Além dos pronomes e nomes das coisas

Não sei se você percebeu, há um elefante cor de rosa flutuando bem na sua frente. Não viu ? Bem, é porque ele não existe, ora bolas !! Que elefante que é cor de rosa e flutua ?

 

Vou descrever melhor : é um elefante cor de rosa e azul, por isso não dá para ver, se mistura com o azul do céu. O rosa você vê, não ? Ah safado, gosta do rosa né !! – Para sua decepção, ele continua não existindo em outro lugar senão na sua cabeça ! Que coisa né !!

 

Para mim a discussão dos nomes e pronomes, assunto que engloba basicamente a população trans como a maioria de quem discute isso, são melhor descritas nesses 2 parágrafos acima.

 

Para alguns o problema é a transexualidade. Como alguém pode decidir mudar de sexo ? Somos feitos de barro, como nós poderíamos moldar quem queremos ser ? Não é um papel de Deus ? Pois é, não.

 

Vestimos a pele de outros animais, usamos seus ossos como armas, criamos proteções de metal, a pedra e a pistola são como partes extras do nosso corpo, os óculos e as lentes são novos olhos (fora os eletrônicos), usamos próteses de todo tipo e ainda sim, você acredita que o homem não se fez ?

 

A própria transição de gênero é tão antiga quanto a nossa civilização, dentro de tanta coisa que fazemos com nosso corpo, mudar de sexo é mais uma delas.

 

Aos conservadores, sinto lhes informar, o homem é o animal que mais se modifica e modula o mundo a sua volta, Peter Sloterdijk chama isso de antropotécnica, “o homem que faz o homem”.

 

Nesse meio, dos que discutem adoidado esse assunto do nome e pronome, estão os próprios integrantes da comunidade lgbt+.

 

A minha crítica é que apesar de ser necessário discutir esse assunto, como uma maneira de educação popular, principalmente, entre as raras exceções que vão para a academia, esse assunto nunca passa do “ele”, ou “ela”, ou “elx” e etc.

 

É simples : se parece ela, chame de ela, se parece ele, chame de ele; se a pessoa avisar não custa, usar o que ela solicita. É aí acabamos a discussão, há mais o que pedir de uma simples interação ? Não é ? Conviver com o outro não é difícil né ?

 

Há quem não entenda isso. Parte dos conservadores obviamente, mas também parte da comunidade lgbt+. Parece que a discussão sobre isso não pode acabar, não pode ir para luta de direitos, não pode ir para luta de medicamentos e saúde, para empregos e etc. Sempre temos que ficar na disputa entre o “ele ou ela”, ou inventar “elx e elu”, ou expandir mais ainda para descrever a própria identidade de gênero e sexualidade para categorias cada vez mais absurdas.

 

Vivemos numa sociedade reprimida sexualmente. Existe um ritual para se dizer bissexual, trans, gay, lésbica e etc. Deveríamos pensar : por que reduzir tanto quem somos a categorias tão específicas ? Não podemos sair fora da curva ?

 

Parece que a questão é essa : “sair da curva”. Já imaginou que horrível uma pessoa que não pode se encaixar em nenhuma categoria ? Que não segue regras de vestimentas, vocabulários, trejeitos, que não se importa com homens ou mulheres, mas com pessoas e é capaz de se apaixonar por essa coisa única que há em cada um de nós ? E que entende que a linguagem é meramente comunicativa e nem sempre corresponde à “realidade” ? E que pode conversar usando metáforas, poesias, ironias, afins ?

 

O medo de muita gente é esse ser Nietzschiano que tira a necessidade de ficarmos anos e anos discutindo se travesti usa banheiro masculino ou feminino. Roda viva quando foi falar com Laerte, passou duas horas falando disso.

 

Com certeza, dentro dos que vivem dessa discussão dos nomes e pronomes, há quem tenha algum problema pessoal e precise para se alimentar de algo para fazer, perder suas horas do dia falando desse assunto. São os casos clínicos que não precisam ser levados em conta, há pessoas que fazem isso com política, religião e etc. Ateus, por exemplo, são uma raça que mostram bem o que é viver em função de uma discussão que já deveria ter terminado. Entender isso é importante para lembrar que para muita gente, certos assuntos nunca tem fim, não porque se criam novas narrativas, mas por se prender numa só.

 

No entanto, não posso terminar esse texto sem falar o seguinte : há quem lucra em cima dessa discussão. É amigos, o capitalismo não deixa barato. Brotam livros, filmes, influencers e todo tipo de produto dentro dessa “polêmica”.

 

É muito interessante como, por conta disso, num mundo onde o tédio impera é sempre importante pegar um comentário descontextualizado de alguém e rotular de alguma coisa para “cancelar”. Sempre vemos listas e listas de filósofos misóginos, diretores de filmes machistas, frases de tweets antigos e por aí vai. A solução : boicote. Esses dias eu vi um cara defendendo não ler Platão, porque “Platão era machista” ! Por que então discutir isso ? Dá view, dá ibope, faz muita gente vender livros, fazem empresas como a Netflix lucram horrores em cima disso.

 

Não é um assunto que deveria ser tão polemizado como é. O homem sempre modificou o próprio corpo, as pessoas agem como se elas mesmas não fossem inteiramente modificadas. A própria roupa é uma tecnologia dessa, os óculos, os órgãos, etc. “Mas não, vamos julgar a menina que tem um pênis e quer ter uma vagina” – isso que eles pensam. A verdade é que a transexualidade lembra que todo mundo é livre para se fazer. Temos escolhas e isso é aterrorizador para muita gente, a liberdade é um fardo para muita gente. É como Sloterdijk diz, vivemos numa sociedade da leveza, queremos ser leves mas temos medo de ir muito alto, por isso colocamos pesos para não irmos muito longe. Se prender a discutir o sexo dos anjos, é acima de tudo, um peso de quem não se pode ser livre.

 

Quando o nosso leitor de Machado de Assis, Woody Allen tem que ser “cancelado” por elogiar as mulheres, quando a Contrapoints tem que ser cancelada por usar um dublador trans em um vídeo dela, quando se diz que não deveríamos ler Nietzsche por ser machista – Logo lembramos, que há mais semelhanças entre um evangélico, um neonazista e um identitário do que pensávamos. O medo do animal de rapina impera – a coruja assusta mais do que se imagina !