O PSICODRAMA DIANTE DA FALÊNCIA DA ESPONTANEIDADE

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Resumo: Esta é uma breve narrativa. Faz referência a autores como Moreno, Singer, Foucault, Esposito, Harvey, Marx e Byund-Chu Han, com o intuito de estimular o aprofundamento do estudo para possíveis contribuições ao Psicodrama. “De quebra”, também remete a uma crítica a base da sociedade moderna e propõe reflexão sobre o papel do psicodramatista na atualidade.

 

AGRADECIMENTO

O interesse de vocês pelo tema me estimulou a escrever este artigo, agradeço a Elisete, Bárbara, Judit e Danilo, membros da ABPS – Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama, e ao incentivo afetuoso do pessoal do CEFA – Centro de Estudos em Filosofia Americana.

(Que nós, psicodramatistas, possamos explorar novos rumos para o Psicodrama no Brasil)

 

aprendizado com a experiência da sindemia de Covid-19? Difícil pensar nestes termos e não se “afetar” pelos afetos. Mas acho importante esclarecer ao maior número possível de pessoas de que o conceito de Pandemia foi ultrapassado pelo de SINDEMIA desde a década de 90[1]. Vejam que em artigo recente, Richard Horton, editor chefe do periódico científico The Lancet, passou a classificar a Covid-19 como uma Sindemia e não como uma pandemia, pressionando a OMS a rever seu posicionamento.

A SINDEMIA é um problema ligado a BIOPOLÍTICA (e isto remete a Foucault, Roberto Esposito e outros) e denuncia enfaticamente a “loucura da razão econômica”, no jargão de David Harvey.  Esta loucura não é um simples problema moral de “avareza”, pois pobres e ricos, trabalhadores e empresários, e agora também os aplicadores, compõem a engrenagem do capital’ismo. A criatura, neste caso, engoliu seus criadores e o problema gerado pelo coronavírus ganhou perspectiva[s] (o velho problema já apontado por Marx): há uma elite que vê a rachadura do navio do alto da ponte e dos camarotes e, enquanto os vulneráveis se acotovelam nos porões, a classe média exprimida procura pela sua boia! No Brasil, há sim uma elite “má”, mas não entro no mérito agora. Desta vez o iceberg foi a Covid-19, logo-logo teremos as convulsões climáticas… A geopolítica é outra questão sempre crítica e – só faltava essa! –  no Brasil passamos por uma crise de irracionalismo sem precedente. Tudo se passando dentro da grande bolha do capital´ismo; não nos esqueçamos que este é o sistema econômico-social-cultural hegemônico no mundo. O capital’ismo, que passou, muito rapidamente, de breve apogeu para o esgotamento, tornou-se “iatrogênico”. Esta é uma conclusão difícil de se chegar para quem tem como foco o “sucesso na vida” ou está sendo moído pela engrenagem, porque gasta mais energia para se esquivar dela do que para pensar sobre ela. Além disto, enquanto tiver “gordura para ser queimada”, vão-se os anéis para que os dedos fiquem. Na Covid-19, os anéis foram as VIDAS que se foram! Mas o que está “ficando”??

Há outro fato que salta aos olhos, mas ainda passa desapercebido por muitos, o capital´ismo (como infraestrutura) também se tornou o principal responsável pela explosão do número de casos de depressão, de TDHA, síndrome de Burnout, dentre outras moléstias. Isto, sem contar a fome-miséria, não porque necessariamente a cause, mas porque necessariamente a mantém, se levarmos em conta a desigual distribuição da renda. Há uma tensão social perene e crescente que desencadeia e alarga o mal-estar – em oposição ao bem estar – na civilização. O exemplo dado ocorre em escala global e demonstra clara etioplastia[2] no diagnóstico destas doenças, levando a frequente viés de seus tratamentos, por considerar tais diagnósticos apenas em sua superfície sintomática. Aplicar o DSM – Diagnostic and Statistical Manual – sem entender que a doença mental se transformou num grave problema de SAÚDE PÚBLICA é um erro primário.

