Ideia de Claudio Moura Castro sobre importação de maridos é boa!

Política de imigração é um bom instrumento do “parque humano”. Quando uma ilha é habitada por famílias que não possuem tradição no plantio de hortaliças, nada melhor do que importar famílias japonesas para tal lugar. Quando uma ilha é habitada por gente que não tem tradição de sentar-se à mesa e ouvir histórias na hora da janta, porque não tem tradição de família, ou seja, são ex-escravos, não é errado pensar em trazer homens ou mulheres de fora, que tenham longa tradição familiar, para se casarem com os do lugar. Começa-se a dar ao local a chance de ter uma população que se enraíza, que propaga histórias sobre si mesma. Cria-se o que os sociólogos chamam de identidade social. Uma parte da identidade psicopolítica precisa muito disso.

Mas, e se encontramos uma ilha cercada por ar acima e por terra abaixo, perdida entre o Atlântico e o Pacífico, onde nunca as famílias conversam sobre matemática e física em volta de uma mesa, nas refeições? Será que não teríamos aí uma população meio que romana, com muito latim e grandes feitos, mas, ao mesmo tempo, criadora de um aqueduto enorme no qual a água deveria subir, sem qualquer bomba? Criar uma escola para que os filhos dessas famílias saíssem desse situação de ingenuidade não seria bom? Todavia, será que num lugar sem qualquer tradição de se levar a sério a narrativa da ciência, essa escola saberia como ensinar física e matemática? Traríamos bons professores, mas a escola desanimaria – faltaria para ela um ethos local apropriado, faltaria o apoio substancial do lar. Ao final, não ensinaria nem o latim, pois isso, como já teria sido acordado, todos ali já sabiam. Afinal, um romano sem saber latim não seria um romano.

Não temos que importar gente que trabalha com física e matemática para que venham ocupar empregos aqui. Isso é imediatismo pouco produtivo. Mas podemos pensar na ideia de trazer maridos (ou esposas) para criar famílias que gerem ambientes onde o gostar de matemática e física seja natural, espontâneo. Famílias que conversem não só sobre o bom uso das artimanhas do latim, sobre a pureza do grego, mas que tenham lares onde a matemática e a física se ponha consciente, como uma narrativa a mais de troca de experiências. Uma política migratória com objetivos culturais e educacionais a médio prazo pode sim mudar um país. Ora, uma política migratória no momento de uma Europa ainda em crise, uma China super populosa, um Japão que ainda exporta gente e um mundo árabe em guerra, não é difícil de ser feita.

Podemos imaginar uma ilha com famílias que durante a janta gostasse de conversar sobre O homem que calculava, de Malba Tahan, antes do que a respeito dos massudos tratados do professor Luciano Huck ou do “à direita ou à esquerda” da TV Cultura paulista! Não se trata de pensarmos em uma política de migração nos moldes tradicionais, que já fizemos, mas nos moldes do bônus para casamento. Bônus para quem se case com estrangeiros apreciadores sinceros e manejadores competentes de matemática e física, trazidos ao país para o matrimônio. Em vinte anos, a escola brasileira começaria a ter professoras, filhas dessas famílias planejadas pela política do bônus, cuja curiosidade científica seria nítida. Começaríamos a ver ficar para trás a aversão à matemática da formanda em pedagogia, como na atualidade, ou mesmo a incapacidade em lógica dos formandos nas licenciaturas em ciências humanas no Brasil. Já imaginou termos um país e em que “os de humanas” tivessem noções de física que não fossem pré-neutonianas? Já imaginou a beleza de uma ilha em que não existisse mais professor universitário de história dizendo, com orgulho ignorante, “não sou matemático”, diante de uma raiz quadrada?

A tese de Claudio Moura Castro de que o professor brasileiro não ganha mal é errada. No Brasil essa profissão está sim defasada das outras de um modo acentuado, e em disparidade com o que ocorre no resto do mundo. Pessoas aqui em nosso país com o mesmo grau de estudo universitário, vindos das mesmas escolas, possuem empregos de remuneração cinco vezes maior se não são professores. Mas, quanto à ideia de de dar bônus para “‘as nossas “caboclinhas” se casarem com engenheiros estrangeiros, gerando famílias brasileiras, que continuem aqui nessa grande ilha, isso pode sim dar muito certo. Nisso, o artigo de Claudio, na revista Veja, acertou. Como já disse, não deveríamos pensar nisso para resolver o problema de mão de obra. Dá para pensar maior, mais ousadamente. Dá para pensar numa política de construção do “parque humano” com um planejamento mais furioso, ousado, revolucionário.

O triste de tudo isso foi ver que o próprio Claudio Moura Castro fez a sua declaração como “piada de mal gosto”, como confessou depois, ao ser patrulhado. Mas quando as patrulhas de imbecis (existe patrulha não imbecil?) baixarem a guarda, podemos pensar seriamente nessa ideia. Com um pouco de estudo de antropologia, chega-se fácil à conclusão de que é uma boa coisa.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 31/07/2016.

3 thoughts on “Ideia de Claudio Moura Castro sobre importação de maridos é boa!

  1. O filósofo parece exercitar a ousadia. É por isso que ele nunca poderia ser um político. Mas daria um grande consultor político. Políticos jamais pensariam em mexer no “amor” que faz as famílias. Esse amor é como uma mágica que desperta os pudores de todos os outros. Então as pessoas são deixadas ao Deus dará dessa mágica, formando as famílias que puderem formar, com grandes deficiências vistas fora do curto prazo. Como o filósofo sente tudo, mas põe um pé para fora, ele se livra dos pudores e diz “por que não?”. Então ele, que já falou em “por que não Jesus pedófilo”, depois em doações, agora fala em interferir nos elementos que entram na “sorte do amor”. Se o filósofo se espanta com as coisas, eu me espanto com o filósofo. Mas aí também me espanto com as coisas.

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