Escola para debaixo da ponte

Dei aulas num faculdade famosa de Propaganda e Marketing em São Paulo. Estando lá, também vi aulas de colegas. Numa delas, um professor de teoria da administração mostrava aos alunos, todos executivos bem sucedidos em suas empresas, como o que eles faziam era um erro, como não produziam nada, como que o método que ele tinha ali, na mão, é que faria uma empresa andar para frente. Os alunos escutaram tudo, até que deles, já mais irritado que eu e que os outros, acabou fazendo a pergunta fatal: “professor, se o senhor tem o método infalível e melhor que os dos outros para fazer uma empresa prosperar, por que o senhor está aqui dando aulas desse método? Não seria melhor aplicá-lo em uma empresa sua e ficar rico?” Seguiu-se a isso aquele silêncio constrangedor.

Há certos saberes que são de tal ordem práticos que, se não os usamos, não temos como vir a querer ensiná-los. Sem o êxito de saberes que prometem êxito, ficamos sempre pedindo remédios para queda de cabelos diante de um médico careca. É o fim. Parece que em Portugal essa é a moda. E se não bastasse isso existir lá, talvez como piada pronta, claro, há quem ache bom importar tal coisa meio biruta para o lado de cá do Atlântico. Anda por aqui o cara da Escola da Ponte.

Quem é? Trata-se do português José Pacheco (ver Folha 06/09/2016). É mais um daqueles magos da educação que irá revolucionar a pedagogia e criar “o homem novo”. Ou já está fazendo isso, na tal Escola da Ponte. É aquele tipo de gente que por sorte lhe demos um giz na mão, pois poderia ser pior se ganhasse um rifle, para salvar o mundo.

Seus conselhos, ele acredita, são novos. Divirta-se com as frases do homem: “não se aprende nada em uma aula”. E segue: não há razão para haver turmas ou fixar a aula em 50 minutos. Não há justificativa para se ter séries. O corolário dessas frases que ele imagina redentoras, então, é supimpa: a prova de que a aula é inútil é que todo mundo viu numa aula qualquer a extração da raiz quadrada, e ninguém sabe fazer tal operação. Bem, se eu estivesse na plateia da palestra desse senhor, eu não conseguiria ficar calado. Eu diria: “fala de quem, cara pálida?” Eu tive aulas na infância sobre raiz quadrada, e eu sei fazer a operação. Meu filho também. Eu fui aluno da escola pública, meus filhos, da particular. Tivemos aulas. Por isso aprendemos. Somos adultos normais, ou seja sabemos fazer operações básicas de matemática.

Toda essa baboseira pedagógica, com ares de inovação que não passam do arremedo caricaturizado do movimento da Escola Nova do final do século XIX para início do século XX, foi dito sabe de que forma, aqui no Brasil, pelo senhor Pacheco? Em uma aula. Sim, ele colocou os ouvintes em cadeira, enfileiradas num anfiteatro, e durante 50 minutos falou a eles, em tom professoral e dogmático, ou seja, no estilo da aula mais tradicional do mundo. Qual o conteúdo da fala? Este: o quanto a aula não ensina nada. Torço para que, ao menos no caso dele, realmente não ensine. Torço para que os professores que estiveram nesse aula não tenham aprendido a fazer alguma coisa. Nossa escola brasileira já está debaixo da ponte, não precisa de ninguém para empurrá-la para tal espaço.

Kant elogiou a Revolução Francesa como sinal de esperança. Era para ele um elemento empírico que estaria confirmando o que ele dizia, de que a história poderia mesmo estar voltada para um final de busca de liberdade, paz e outras coisas boas.  Mas ele não endossou a Revolução como forma de mudar o mundo, e sim a educação. Kant recolocou na jogada, por conta de ser leitor de Rousseau, o que no mundo antigo começou com um filósofo: Platão. Este quis realmente apostar na construção da vida nova por diferenciação de pedagogias. Por conta de pessoas assim, da filosofia, os pedagogos ganharam força e deram ao mundo essa ideia um tanto esquisita de que procedimentos de ensino possuem mais força do que realmente possuem. E é sempre esquisito que, para esses revolucionários do giz, a conversa é sempre a mesma, a do desprezo pelo giz e, depois, a do desprezo por qualquer coisa que substitua o giz se tal coisa não vier a ser a negação de tudo que é de bom senso. Pacheco condena computadores. Mas, para quem condenou a aula tradicional utilizando-se dela, qualquer coisa pode ser válida. Da nossa parte, o bom é que isso passe pelo Brasil e não fique.

Nossa escola precisa de boas aulas com bons professores que, para tal, ganhem ao menos como o professor universitário. Este não tem um grande salário, mas ao menos tem um ganho que não lhe tira a dignidade, ainda que seja só ao final da carreira. Precisamos disso, não de invencionices.

Portugal ganhou os mares com Caravelas. Mas já faz tempo isso. As caravelas da Escola da Ponte parecem não ter bússola, talvez nem caralho.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 06/09/2016

Foto:  o educador José Pacheco

2 thoughts on “Escola para debaixo da ponte

  1. Porque José Pacheco saiu de Portugal e veio para o Brasil? Simples: em lugares onde as coisas vão muito mal, como é o caso do Brasil e sua educação, é fácil você se projetar como o salvador da pátria, o ser que veio trazer a boa nova e a esperança, a salvação, o caminho, aquele que mostrará a luz no fim do túnel. Isso é o José Pacheco e essa sua gemada de escola da ponte!

  2. Geysa, que tal mostrar as essas vantagens da Escola da Ponte em um texto? O que você fez aqui foi só dizer que esse texto não fez jus à escola, mas não disse a razão.

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