dos sentidos, e o esquecimento de qualquer educação para a melhoria de si e para a adesão a valores que as situem acima de si mesmas.

Jean Willys, deputado, apresenta-se como estudado e defensor das minorias. Jair Bolsonaro, também deputado, é da parte da burguesia que rejeita os saberes humanísticos. Ele se apresenta com propostas de lidar com as questões do interesse da sociedade de forma a mais simples, pouco elaborada, possível. “Um bandido deve ser preso, senão morto.” É o espírito do Ponto Final.

Jean Willys, por sua vez, apresenta-se como lidando com aquelas questões de forma subjetiva e, portanto, não reta. Mas a ideia da esquerda na qual se situa Jean Willys é a do messianismo com os mais fracos. Ele escuta tão pouco este público quando o Bolsonaro. Sua atitude é tão autoritária quanto a dele, embora, tenho que admitir, o autoritarismo do Jean Willys não vai criar paredões de fuzilamento.

Bolsonaro é o burguês que cospe nos bons modos e nos estudos. É daqueles que acha que estudo é coisa de “mariquinha”. Seu rosto mostra limitação intelectual e prontidão para reagir. É o deseducado, deselegante, acostumado a ofender o cara de esquerda, intelectualizado e não ofensivo.

Até que Jean Willys, um dia, cuspiu nele. Bolsonaro tem sido surpreendido com ações, que se apresentam da esquerda, gritando contra ele, empurrando-o e xingando-o. O deputado, então, tenta fazê-los lembrar dos bons modos da pessoa de esquerda.

Mas a universidade que se tem hoje, que pega alunos destituídos de uma base escolar de aprendizagem humanista, de exercitamento de auto-controle e de melhoria de si, permite apenas gritos de guerra ao adversário.

A falência de todos os níveis de ensino fica patente bem no momento em que os pseudo-intelectuais da esquerda, que dizem defender os pobres e as minorias, acirram sua disputa com os seguidores do Bolsonaro, que dizem defender a “família”. Nenhum deles tem qualquer outro recurso senão a entrada na arena.

3 thoughts on “Cuspe e sangue

  1. Muito interessante o debate que você apresenta, esse “Coliseu romano, somos a plateia e os guerreiros se matando. Ambos desejam sangue.”, pode ser observado nos vários espaços públicos hoje no pais. Em especial nas redes antissociais.

    1. Cuidado com a linguagem. Quando você diz “redes anti-sociais” já deixa claro para seu interlocutor que odeia as redes sociais. A partir daí, tudo o que disser sobre o assunto será desconsiderado por seu interlocutor.

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