Enfim, e Moreno, pai do Psicodrama, nesta história toda? Moreno já estava nos EUA quando surgiu o NEW DEAL, plano econômico americano que orientou em sua época (junto com a social-democracia europeia) a relação de Estado-Nação no mundo. Pouco tempo depois da morte de Moreno, vieram os primeiros raios do neoliberalismo, no final da década de 70 e início dos anos 80, principalmente com Nixon/EUA e Thatcher/Inglaterra. Este foi o início do fim, se admitirmos a ideia de que o neoliberalismo atuou como o estado da arte do capital´ismo, antes de se mostrar anacrônico. Hoje vivemos um profundo interregno. Em vida, Moreno anteviu graves problemas sociais ao se referir a necessidade de uma “Revolução Criadora”: “A maior, mais longa, mais difícil e mais singular das guerras empreendidas pelo homem (…) é uma guerra do homem contra fantasmas, os fantasmas a que, não sem razão, se chamou os maiores construtores de conforto e civilização. São eles a máquina, a conserva cultural, o robô” (Psicodrama; Ed. Cultrix – 1993). É difícil compreender Moreno sem levar em conta fases históricas da humanidade. Passamos pela sociedade escravocrata, depois pela sociedade da disciplina (fase fabril) e agora vivemos numa sociedade do controle (pós financeirização). Byund-Chu Han vê o homem neoliberal de hoje como aquele que se auto explora (é empresário e empregado de si mesmo!). Moreno nos lembra que no início do processo industrial o homem chegou a ter a esperança de que a produção em massa, a reorganização do trabalho e de seus produtos, a mecanização, daria mais comodidade ao homem que, enfim, poderia pelo ócio, dispor de tempo e energia para criar. Passamos pela IA – Inteligência Artificial, pelo surgimento da internet e dos APPs e, o que decorreu disto até agora, foi a uberização do mercado de trabalho, com a fusão vida-trabalho. Chegamos a uma “sociedade lisa”, aparentemente *sem* conflito de classes, robotizada/virtualizada/online, capaz de produzir síndromes como a de Burnout. O capitalismo prometeu, mas não cumpriu, que a inovação tecnológica daria mais tempo para o ócio e o bem estar, ao invés disto, veio o desemprego estrutural de um lado e a síndrome do cansaço permanente de outro, do esgotamento até o sumo, da pós verdade e do espetáculo.

Moreno fez sua predição em 1931[3]: “Essa guerra contra os fantasmas[4] exige ação, não só da parte de indivíduos isolados e de pequenos grupos, mas também das grandes massas humanas. Essa guerra[5] – dentro de nós próprios – é a Revolução Criadora”. Se na dimensão individual utilizamos como parâmetro de saúde mental a espontaneidade; na dimensão da saúde pública, considero mais apropriado a ideia de utopia. Se encontramos um número tão exacerbado de doentes no planeta, se vivemos num estado sindêmico há anos, como aqui foi exposto, a espontaneidade e a utopia são nossas últimas taboas de salvação, a salvação de nós por nós mesmos (e que Deus nos ajude!).

Eis o DRAMA do Psicodrama-Sociodrama: não havíamos nos deparado ainda, tão de perto, com o iminente risco de falência da espontaneidade e da utopia humana.

 

Toni Grangeiro, Psicodramatista e membro do CEFA – Centro de Estudos em Filosofia Americana

 

[1] Termo cunhado pelo antropólogo médico americano Merrill Singer, diz respeito à interação entre doenças em uma abordagem mais ampla, analisando fatores como o contexto socioeconômico. A sindemia se dá e é caracterizada pelas interações biológicas, sociais e econômicas entre a população.

2] A patogenia da doença interessa mais que sua patoplastia. A etiologia de uma doença é o estudo centrado em seus agentes causais, sendo o desafio do profissional de saúde mental, não confundir patoplastia com patogenia, pois aquela camufla, por similaridade sintomática, as verdadeiras raízes psicopatológicas e induz ao erro clínico. Chamo a atenção a hegemonia em nosso tempo da chamada “psicopatologia descritiva”, centrada no diagnóstico de sintomas, e que deixou em segundo plano a abordagem psicopatógica de fundamento fenomenológico-compreensivo.

[3] Jacques Levy Moreno, publicado em “Impromptu Magazine, volume 1”.

[4] A meu ver, não creio que Moreno tenha se atido ao fato de que a tecnologia e as relações de produção-trabalho, são moldadas segundo os interesses do capitalismo.

[5] Em minha modesta análise, penso que esta “guerra interior” é resultante da tensão interna entre o impulso de espontaneidade e a introjeção da conserva cultural, mas não está dissociada da guerra travada na dimensão sociológica, econômica e política.

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