A fama e a torre de marfim

Desde que eu iniciei minha vida intelectual, venho notando que aquela percepção do senso comum da torre de marfim que muitos professores, alunos, no geral, quem está envolvido com a pesquisa e com a universidade, costuma comentar é verdade. No entanto, tem um motivo dessa realidade existir que muitos desses interlocutores não dizem.

Muitas vezes pode ser por uma certa inocência, digamos, de dizer aquilo e como eles, na maioria das vezes, fazem a divulgação, acabam posando como exemplos do que fazer. Bem no estilo “eles pecam – mas olha eu que faço boas coisas para Deus”.  Pode ser ingenuidade, como pode ser autopromoção. Só que em muitos casos esses divulgadores sequer fazem parte da universidade ou da escola, muitos deles vivem de terem canais no YouTube. O que pode ter uma censura em relação aos conteúdos, um certo tipo de viès em dizer isso, dado que temas sensíveis sofrem de desmonetização e redução do alcance, fora a censura dos moralistas (vocês não tem ideia do medo que eles tem de serem “cancelados”). E como eles vivem de ter canal, estudar não é necessariamente o seu foco, então certos temas sérios, não vão receber tanta atenção por não atrair visualizações. Por mais educativos tentem ser, eles vão se pautar pelas regras da plataforma – coisas como frequência de vídeos, falar de temas quentes, fazer fofoca, usar de “treta”, mesmo em canais educativos, é o que vão precisar fazer para ganhar atenção.

Um ponto que eu concordo, é que a universidade se afastou da sociedade e mais do que nunca, age como mosteiro. Não só pelo isolamento, também pelo moralismo que impregna muros e janelas. Com exceções, toda vez que se ouve algum intelectual falar, existe nele uma dificuldade de sequer tratar algum assunto além da autopromoção. Muitos dos intelectuais, que muitas vezes escrevem em jornais e tem livros publicados, eles em diversos casos escrevem para agradar a militância de certos partidos, ou agradar tipos especificos de pessoas, ou comunidades, etc. É o caso por exemplo, do Joel Pinheiro da Fonseca, que cutuca aqui e ali o governo Bolsonaro em questões morais, ao mesmo tempo, que em diversas vezes defende o projeto neoliberal acoplado ao governo – critica só quando não é neoliberal o suficiente ! A preocupação central do discurso do Joel é ser ponderalis, soar sensato e preciso. O que no futuro pode dar uma vaga para ele no Partido Novo e talvez esse seja seu objetivo – no momento atrai os neoliberais mais comportados. Não fiquemos só no Joel, muitos agem dessa forma com outras cores. O que não falta é gente assim : Pondé, Karnal, Safatle, Jessé e muitos outros, fazem o que fazem, dizem o que dizem, pelo público que eles possuem.

O afastamento da universidade deu espaço para muita gente que sequer é qualificada poder falar na midia. Aliado aos novos tempos onde falar é mais fácil do que nunca, o que não falta é gente incompetente falando bobagem por aí. A Folha de São Paulo nesses últimos tempos vem convidando escritores pela fama que possuem – até o Kim Catupiry foi colunista da Folha !!

Esse problema da torre de marfim, é muitas vezes visto como arrogância do professor, carreirismo, orgulho, ou até preguiça. O que em certa medida pode ser verdade, dado que estamos lidando com pessoas, com toda certeza, há um pouco disso tudo que leva a torre existir. No entanto, não é possível que todo mundo seja assim – Ou, que só o elemento humano da equação tenha tanto poder assim de paralisar a divulgação. Tanto que ela acontece em pequena escala – “Com santos de boa vontade”.

Só que não deveríamos depender da “boa vontade”. Essa mesma “boa vontade”, durante todos esses anos, foi incapaz de segurar o movimento obscurantista que surgiu esses últimos anos.

Deveríamos depender menos de grandes líderes com “boa vontade” !!

Então, como deveríamos analisar esse problema ? Quem é alvo dessa crítica ? O professor. E quem é o professor no Brasil ? Um nada, alguém que pode ter a titulação que for, ele vai ganhar menos, ele vai ser menos respeitado que, pasmem, gente desinformada que diz o que as pessoas querem ouvir. Que vai do pastor ao “influencer mirim” de internet.

Isso deve ao fato do desprestígio geral que a educação sofreu nesses últimos 40/50 anos, o país foi se desindustrializando e os novos empregos foram exigindo cada vez menos qualificações, logo o brasileiro foi vendo que era possível sobreviver sem estudar. Muito dos projetos “educacionais” que surgem aqui e ali visam o treinamento – não uma educação que seja transformadora e cidadã.

Nessa onda, o professor de fato foi perdendo cada vez mais espaço para “adestradores” do saber. Gente que vai te ensinar “truques”, que vai mostrar que a partir de “motivação e boa vontade” é possível mudar as coisas, não através da polítização, da educacão, do debate. O ensino privado, de escolas particulares, passando por cursinhos avulsos e a própria universidade privada substituem a relação entre aluno-professor, pela cliente-vendedor. O que é também reproduzido online se pensarmos que muitos desses canais querem agir como substitutos da escola – mas a escola “cool” que explica fisica usando desenhos animados.

Principalmente, esses dois acontecimentos eles esclarecem a ausência da participação da escola na sociedade e se você considerar um terceiro, você mata a charada : cultura do cancelamento. Se você hoje, falar algo, qualquer coisa, que magoe um pai ou aluno, ou muitas vezes figuras ressentidas sem o que fazer, você sofre uma chuva de ataques e pode muito bem perder seu emprego.

Se numa situação sem a internet como grande fator na sociedade dos anos 2000, professor que ia fazer manifestação já tomava soco de policial com todo mundo aplaudindo, agora mais do que nunca, onde a vigilância é extrema, dizer qualquer coisa que “arranhe” as paredes dos identitários da esquerda ou da direita, já é caso de ter medo de sair de casa e apanhar de alguém.

Isso levando em conta que sobre algum tempo para ele fazer essa educação popular. Por conta dos baixos salários (em alguns casos nulos, recebendo eles parcelados) muitos professores simplesmente não tem tempo nem para estudar porque precisam estar em duas, três escolas, para conseguir ter algum salário razoável. 

Então pense comigo : há alguma condição desse professor divulgar alguma educação ? É possível que ele consiga fazer isso por “boa vontade” ?

Ainda mais se você considerar esse desprestígio, há sequer espaço para o professor educar as pessoas ? Se dar aulas dentro da escola já é difícil tendo que se estressar com pais e alunos querendo seu pescoço, imagina no ambiente medieval da internet, onde qualquer desocupado pode ser o fim da sua carreira.

O refúgio muitas vezes é a torre de marfim. Virar pesquisador, ir estudar fora, ou ir pro mercado como todo mundo.

Deveríamos, ao invés de crucificar o professor e querer que ele seja santo, deveríamos pensar formas em que pudéssemos ter condições da educação, em primeiro lugar, seja mais valorizada, para que essa divulgação não precise ser substituta da escola e ter condições de que uma discussão pública possa ser feita e não caia simplesmente na discussão moral inútil dos ressentidos.

Aqui deixo o texto em aberto – como fazemos isso ? Talvez o grande consenso seja que a solução para esse problema, do afastamento da escola e do saber da vida das pessoas, esteja longe de existir. Num mundo que ser professor é quase como ser criminoso, por ora, a torre de marfim parece segura o suficiente para proteger o que sobrou da educação. A questão é por quanto tempo ? Será que esperar é a única coisa que nos sobrou ?