Divino sono

Segundo a Teogonia, de Hesíodo, os primeiros deuses foram o Caos, depois Terra e Tártaro. Estes dois eram opostos: o primeiro significava o chão seguro, o segundo significava buraco sem fundo e enevoado. A eles se assomou Eros, domador do espírito e da vontade de deuses e homens. A confusão, a terra, o vazio e a controle da força de união foram os primeiros elementos que existiram.

Caos, ainda, deu nascimento a Érebos, trevas, e à Noite. Érebos e Noite produziram Morte e Sono. E também produziram Éter, luz celestial, e Dia.

Era uma casa cercada de chuva. Em suas laterais, avolumavam-se árvores. Após essas árvores, vegetação densa, indiscernível, à noite. Os filhos de Caos estão nesta cena. A floresta é trevosa, e a Noite cai sobre a casa.

Sono, filho da Noite, abateu-se sobre os seus habitantes. Sono imortal, irresistível aos imortais. A avó ronca, e este som faz os olhos do neto se fecharem. O sono passa de pessoa a pessoa. Eles estão em uma casa, sobre a terra. O Tártaro está fora, mas não longe.

Eros acerta o passo do menino para cima da avó. E sobre ele, um cachorro veio cochilar. A avó muda de posição, roncando mais. Nisto, ela convida mais sonolentos. Sobre o cachorro instalou-se um gato, e sobre este um rato. Sem disputa.

A Noite cobria a todos com o seu manto. O Sono os entorpeceu. Eros os uniu feito uma matilha, formada de cachorros que, façam o que façam durante o dia, dormem amontoados. Sobre o rato havia uma pulga, que não dorme. A pulga está sobre todos, coroando o sono.

Quando quis, a pulga picou o rato, que assustou o gato, que arranhou o cão, que sacudiu o menino que acordou a avó. Das entranhas da Noite nasceu o Dia. Menino e avó acordaram sorrindo, pois estava na hora.

A floresta iluminada. A casa novamente em cores. Cada um da casa agora poderia seguir sua vida. Até o retorno das trevas. Da noite. E do sono.

p.s. Eis o trecho da Teogonia:
“Sim bem primeiro nasceu o Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,
e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
e Eros: o mais belo entre os Deuses imortais,
solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos
ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.
Do Caos Érebos e Noite nasceram.
Da Noite aliás Éter e Dia nasceram.
Gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.”

p.s.2: Texto baseado no livro “A casa sonolenta”, de Audrey e Don Wood.

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