A MUDANÇA PERTENCE AO TEMPO, A REVOLUÇÃO PERTENCE AO HOMEM

A estabilidade e a mudança, convivem. Se eu desejo segurança, eu recorro a pedra. Se preciso de firmeza, chamo pela rocha. Mas, se o que almejo é a mudança, seu senhor é o tempo! Sob o tempo a luz curva, a rocha se altera e planetas se transformam… O que não faria com o homem, instituições ou civilizações inteiras??? A história está repleta de quedas e ascensões.

Para o homem, o tempo só ganha sentido se levado em consideração os agentes que o habitam. O tempo em si, é uma abstração, mas os agentes que o habitam (pois que o tempo é irmão gêmeo do espaço), estes deixam marcas, rastros. Estes têm biografia, história, e deixam rastros impressos. Um corpo, por exemplo, sofre a ação do tempo, mas só sabemos disto observando os efeitos que sofre das relações com os agentes que o compõem. Um cadáver sofrerá as ações de microrganismos a decompô-lo, tanto quanto um corpo vivo e em atividade sofrerá os efeitos das interações com seu mundo vivo (mundo que envolve ecossistemas, família, sociedade, trabalho e mais). Pegue suas fotos, compare-as no tempo e verá MUDANÇAS as quais, diretas ou indiretamente, estes agentes influenciaram. Também as patologias do corpo (e da mente) estão associadas a estas relações com o mundo. Seja pela dieta – regida pela geografia e cultura, sejam pelos modelos afetivos adotados como padrão pela sociedade, seja pelo modo de produção e consumo adotado, seja pela organização social, política e econômica. O tempo, o espaço, a vida, são teias!

A mudança, depende do tempo. A evolução é uma questão adaptativa da vida, ela ocorre na natureza com ou sem o homem. Mas a revolução, esta depende, essencialmente, da presença humana. Qualquer que seja a revolução: social, de costumes, tecnológicas, e até de ecossistemas… O exemplo atual mais cristalino talvez seja a da “Pandemia de Covid-19”. Isto porque a humanidade não deveria tratar o vírus circunscrito sob a denominação de PANDEMIA, mas sim como uma SINDEMIA*! Eis o problema: o vírus, enquanto “pandemia”, induz a humanidade a uma forçosa “mudança” (o popular “novo normal”) e, neste caso, a uma acomodação; enquanto que uma verdadeira revolução humana só se daria se tratássemos este caso como de fato é: um fato SINDÊMICO.

Ainda que exista a onipresença do tempo e da natureza, as REVOLUÇÕES humanas não tiveram o tempo e a natureza como protagonista, tiveram o homem. Na história humana, o clima, a peste, o cataclisma levaram a profundas mudanças, mas, se sobrevivemos, foi porque diante da mudança ou evolução proposta, o homem reivindicou sua própria revolução.

Chegamos ao século XXI, aos menos os que permaneceram vivos. Que decisões nos trouxeram até aqui? Digo, decisões que tomei (campo individual e biográfico) e que TOMAMOS enquanto multidão (campo comunitário-social-histórico-político). UNS influenciando OUTROS nos espaços e ao longo do tempo! Por isto digo, não podemos culpar o tempo pelos resultados colhidos. O tempo, soberano, permite tudo, menos a ausência de responsabilidades!

Todas as vezes que me deparo com a monumental complexidade de nossa era, eu me choco. Se na dimensão individual eu me curvo pequeno a me perguntar: ” O que realmente importa? Qual o meu lugar no mundo?”, e isto faça desmoronar pesadas expectativas… Pesadas, nem sempre pela sua relevância, mas pelo seu excesso. Na dimensão coletiva eu posso confrontar utopias sobre formas revolucionárias de existir, com altivez.

 

* O conceito (déc. de 1990), criado pelo antropólogo médico americano Merrill Singer, diz respeito à interação entre doenças em uma abordagem mais ampla, analisando fatores como o contexto socioeconômico. A sindemia se dá e é caracterizada pelas interações biológicas, sociais e econômicas entre a população. Nenhuma estratégica puramente médica é capaz de lidar com questões sindêmicas. Esta é uma tarefa para a BIOPOLÍTICA!

 

Toni Grangeiro, psicólogo e psicodramatista.

 
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