Ghiraldelli e Rorty: uma visão pragmatista da subjetividade, da identidade e do conhecimento

Um dos grandes dramas de quem estuda filosofia, é dar a cada filósofo o que é seu. No entanto, os próprios filósofos se aperceberam do quão essa preocupação tem de infrutífera; ainda mais quando se trata de filósofos que andam juntos, ou que trilham caminhos parecidos. É o caso de Ghiraldelli e Rorty. Partindo de quatro ou cinco leituras introdutórias, minha intenção é apenas fazer algumas conjecturas sobre como esses filósofos pensam o ser humano, sua identidade e suas relações com o mundo e com o conhecimento. Tomo-os indistintamente.

O pragmatismo desses dois pensadores, começa se insurgindo contra um dualismo que foi ganhando diferentes formas ao longo da história da filosofia. Platão, Descartes e Kant podem ser tomados como os principais expoentes dessa perspectiva dualista. A ideia, basicamente, é a de que há um “eu interior”, uma mente separada do corpo, uma “razão pura” que habita, misteriosamente, dentro de nós, e que, supostamente, venha a definir quem somos.

Ora, qual o problema dessa visão, apontado por Ghiraldelli e Rorty? É que ela acaba, de diversas formas, sugerindo que a boa vida, que o ethos (a finalidade humana), se realize na busca por uma identidade que esteja livre das contingências, das idiossincrasias e dos acasos da vida. Para o pragmatismo, tal empreitada teve seus méritos no passado, porém tornou-se alguma coisa obsoleta. Não nos serve mais. Na esteira de filósofos como Thomas Kuhn, pensa-se estar numa grande mudança de paradigma. De modo geral, os pragmatistas pensam que muitos acontecimentos científicos e filosóficos dos séculos XIX e XX, acabaram dando às contingências, ao acaso, um papel central na identidade humana: um papel que, até então, fora tomado apenas perifericamente. 

Darwin e Freud são centrais nessa guinada. Darwin nos coloca devidamente na condição de animais, pertencentes à história da natureza e imersos no mais absoluto acaso. Assim, o conhecimento passa a ser visto mais em termos de sobrevivência do que em termos de verdade. Freud, por sua vez, coloca como central, no sujeito, aquilo que sempre fora negligenciado. Freud não apenas mostrou que o sujeito não é senhor em sua própria casa; mostrou também que, antes de isto ser um fato desconcertante, poderia significar um paradigma extremamente fecundo! O fato de não sermos senhores em nossas próprias casas, por acaso, nos impede de vivermos em tais casas? Claro que não! Quem foi que disse que, para vivermos bem na nossa casa, teríamos que mandar em todo mundo? Libertando-nos de tal metáfora obsoleta (de sermos senhores em nossa própria casa), passamos a redescrever a nós mesmos com menos presunção e soberba; e com mais imaginação e criatividade. 

Nesse sentido, embalados pelo pragmatismo, começamos a trilhar um paradigma em que deixamos de buscar um núcleo interior dentro de nós (que Ghiraldelli e Rorty chamam de “modelo do sujeito-cebola”), para tomarmos a nós mesmos como uma “rede de crenças e desejos”; rede esta que nunca termina de ser tecida. Não é muito mais interessante? Assim, diz Rorty, “não há nada no interior do eu a não ser aquilo que colocamos lá”. 

Poder-se-ia, contudo, perguntar: como, então, alcançar o autoconhecimento, se não voltando-se para dentro de si mesmo? Ghiraldelli e Rorty sugerem que a ideia de Sócrates do “conhece-te a ti mesmo” seja redescrita pela ideia de um “faça-te a ti mesmo”. É descrevendo e redescrevendo quem somos, portanto, pelo uso da linguagem, que vamos nos definindo e nos transformando. Interessante, não? Mais que isso, é libertador! Parece muito mais sensato e alegre perguntarmos “em que queremos nos tornar?”, do que ficarmos girando em círculos para sabermos “quem de fato somos”, na tentativa fracassada de encontrar um “eu verdadeiro” ou o “verdadeiro eu”. Quanto charlatanismo não há nesse mundo em nome da promessa de saber o método de atingir, encontrar ou descobrir o tal “eu verdadeiro”?!

Vejamos: se tomarmos quem somos como um eu puramente interior, diante de um mundo puramente exterior, os objetos de conhecimento com os quais nos envolvemos, acabam sendo vistos como completamente exteriores a nós mesmos. E isso é algo profundamente negativo e desanimador: estudar alguma coisa que não tenha nada a ver comigo?! Tô fora! (Aliás, suspeito que essa crença esteja no centro de uma cultura que torna o estudo algo por demais estranho para ser interessante). O pragmatismo, ao contrário, sugere que todo conhecimento e todo aprendizado seja um exercício de linguagem seja um exercício de linguagem, uma produção, uma ação no mundo. Daí o termo “pragma” remeter a “feito”. Dessa forma, os objetos do conhecimento com os quais nos envolvemos passam a ser vistos não como externos, mas como pertencentes a nós, na linguagem.  

Nessa onda, talvez possamos sonhar com uma educação em que os estudantes e professores não encarem os objetos de conhecimento como externos a si mesmos; encarem-os, antes, como instrumentos de transformação individual e coletiva. Talvez possamos sonhar com uma educação em que a linguagem não seja vista como um meio de acertar ou de errar; de representar acuradamente este ou aquele objeto, ou de expressar adequadamente este ou aquele conteúdo; mas, em vez disso, que a linguagem seja vista como meio de mostrar como é que determinado objeto se apresenta para determinado sujeito. Talvez possamos sonhar com uma educação em que linguagem não seja um meio de separar os que sabem dos que não sabem, mas que seja antes, um instrumento de redescrição e transformação individual e coletiva. Talvez, inspirados pelo título de um belíssimo livro do Ghiraldelli, possamos sonhar com uma filosofia que esteja mais voltada à busca de mundos novos, do que na busca pelo mundo verdadeiro.   

