O FIM DO IMPERIALISMO E A HEGEMONIA DO IMPÉRIO DO CAPITAL

O conceito de imperialismo vem sendo utilizado há décadas, principalmente a partir do pós-guerra, como um fenômeno quase que exclusivamente de representação do poderio do Estado Norte-americano e como ele impõe suas vontades na periferia do capitalismo mundial. Em geral, nessa perspectiva, a imposição é feita (quando superado os limites diplomáticos), em grande parte das vezes por meio de intervenções militares. Esse entendimento sobre o que é o imperialismo predomina no imaginário da população, entre os intelectuais, políticos de esquerda, mídia, etc.

Pois bem, essa visão tradicional sobre o imperialismo merece um debate profundo diante das grandes transformações na forma como o capital se desloca e impõe sua vontade no espaço global. É necessário refletir sobre como o imperialismo se apresenta no século XXI, um imperialismo adaptado ao capitalismo financeiro e globalizado. É fundamental entender como o grande capital funciona diante de um contexto de globalização.

O grande capital não se concentra mais em Wall Street, e não representa mais a burguesia estadunidense. Aliás, a ideia de uma burguesia nacional, controladora dos fluxos de capitais é cada vez mais dissociada da realidade. Por isso, o estereótipo de império que invade outros países para defender os interesses de sua burguesia não faz mais tanto sentido. Segundo Ladislau Dowbor, a economia se globalizou, com corporações transnacionais e gigantes financeiros operando em escala mundial, enquanto os governos continuam sendo em grande parte nacionais e impotentes frente aos fluxos econômicos dominantes.

Os instrumentos políticos de regulação permanecem fragmentados em cerca de 200 países que constituem o nosso planeta.  O capital estando cada vez mais globalizado e financeirizado, acaba por se reproduzir em várias partes do globo, sendo cada vez menos dependente do trabalho para tal, é o que Dowbor chama de “capital improdutivo”, ou seja, o capital que se reproduz a partir de si mesmo, por meio de especulação, compra e venda de créditos, dívida pública e jogatinas do mercado na Bolsa de Valores.

Sendo assim, o capital precisa de um ambiente calmo o suficiente que favoreça a sua reprodução, ambiente esse que mantenha altas taxas de juros, compatíveis com a lógica do mercado financeiro e possa proporcionar uma boa avaliação por parte das agências avaliadoras do mercado. Por isso, qualquer instabilidade política pode afetar essa situação afastando o capital de determinada região geográfica, levando-o a se deslocar para outra.

Não por acaso, a condição adequada para o capital é um Estado-Burguês “estável” sem grandes turbulências sociais, com instituições de mercado e regras contratuais legalmente estabelecidas, que garantam a contenção dos conflitos de classe e arbitre entre as reivindicações de diferentes facções (como descrito por David Harvey no célebre livro “O Novo Imperialismo”).

O imperialismo vigente não é mais o do poderoso Estado-Nacional Burguês, mas do grande capital internacional descentralizado. Sim, descentralizado, pois ele não está somente nos EUA, mas na Europa, Japão, China e em menor escala nas potências regionais. Ele é transnacional e apátrida.

O novo imperialismo, consideravelmente mais complexo que o imperialismo clássico, tem seus vetores de ação em movimento, num contexto de supremacia do capital fictício (capital financeiro), um contexto de expansão dos mercados, sem precedentes na história humana e de dispersão do poder político e econômico para novos países do globo. Essa perspectiva está em consonância com a teoria marxista da dependência, que tem como fundamento a superexploração do trabalho e a conversão do excedente em lucro para o capital financeiro, reduzindo o lucro do capital produtivo, como afirma Marini.

A lógica do novo imperialismo  acarreta num resultado catastrófico nas economias periféricas (América Latina, Ásia, África e outras parcelas do globo), ocasionando a ampliação da pobreza e da miséria, aumento das desigualdades sociais, perda de alguns direitos que foram duramente conquistados, como aposentadoria integral, seguro desemprego, saúde e educação públicas, jornada de 40 horas semanais, bem como precarização das condições de trabalho por meio de reformas trabalhistas que têm como função central favorecer o mercado financeiro, criando uma massa de trabalhadores mal remunerados, e sem, ou quase nenhuma seguridade trabalhista, o chamado “precariado”, conceito popularizado por Ricardo Antunes.

Além da precarização das relações trabalhistas, tanto na centralidade do capitalismo como na sua periferia, o novo imperialismo carrega também uma ânsia por privatizações como forma de apropriação da riqueza dos países, não somente uma riqueza material como o petróleo (recurso que não necessita mais de intervenção militar de um Estado imperialista para ser apropriado pelo capital), mas a apropriação do montante obtido com as privatizações, por meio de sua utilização como pagamento da dívida pública.

Ou seja, os Estados endividados privatizam suas estatais não para investir na economia, mas sim, para pagar os juros das dívidas adquiridas no mercado financeiro, colocando os países de joelhos perante o “Deus mercado”. Essa é a nova faceta do imperialismo. Está intimamente conectado à ideologia neoliberal.

Não vivemos mais a era do império americano, nos moldes da guerra fria, pautado pela disputa da hegemonia econômica, social, política e cultural do planeta. O que vivemos hoje é o império do capital. Em que os Estado-Nacionais (principalmente os da periferia do sistema) pouco podem fazer para controlar os fluxos de capitais, se submetendo ao interesse do capital especulativo por meio de políticas de ajuste de fiscal, juros altos e privatizações, tudo em prol de manter o mercado “feliz” e presente em seus territórios. Não mais para investir em produção, mas para manterem os títulos da dívida pública atraentes para o sistema financeiro, retroalimentando um mecanismo de compra e venda de créditos, que asfixia a economia das nações.

Por fim, com a ideologia neoliberal presente em praticamente todos os países (tanto em governos de direita como de esquerda) e a desnacionalização das burguesias atrelada a descentralização do capital financeiro. Não é mais necessário que o capital se utilize de intervenção militar exterior para impor seus interesses, os próprios Estados-Nacionais impõem a si mesmos. Isto não elimina os conflitos e as contradições, afinal, esse modelo está esmagando a classe trabalhadora e o sistema produtivo, gerando ebulições sociais cada vez maiores (Exemplo: Chile, Equador, Brasil, Haiti, etc.).

Talvez o que poderemos observar em maior quantidade sejam as intervenções militares dos Estados contra o seu próprio povo, como mecanismo de contenção dessas ebulições. Principalmente em países com grandes contradições sociais, em regiões como a América Latina, em que as forças armadas historicamente têm tido somente uma função, defender o capital.

É necessário rediscutirmos os modelos políticos e a relação com as forças armadas nos países da economia periférica, em especial os latino-americanos. É Preciso um projeto político que leve em conta a ideia de hegemonia cultural, não somente buscar vitórias eleitorais. Essa hegemonia cultural passa, invariavelmente pela formação curricular das forças armadas. É fundamental um projeto de esquerda que proponha a mudança de mentalidade no exército, marinha e aeronáutica, é preciso que tenhamos uma força armada anti-imperialista e não uma organização que vive em busca do “inimigo interno”, que no caso da América Latina é todo o projeto de político que atrapalhe minimamente o império do capital.

Enquanto isso não acontecer a tendência é que qualquer governante de esquerda que ousar fugir da ideologia do neoliberalismo na América Latina estará sujeito a sofrer golpes, em sua maioria apoiados ou liderados pelas forças armadas, a mais poderosa organização anti-esquerda e anti-povo em nossa região.