Estará o homem, frágil, infantilizado e cansado?

Escreve, João Pereira Coutinho, justamente no Dia do Trabalho, que estamos mais frágeis e infantilizados. Temos medo de tudo! De cigarros e bebidas, e até mesmo sexo! O colunista da Folha chega a contar sobre sua impressão para com o premiado 1917, filme que, comparado com a nossa resiliência em ‘’continuar em frente, sem sacrificar valores essenciais, quando tudo conspira para a fuga e para a covardia’’, mostra-nos ‘’um abismo que nos separa desta gente’’.

É interessante o colunista nos comparar com o homem de cento e três anos atrás. Bravos, fortes e guerreiros, né? E não acho que exista alguém capaz de negar isso. Porém, acho que o colunista português estava meio acanhado, meio que se sentindo imigrante demais para dizer o que realmente lhe veio à mente.

Não se acanhe, Coutinho! Nós brasileiros somos muito cordiais! O Brasil é o país do samba, do carnaval e do Bolsonaro. Então por que não se abrir com a gente logo, Coutinho, e falar que você gostaria de ter comparado a humanidade é com a época das pedras? Qualquer brasileiro concordaria, sim, que o homem das cavernas era forte e adulto! Resiliente!

Creio que nós, brasileiros, temos o dever de lembrar esses turistas tais como o João Pereira Coutinho que não custa nada dar uma ‘’turistada’’ pelo país. Nesse momento de quarentena, poderíamos sugerir-lhes a visitar, por exemplo, a própria Folha de Coutinho quando ela reportou os R$ 430,00 que a maioria dos brasileiros possuem para sobreviver. Ou então poderíamos indicá-los à apreciar, pela internet mesmo, os ‘’frágeis’’ e ‘’infantis’’ brasileiros amontoados nos hospitais públicos.

E, claro, falar com os nativos do país em que estamos visitando sempre pode ser uma boa coisa, uma experiência rica, né? Desça do quarto do hotel e converse com o entregador do vinho! Que tal vocês gargalharem com a total incapacidade do entregador em ‘’continuar em frente, sem sacrificar valores essenciais’’? Se ele estiver de bicicleta, prepara-se para cair ao chão de tanto rir, Pereira Coutinho!

Agora, podemos também deixar de lado os homens, e falar do homem de Coutinho. Podemos falar sobre aquele homem que é muito mais profundo, muito mais ‘’literário’’. Muito mais… – como diria o próprio Coutinho – ‘’filosófico’’! Partamos a ele.

João Pereira Coutinho aparenta ser um homem de médio para baixo porte. Tem um certo sorriso alegre, mas do tipo que não convence. Às vezes aparenta um certo cansaço, mas logo colocamos em dúvida essa impressão pois lembramos que no Programa do Jô, Coutinho chegou a dizer que ‘’escrevia deitado’’. Se cansado, ele é, na verdade, O Cansado! Pois bem. Talvez seu cansaço se deva ao seu pôr-e-tirar de paletós. E são bonitos eles! Coutinho se veste tão bem que consegue equilibrar seus ombros curtos com suas ombreiras levemente acentuadas. ‘’Conheças as gravatas de bolinha do Pereira Coutinho e conhecerás o ‘homem’ de Coutinho’’, poderíamos dizer.

Ora, João Pereira Coutinho disse que não estava fazendo uma crítica, porque ele também se incluía no ‘’rebanho patético e amedrontado em que nos tornamos’’. Assim, não consigo deixar de perguntar: Será que esse homem patético e amedrontado estava tão cansado assim, a ponto de não conseguir citar mais que um ”estudioso húngaro” para falar sobre o homem contemporâneo?

Sei que Coutinho não gosta mais de falar com pessoas do que gosta de video-games. ”Não gosto de video-games.”, disse. Por isso não sou ingênuo o suficiente para acreditar que ele ouça minha sugestão acima, de ”turistar”. Mas já que o ”doutor em ciência política” que não é cientista político, nem literata, nem filósofo e nem jornalista, anda muito cansado, eu, Isaias Bispo de Miranda, escrevo sentado algumas sugestões a vocês que ainda podem se levantar para ler:

Leiam os filósofos! Leiam Peter Sloterdijk e entendam a sua ideia de que necessitamos de uma ”declaração geral de dependência universal”. Leiam Giorgio Agamben e vejam como nossa biopolítica, isto é, nossa administração política do corpo, da ”vida nua”, está nos levando a problemas éticos gigantescos! E por que não nos atentarmos ao ”cansaço”? Byung-Chul Han escreveu sobre o cansaço! Mas prometo que além de não ter escrito deitado, Chul Han jamais confundiria a si com o outro.

Isaias Bispo de Miranda é estudante de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – 10 de maio de 2020.

Gostou? Compartilhe:

One thought on “Estará o homem, frágil, infantilizado e cansado?

  1. Meu caro Isaias, eu também fico indignado quando um “forasteiro” vem ao nosso país cagar regras. Mas ao que me parece (não li o testo de Coutinho), o autor falou mau não do brasileiro, mas da humanidade. Portanto atingiu a ele mesmo e ao seu próprio país. Mais ainda, o que ele falou me parece muito evidente ao comparar a atual geração com outras passadas. A poucos dias circulava na internet um texto curto que dizia mais ou menos o mesmo. Começava sobressaltando a coragem dos pilotos da segunda guerra, homens de 19 anos, e terminava por concluir que tempos fáceis (os que vivemos), geram homens fracos. Termino por dizer que embora tenhamos muita gente vivendo com meros R$ 430,00 por mês, isso pode ser sinal de força, necessário à sobrevivência com tão pouco, como em alguns casos pode também ser um sinal de acomodação. Por fim, eu, que não escrevo deitado pois na verdade tive muito pouco tempo para me deitar em uma vida de rotina dura de trabalho, concluo que esta geração me parece sim, frágil, infantilizada e cansada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.