A HEGEMONIA DA NARRATIVA DA DIREITA: Moro, Lula e Bolsonaro

Depois das manifestações de rua de 2013 o Brasil viu uma crescente politização entre a população. A vitória apertada da Dilma sobre o Aécio na eleição de 2014, não fez com que os ânimos se acalmassem, ao contrário, ficaram ainda mais exaltados. Em 2018, mais uma vez, tivemos uma eleição altamente politizada, até mesmo mais do que a de 2014.

No meio disso, termos como “direita” e “esquerda” tomaram conta das conversas nas redes sociais. A maioria das pessoas, incluindo gente com boa escolarização, não conhece o processo histórico em que esses termos surgiram. Eu explico,

No calor de todas as transformações causadas pela Revolução Francesa, nem tudo eram flores. Nem todos estavam convencidos de que a monarquia francesa era algo negativo e deveria ser varrida da face da terra. Na Assembleia Nacional da França, os membros que tinham uma posição mais favorável aos ideais monárquicos e religiosos conservadores, sentaram-se à DIREITA. Aqueles que representavam o povo, ou o chamado “Terceiro Estado” e tinham uma posição mais radical contra a monarquia e a Igreja, sentaram-se à ESQUERDA. Daí em diante, as posições se solidificaram de modo que políticos de direita são mais ligados as elites econômicas e religiosas, e avessos a qualquer mudança mais radical na estrutura social, enquanto os políticos de esquerda estão mais ligados ao povo e defendem bandeiras mais revolucionárias em relação aos temas do dia a dia.

No Brasil, esquerda e direita se constituíram nas últimas décadas calçados em ideários bem próximos a definição mais original dos conceitos.

A direita brasileira, desde Carlos Lacerda, transformou a política em sinônimo de corrupção. Toda a nossa política seria corrupta, então era preciso que a gestão pública fosse única e exclusivamente técnica. Isso é, em certo sentido, um pano de fundo para a Ditadura Militar brasileira, um período da nossa história vista pela direita como não tendo corrupção e sendo extremamente eficaz em termos de gestão.

O próprio Collor, primeiro Presidente eleito pelo povo após a Ditadura Militar, se elegeu sobre a bandeira do combate aos “marajás”, ou seja, o combate a corrupção dentro do Governo. A nossa classe média acabou aderindo a essa narrativa da direita.

Lula foi o Presidente que trouxe a tona a questão da desigualdade social, mesmo que de forma mais superficial do que aquilo que foi prometido ao longo das primeiras campanhas presidenciais das quais participou. Sua política foi pautada na redução da desigualdade e na ascensão social. Contudo, o próprio PT e Lula tinham, ao longo do Governo FHC, adotado um discurso moralista de combate à corrupção, o que acabou cavando a própria sepultura do partido.

O que vimos na ascensão de Sérgio Moro e na vitoria de Bolsonaro em 2018 foi o típico e original discurso do Carlos Lacerda: a política é sinônimo de corrupção, e precisamos de um Governo técnico. Foi assim que Bolsonaro se elegeu, se contrapondo a chamada “velha política” e prometendo um governo exclusivamente composto por nomes técnicos, pois, afinal, nomes políticos estariam ligados a corrupção, já que política é sinônimo de corrupção para a nossa classe média.

Essa narrativa da direita brasileira se tornou hegemônica a ponto de, na última sexta-feira, passarmos um dia inteiro discutindo corrupção e nos esquecermos dos hospitais lotados, das pessoas suplicando pelos 600 reais prometidos pelo Governo, e da severa crise econômica pela qual o país passa. Moro teria abandonado o governo Bolsonaro não por ser um governo voltado única e exclusivamente para os ricos, mas sim por ser um governo “corrupto”.

Talvez essa hegemonia explique o fato do Brasil ser o país mais desigual do mundo. Somos uma nação rica, mas com um povo pobre. O assunto “corrupção” gera ojeriza nas pessoas, derruba ministros, e até mesmo um Presidente da República. Mas ao mesmo tempo, o assunto “desigualdade social” ou “pobreza” não gera a mesma reação da população brasileira. Espantamos-nos com políticos ladrões, mas não nos espantamos com crianças comendo calangos no nordeste para não morrerem de fome.

A narrativa da direita de que a política brasileira se resume a corrupção se tornou hegemônica. Isso em parte para que a narrativa da luta de classes – leia-se desigualdade social – não venha à tona. As vezes a própria esquerda adere a essa narrativa e se deixa levar pela direita. O Jornal Nacional é capaz de durante uma hora ininterrupta falar de corrupção, mas não é capaz de fazer o mesmo para falar de fome, pobreza e miséria. Não há exemplo melhor do que esse.