Há semelhanças entre jogos eletrônicos e a igreja?

Buscamos estar em comunidades. Peter Sloterdijk vai dizer que já na barriga da mãe somos dois, bebê e placenta. Após o choque que temos ao nascer o que tentamos fazer é retornar a essa situação de duplo, ai buscamos o amigo imaginário, os colegas, professores e por aí vai.

Em tempos mais remotos, nós tínhamos certa facilidade de entrar nessa situação de duplo como ocorria com a na antiguidade com o cuidado da polis e na era medieval com Deus. Mas na nossa sociedade atual, onde Deus está morto, acabaram os sindicatos, as comunidades de bairro, fábricas, escolas que particularmente no Brasil perderam a capacidade de servirem como elemento de formação para a atividade da vida profissional, a invenção do empresário-de-si-mesmo sem patrão, enfim, o modo de vida neoliberal, muitos de nós sedentos por essa conexão com a sociedade, que é estar em duplo, acabamos sendo atraídos para igrejas que muitas vezes educam as pessoas para serem submissas e objeto de exploração.

Mas em que se assemelha essa submissão à igreja e a submissão aos jogos eletrônicos?

Se você não nasceu ontem já sabe que a internet serve de meio para entrarmos em comunidades. Porém, algumas trazem uma sensação de pertencimento maior que outras. Uma que tem a capacidade de dar essa sensação é a dos jogos eletrônicos e não à toa eles compartilham da mesma identidade de gamers.

Mas será que a submissão dos fiéis aos pastores na igreja evangélica funciona de maneira análoga à submissão ao jogo?

De uma coisa sabemos, o caminho para essa situação muitas vezes é o mesmo: a necessidade de pertencimento com a comunidade. O evangélico, ao estar na igreja, resolve o problema da necessidade de pertencimento que ele tem? Sim, porém ele continua sendo explorado. Mas a coisa funciona como algo paliativo e os pastores não querem isso, querem a submissão completa. Por isso vemos exemplos como da Andressa Urach, que não aguentou isso e expos toda situação, como geralmente faz quem sai dessa submissão.

Os jogos certamente mantem muitas pessoas vivas conseguindo tirar elas da depressão ou fazendo-as suportar melhor a condição que estão. Mas por que, dependendo da circunstância, isso não seria algo extremamente paliativo? Será que quem usa dos jogos como uma ajuda com a depressão está jogando simplesmente para passar o tempo ou relaxar?

Talvez a minha geração seja uma das melhores para falar disso, pois somos nós quem passamos por isso. Há os que são chamados de “jogadores tóxicos”, caracterizado por serem pessoas rudes com outros jogadores. Parece que não saem de casa há dias para ir ao parque ou qualquer coisa assim. Vivem aquilo dali todo o dia e, parece, ao saírem do jogo a vida perde sentido. Talvez você nem precisa ser um jogador tóxico para estar nessa situação. Não à toa vício em jogos é considerado um distúrbio mental pela OMS.

Percebemos então que essas comunidades têm pontos em comum do ponto de vista de entrar em relação com o outro e seu efeito anestésico e paliativo. Mas há mais igualdades. A submissão ao pastor e a aos jogos advém da mesma, que é a submissão ao capital. Diante das mercadorias somos todos passivos e objetos, ela quem é viva e que transita. Por conta dessa educação que o capital nos deu para a passividade, aceitamos com mais facilidade a submissão ao pastor e aos jogos eletrônicos. Somos explorados pela igreja e trabalhamos na empresa chamada internet e suas plataformas, pondo nossos dados e aperfeiçoando algoritmos e, no caso dos jogos, damos feedbacks valiosos de onde o jogo não está funcionando. A empresa de jogos se aproveita muito mais do usuário que dá sua vida jogando e depende do jogo para viver do que o simples jogador casual. E isso acontece de maneira extremamente lúdica, consideramos nosso tempo de jogo um tempo de entretenimento, porém não se percebe que está trabalhando para uma empresa; como os streamers que fazem maratonas de 24 horas jogando direto. Essa é a subsunção intelectual feita pelo capital ao trabalho necessária no nosso capitalismo cognitivo atual onde estamos dispersos na sociedade trabalhando em plataformas e consumindo, mas não sabendo se esse consumo é trabalho e nem sabendo se organizar como trabalhadores, pois nos tornamos todos empresários autônomos, mesmo que estejamos pagando para usar uma plataforma para trabalhar, como o Uber.

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