Epistemologia do rebelde

A sociedade em geral busca uma certa apatia. O ideal é não se preocupar. Grande parte das pessoas busca viver uma vida tranquila, sem preocupações, em termos de Byung Chul Han – Uma sociedade lisa que quer deslizar.

 

A vida é esse grande tobogã, digamos assim. Muitas pessoas sequer se interessam em saber dos problemas. Isso é refletido na maneira em que os jornais tratam as suas notícias : sua positividade ao que mantêm um status quo e uma negatividade tremenda contra o que de alguma maneira mostra o que o conforto que permeia a sociedade se mostre próximo de acabar. Algo que tire o mimo e obrigue as pessoas a “estarem por aí”, enquanto várias pessoas já “estão por aí” sem o mimo.

 

A raiz da defesa do capitalismo nasce justamente por aqueles que se favorecem por esse sistema. Esse é um ponto que nós devemos tentar compreender – o que é difícil, dado que nós também estamos presos a esse sistema.

 

O capitalismo é cheio de problemas – o mais evidente é a desigualdade social. É fácil percebê-la. Basta caminhar pelos centros urbanos : alguns vivem nas ruas, sujos, fedendo e ficam pedindo esmolas, etc; Há quem fique em lojas trabalhando, vendendo seu trabalho, dentro das lojas há quem pode estudar e ocupa cargos de administração; Há quem simplesmente caminha pela cidade para consumir e assim segue. Existem, portanto, diferentes classes sociais que vivem em diferentes patamares econômico-sociais. Ainda que te digam aqui e ali, que seja uma questão de mérito, é fato que existem classes sociais e que existem conflitos políticos entre elas. De certa maneira, assim como a desigualdade social, os outros problemas do capitalismo também são visíveis e são factíveis.

 

O ponto alto que eu quero discutir é tentar entender como , mesmo na esquerda, as pessoas ainda continuam nessa gaiola da democracia liberal e do capitalismo.

 

Começo pela seguinte pergunta : Eu vejo que é ruim, eu sinto na minha pele, o meu paladar não consegue negar, eu ouço o que está podre, meu cérebro concorda que é e o meu corpo todo repete o coral; Por que eu continuo a defender o mundo em que vivo ?

 

Não é nenhuma afirmação pessimista dizer que este mundo não vale a pena. O suicida é quem percebeu que esse mundo é horrível – ele sabe e esse saber o derruba. No século XIX e no XX o revolucionário era o rebelde – o nosso é o suicida.

 

As doenças mentais podem ser entendidas como tendo causas químicas, fisiológicas, mentais, etc. Mas devem ser essencialmente compreendidas como “sinais do tempo” – como sendo também como histórico-sociais e de consequências inclusive políticas.

 

Estar deprimido não é só uma questão do seu cérebro ter mais ou menos química – Muitas vezes a sua vida é uma vida que não deve ser vivida.

 

Muitos de nós temos empregos péssimos, estamos sempre no limite com o ambiente de crise constante, as nossas cidades são péssimas de se viver, convivemos com outras cascas vazias como nós que desestimulam qualquer mudança e fora a culpa por não trabalhar – tanto para quem não tem emprego ou foi tirar uma folga.

 

Num mundo como o nosso viver é um fardo tremendo.

 

É preciso dessa forma tentar se imaginar nos pés de quem decide pelo suicidio. A chave para nós entendermos porquê a rebeldia se tornou o se matar.

 

O deprimido é um incomodado. Ele se sente mal – referente a si mesmo e ao mundo a sua volta. O ódio próprio – o ódio ao mundo.

 

Como o trabalho antes era localizado, ou seja, tinha um tempo e um espaço para ser realizado, era muito fácil para os trabalhadores irem atrás dos seus direitos. Era só ir na mesa do chefe ou no grupo de acionistas que ainda era conhecido e lutar pelas reivindicações.

 

O trabalho se diluiu pela sociedade na indústria de serviços. Agora o antigo operário, além de desprender um trabalho imaterial com sua cognição. Por exemplo, um vendedor, diferente do operário, precisa mudar completamente seu modo de falar, pensar, agir, para conseguir realizar uma venda. O trabalho intelectual passa a ser o foco central.

 

Como cada um de nós se torna autônomo – todos viram microempresários, cada um vira o chefe e o funcionário de si mesmo. Nós nunca paramos.

 

Agora imagine, que esse mesmo vendedor do exemplo, além de trabalhar nessa loja onde ele faz as vendas, ele também faça parte de uma plataforma como a Uber ou a Ifood, para complementar a renda. Ainda, se não bastasse, fosse utilizar um Facebook ou Twitter da vida, onde lá, ele participa da rede fornecendo dados para as empresas. Para finalizar na hora do sono, usasse um relógio que avaliasse a qualidade do seu sono.

 

A antiga greve – onde se parava a produção, ela passou a ser impossível. Nunca paramos. Aos poucos, o corpo começa a reclamar. Assim começam as tendinites, dores no corpo, doenças constantes por conta do sistema imune fragilizado. Se parte para os jogos, distrações, vídeos, filmes, séries, etc, para escapar desse cansaço. Uma hora o próprio entretenimento vira um trabalho, você cada vez mais se aperfeiçoa nos jogos, sabe mais sobre cada distração, série, vídeo, filme. Tudo isso, combinado com sua jornada de trabalho. E chega ao ponto que você não aguenta mais. Esse é o pico de onde o suicida se joga.

 

O corpo se revolta : Eu quero greve !! Não aguento mais !!

 

Assim meus caros, que alguém comete suícidio.

Em algum momento, todos nós já passamos por isso. É importante entender e usar essa sabedoria para descobrir como lutar contra isso.

 

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