A tristeza e o hoje – uma mensagem para um amigo

Pois é, meu amigo, sei que está triste e que de repente vir falar de algo pesado, como é esse assunto, talvez não seja tão bom nesse momento. Leia com calma, absorva, respire, aproveite que a tristeza proporciona um momento de reflexão – conseguimos considerar coisas inimagináveis !! Também vamos concordar em algo : há momentos que ficar triste é importante também, dado que ela faz parte do nosso repertório de sentimentos. Há momentos que chorar é importante.

É um texto mais simples, então pretendo não me estender tanto, então vários conceitos que vou apresentar aqui vão estar resumidos, recomendo muito que se desejar se aprofundar você leia André Gorz, O imaterial, esse artigo do professor Ghiraldelli Jr, sobre o consumo ( http://ghiraldelli.pro.br/2020/08/06/sociedade-de-consumo/ ) e o texto Capitalismo da emoção de Byung Chul Ban, no livro Psicopolitica, O neoliberalismo e as novas técnicas de poder.

No mais, ao texto.

Existe algo que mede o valor de uma pessoa. Acredite em mim, não é o amor, não é seu caráter, sua personalidade, quem você é ou que faz. É o dinheiro. A principal mudança do capitalismo industrial para o atual, chamado capitalismo do conhecimento ou até capitalismo emocional é que nele não se faz mais os produtos das fábricas para se tenta vender eles no comércio, mas sim, se trabalha na especulação das ações na bolsa dessas empresas, ou se vende cada vez o chamado capital imaterial. Que vão de livros, patentes, conhecimentos, inclusive sentimentos. Como Byung Chul Han explica no seu texto

“Coisas não podem ser consumidas infinitamente, mas emoções sim.”

O capitalismo hegemônico é o capitalismo financeiro.

Se exploram os sentimentos da mesma maneira que se exploram-se as plataformas de petróleo. Cada um de nós acaba por ser insignificante e o nosso valor medido pelo dinheiro. Por quanto de “produtivos” somos – em última instância, somos todos iguais ao olhos do capital. Uma vida pode valer menos que a dos outros nesse regime : basta olhar a falta de comoção com as mortes de Covid no Brasil, nós somos mais pobres, portanto, valemos menos que os italianos por exemplo. Não à toa, somos cobaias de remédios e vacinas nesta pandemia. Isso explica também como que a velhice se tornou tão indesejável, dado que existimos também como produtos no mercado, envelhecer e “passar da validade” são sinônimos nesse regime. Quem lembra da moça da equipe do Paulo Guedes ministro dae Economia que disse “Que ótimo que a doença só mata velho !! Vamos resolver o problema da previdência !!”.

Eu, você e muitos outros que são “improdutivos”, são descartáveis num mundo como esse em que vivemos. É importante saber disso, até porque de certa forma, vamos ainda ter que lidar com muito descarte. Da demissão no emprego, ao amigo que nunca mais falou com você, para o (a) amante que te larga. As relações são tão promíscuas quanto a da bolsa de valores – se compra e vende sem nunca participar das empresas que você investiu.

É normal se sentir triste – não se sinta culpado por de repente, não sorrir todos os dias, como supostamente todo mundo faz. A positividade extrema dos nossos tempos é uma das principais causadoras de doenças como a depressão e a síndrome de burnout.

Ghiraldelli e Lipovetsky complementariam essa mensagem lembrando de como essa configuração neoliberal criou o consumo do “curtir-se”, da mulher que compra uma roupa para ela se desejar no espelho, como narciso apaixonado pelo próprio reflexo. O fim do consumo da inveja para o consumo voltado para si mesmo. O outro se foi, só há o eu – o homem como projeto de si mesmo, como senhor e escravo, ele se auto explora. O que significa também uma alta carga de culpa, dado que o mundo é só aquele eu gigantesco responsável por tudo – como também gera relações lisas. Acabamos por evitar o rugoso, o incômodo, o diferente e queremos cada vez mais do outro lado alguém igual a nós. Isso gera aquelas relações onde na primeira briga já há uma separação, se uma das partes se recusar em ser igual a outra.

  Essas seriam as narrativas que você precisaria começar a entender para conseguir a entender a si mesmo nesse contexto. Algumas novas perguntas surgiram e a busca por essas respostas vai ser o que vai direcionar a sua vida daqui para frente.

De uma amiga, Marlin Rose Jones.