Mãe Gisele não está esgotada

Gisele foi assaltada por um jovem. A polícia tenta prender o jovem, mas Gisele o protege. Isso, na abertura das olimpíadas (http://emais.estadao.com.br/noticias/moda-beleza,organizadores-cortam-assalto-a-gisele-bundchen-na-abertura-dos-jogos-olimpicos,10000066397).

Os programas de crimes da tv têm enorme audiência. Eles são sintonizados em casa, no refeitório da empresa, no bar. São programas para se bater o olho a fim de saber duas coisas: “o que aconteceu?” e “a polícia pegou?”. Todos os casos são mostrados em torno disso.

Você pode assistir almoçando, e terminar de ver com o término do almoço, pois aquilo continuará passando sempre igual. Imagine se um filme, ao invés de ter um começo e um fim, tivesse o começo atado ao final, de modo que ele se repetisse num loop infinito?

Quando se comenta esse tipo de “notícia”, é elogiando o policial, condenando o acusado, lamentando pela vítima. “Poderia ser eu”, pensa-se, não só pela vítima, fazendo a si mesmo experimentar alguma injustiça e reclamando dela: esta frase também é pensada a respeito do policial, experimentando punir o outro; e sobretudo, é experimentada a respeito do culpado, aquele que folgou, nadou de braçada no seu desejo e agora terá os braços decepados.

“As coisas não são iguais para todos. É preciso se contentar com isso. Ou a punição é terrível”, tal é a lógica que alinhava os três papéis. Nestas cenas não há Gisele, para proteger o culpado. A versão da cena para as olimpíadas, então, tem algo errado.

Houve protestos para a retirada desta parte da abertura do evento. Não suportaríamos assistir a um assalto na nossa cidade estando ao lado de muitas outras pessoas, como olhamos um jogo de futebol ou uma votação. Um jogo ou um concerto são situações mantidas como reservatórios de boas promessas, promessas de que o mundo é alegre e bom. O pessimismo que expressamos com nossos pares é vivido em uma hora, o espetáculo do ser acariciado pelo artista ou pelo político é vivido em outra.

A cena de Gisele não poderia ser apresentada também pelo fato de não sermos Gisele. Assistimos a uma cena de crime, vivendo-a, mas sem que haja a possibilidade de perdão do criminoso. O homem que goza no roubo e no estupro não pode ser perdoado. Nunca devemos agir como ele, curtindo a sensação de fazer algo ruim. A “melhor sensação” de todas (assim considerada por nós justamente por ser a mais proibida) deve ter a maior punição.

Estar em uma multidão e ver o gesto de Gisele nos doeria muito. Ser perdoado, enquanto criminoso. Ser um policial tornado culpado de perseguir um jovem. Um espectador culpado por ter desejado o sangue do jovem. Aquilo que fazemos no escuro não queremos exposto. Gisele é como o sol, onde ela aparece tudo ao redor fica iluminado. Então, nada ruim ousa aparecer perto dela. Envergonhamo-nos do nosso ódio ao jovem que rouba. Este ódio é uma raiva de indivíduos que sentem que os bens do mundo são escassos, acham que todos vivem querendo pegá-los e que o que se tem deve ser defendido por armas.

Somos filhos ciumentos de uma mãe a quem achamos que privilegia nossos irmãos. A humanidade produz muita riqueza. De fato não nos falta nada. Mas insistimos em dizer que sim. Pensamos sob a lógica da escassez. Criamos sistemas de produção e distribuição de bens capazes de nos alimentar sem sentirmos fome. Criamos um modo de vida que nos faz sentir protegidos e estimulados como no útero da nossa mãe. Apesar disso, desde que caímos do Éden nossa experiência tem sido a da falta. É a experiência de que a vida é sofrida, de que sempre nos falta algo e, por isso, defendemos à unha o que temos.

Não percebemos que, se estamos aqui, escrevendo e lendo, algo nos sobra. E que este algo nos empurra à doação, inclusive para quem tem um grande potencial para desenvolver-se mas está na rua, pedindo dinheiro. Ou à adotar um cão.

Desde que perdeu a centralidade do poder, no Brasil, a auto-estima do carioca anda baixa. Ele pensa que só tem assalto e violência a oferecer ao mundo. A cena com Gisele quis mostrar algo além disso. Ela, sendo a beleza, não é o ódio da polícia e a carência do pivete. Ela é uma espécie de útero com recursos para ambos. Não é a mãe esgotada de crianças famintas e que se matam umas às outras.

Gisele quis mostrar que temos para dar ao mundo uma coisa diferente de carência e de porrada. Quis mostrar não só para os estrangeiros, mas também para nós, a beleza de um olhar mais generoso.

Não quisemos ver, e a cena foi cancelada.