Da Paisagem ao Espaço – Por uma outra epistemologia

Não há dúvidas, é banal o que um arquiteto hoje em dia desempenha no mercado, ou propriamente na academia – projetos, técnicas de construção, técnicas de gerenciamento de obra ou escritório, e coisas afins. Há aqueles que fazem artigos acadêmicos enaltecendo a epistemologia projetual do arquiteto e urbanista, o chamado “saber-arquitetônico”, mas facilmente quando analisado mais a fundo, percebe-se a que o sujeito que desempenhou a prática, o arquiteto, agiu fazendo o que o capital no mercado condiciona. A representação gráfica, o desenho, a técnica, a estatística, gráficos e mais gráficos, planilhas e mais planilhas, atrelam-se à questão financeira e organizacional para acoplar-se à construção de algo, eis as técnicas efetivando-se em construções que servirão para o uso empírico, mas também o uso no mercado das finanças, um uso imaterial. Elas chegam até onde as normas chegam, em aparência (quando chegam). E facilmente, aquilo refletido não escapa da lógica do mercado como tal, projetar e construir investimentos para que gerem lucro e acumulação, meros instrumentos do capital (em hegemonia).E isso não acontece por falta de criatividade dos arquitetos e urbanistas, é preciso entender que sujeito aqui advém de sujeitar-se.

Destarte, não creio que estes atributos componham uma teoria do conhecimento fidedigna à arquitetura e urbanismo. A arquitetura e o urbanismo estão presentes em diversos tipos de práticas humanas, da filosofia a história, da antropologia a morfologia, da geografia a sociologia, é algo concreto que o homem cria, e também um objeto dos saberes dos homens (ela é criada pelo homem e cria-o simultaneamente). Acredito que o “saber arquitetônico” é o saber que considera não somente os aspectos técnicos do objeto, que na atualidade é instrumento do mercado capitalista, mas sim os saberes que vão colocar as chamadas ciências exatas como instrumento das ciências humanas. Agora, de fato o capital se apropria da ciência humana tanto quanto lhe é favorável, inclusive da biológica. Porém o bem estar-social-ambiental pode se tornar o foco da arquitetura urbana, isso depende do biopoder. Cairemos em seu paradigma, ou não?

Figura – Segregação urbana, a desigualdade vista de cima

Via macacovelho.com.br. ImageParaisópolis, São Paulo – Brasil

As ciências-sociais, devem ser usadas para um saber técnico e específico com determinada finalidade estabelecida como imprescindíveis, e então a técnica se aplica suprindo a necessidade de justiça-política. As técnicas variam, em especial ao sistema estrutural do corpo do edifício, devido a região que se encontra o local do projeto, condições climáticas e de matéria prima, mão de obra, condições econômicas, e culturais. É claro que isso está contra a lógica de que a tecnologia e a pura técnica, poderá de algum modo solucionar problemas urbanos (o erro positivista). Essa explicação é simplória, e não considera diferenças culturais e sociais para justificar uma intervenção arquitetônica palpável. Afinal como poder justificar qualquer forma mirabolante da estrutura dos edifícios mais lindos, com tecnologias de ponta e automatizações por todos os lados ao mesmo tempo em que os mesmos ficam ao lado de periferias, favelas, comunidades empobrecidas e carentes de bem-estar social? Ah, a vontade do capital. Eu sabia!

A vontade do capital se perpetua, centros urbanos desordenados, degradados como sua população mais vulnerável onde ele não chega, e mesmo assim ostentando luxo e glamour onde ali sim ele passa. Com a epistemologia projetual do senso comum, a positivista, não se entende isso, ou se a entende, o capital a silencia a qualquer custo. Milton Santos em seus livros, Por uma Outra Globalização e A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção, aponta-nos à entender ou ao menos olhar para onde todo mundo ‘olha e não vê’. Ele sim contribuí para a epistemologia em questão.

Em pauta a dialética da paisagem ao espaço, ao abstrair o objeto do conhecimento, a relação urbana, perpetua-se a ser: a paisagem, aquilo que vem do sensório, o que de fato está até nosso horizonte, o que já é concreto e possuí forma e volume, é fragmentária, como diria Santos, “a paisagem é a história concretizada”. A paisagem é o que já foi agido, não sendo o ativo, o ativo é o espaço, sendo assim, a realidade imaterial, pois extrapola os limites sensoriais e somente é percebida pelo sensorial lógico e dentro de uma interpretação macro dos espaços formados por conglomerados de paisagem. Em contraste o espaço se infla e a paisagem murcha dentro de sua esfera, ele contém a paisagem e é contido pela mesma. O espaço é de fato a história no exato momento de seu acontecimento, o sistêmico, o contraditório, o paradigma, ele é a o ambiente formal mais as subjetividades que o constituem, como espumas que se aglutinam obrigatoriamente inter-relacionadas. “A paisagem é um conjunto de formas que, num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza. O espaço são as formas mais a vida que as anima”, diz Santos. A história tal como é, está sendo construída enquanto olhamos a paisagem carregadas de intempéries autógenas mas fingimos que não vemos, temos a tendência à alienação do império do capital globalizado, neste caso, dentro do neoliberalismo, e achamos que nada disso pode mudar, que toda a desgraça do povo é ‘natural’ ou ‘normal’. Pelo bem ou pelo mal, se a história fosse construída ao olhar o espaço, seria diferente, somente não sabe-se como. O fato é que se seguirmos esse triste trajeto socioeconômico-cultural, permaneceremos em maioria sendo sofredores complacentes que nada sabemos de justiça-social. Precisamos inverter nossas atuações!