Li, em Schopenhauer, que “não se desfruta París, desfruta-se a si mesmo em Paris”. Recentemente, conversava com um amigo sobre o cintilante fenômeno que desfruta, quem estuda filosofia; em muitas e muitas coisas que os filósofos disseram e dizem, parece que eles “leram nossos pensamentos” De fato, não há nada mais comum, nesse sentido, do que pessoas começarem a estudar filosofia depois de se reconhecerem em algum pensamento filosófico. Lembro-me muito bem, a título de exemplo, do quão redentor foi, pra mim, o Manifesto Comunista, quando tinha quinze anos. Adentrar no estudo da Filosofia é viver essa experiência infinitas vezes. 

O que quero dizer com isso? Que estudar o pensamento dos filósofos não é estudar algo externo a nós mesmos; muito pelo contrário, seria antes um “expandir de nós mesmos”. Talvez não exista sensação mais interessante e estimulante para a leitura de clássicos! A ideia platônica de que a filosofia seria uma espécie de “recordação”, talvez possa ser assim entendida, à luz do pragmatismo, dado que ela nos faz redercrevermos ideias que pareceiam estar em nós. Posso dizer, com Platão, que não desfrutei Platão; desfrutei a mim mesmo, em Platão.  A mesmíssima sensação eu tenho quando leio Paulo Ghiraldelli ou Richard Rorty. 

Ora, por muito tempo eu imaginava, fantasiava, idealizava existir em algum remoto rincão deste universo, uma filosofia que partisse verdadeiramente da ideia de que nenhum ser humano está mais próximo da verdade do que os outros; uma filosofia que levasse a sério a ideia de Nietzsche de que “não existem fatos, apenas interpretações”, e a tomasse em conjunto com a sugestão de Marx de “transformação do mundo”; uma filosofia que interpretasse a tese de Freud de que “não somos senhores em nossas próprias casas”, de uma forma alegre e produtiva. Pois bem, encontrei! De um tempo para cá, eu desfruto a mim mesmo no pragmatismo, e acredito que o farei para o resto da vida. Um ganho inestimável. Um presente que o acaso me trouxe: ideias que fazem da filosofia e do exercício criativo e imaginativo da linguagem, alguma coisa que, por si só, faz a vida valer a pena.

O pragmatismo não toma a linguagem como um meio de representação ou expressão do pensamento; não vê a linguagem como uma coisa externa à nossa identidade, mas justamente aquilo que faz com que sejamos quem somos. A linguagem é nossa identidade. (É por isso que quem estuda filosofia, descobre que no início do século XX houve uma assim chamada “virada linguística”). Não é mesmo? Seríamos alguma coisa se tirássemos a linguagem? Não. Somos linguagem. As próprias ideias de um “eu interior”, de um “eu verdadeiro”, ou de “um verdadeiro eu”; de “um mundo exterior”, de “uma verdade no mundo lá fora”, alguma coisa não linguística e não relacional que a linguagem tivesse que representar ou expressar; tudo isso, são apenas produtos da linguagem. 

 Foi com o pragmatismo que pude entender, de uma vez por todas, a afirmação de Wittgenstein de que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Daí o estímulo dos pragmatistas aqui citados, para que nos aventuremos na linguagem! É o que pedem! É tudo o que pedem! Daí, entendermos perfeitamente quando Paulo Ghiraldelli e Richard Rorty dizem, sobre um tema, assunto ou acontecimento, que “por enquanto, é essa narrativa que temos para entender tal coisa, mas pode haver outra….haverá outra!”. Com Hegel, o pragmatista espera a história acontecer, e afasta-se da presunção e da soberba com que grande parte dos intelectuais acredita poder explicar o mundo inteiro numa narrativa só! Daí, entendermos o filósofo não como alguém que esteja mais próximo da verdade do que outras pessoas, mas como alguém que “joga com a linguagem”, que descreve e redescreve, que cria narrativas, que aceita narrativas de outros, que compara, que pondera, que descreve e redescreve a si mesmo como filósofo. Daí ele dizer, com Nietzsche, que está aí para fornecer instrumentos de pensamento, e não a verdade redentora. Daí entendermos a insistência de um Ghiraldelli para que se tenha em mente a existência, na cultura, de diferentes gêneros literários; a insistência para que possamos ter discernimento suficiente para aceitar o convívio de diferentes narrativas, em vez de confrontá-las e hierarquizá-las, como fazem, por exemplo, os positivistas, com a ciência em relação à religião. Insistir nisso, como o Ghiraldelli faz, é tomar a metáfora nietzscheana da morte de deus como a morte da esperança de uma narrativa redentora, seja da ciência, da religião ou da própria filosofia; é aceitar, de uma vez por todas, a virada linguística.

GHIRALDELLI Jr, Paulo. A filosofia do novo mundo em busca de mundos novos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

RORTY, Richard. Contingência, ironia e solidariedade. São Paulo: Martins, 2007.

RORTY, Richard. Ensaios pragmatistas: sobre subjetividade e verdade / Richard Rorty e Paulo Ghiraldelli Jr. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.