Pseudocomunidades


Cada grupo de residências em uma cidade grande brasileira, cada rua ou vila, é formada por pessoas que desacreditam dos serviços públicos. Acreditam naquilo que podem pagar. O serviço do qual se sente necessitado ao se andar na rua, ao manter sua loja aberta ou para dormir sossegado em casa seria o da polícia. Mas ela segue um modelo antiquado, militar, e age de forma truculenta. Nas situações onde não é permitido que ela seja truculenta, ela não se faz presente. Então se pede por qualquer homem que fique parado na rua, com cara de quem tem arma, intimidando o que possa acontecer. Nossa ideia de segurança é antiestatal. E os governos não falam nada sobre a reforma da instituição policial, sobre a melhoria da parte da Constituição que já nasceu velha, por um certo compromisso com os militares, que deixavam o poder. Com Roberto Esposito, posso dizer que comunidade, vinculacão de indivíduos a partir de obrigações mútuas, é inseparável de imunidade, suspensão, temporária ou permanente, dessas obrigações, para um indivíduo ou grupo. Viver em comunidade potencializa a vida dos indivíduos. Mas a vida tem situações imprevisíveis: eu posso ficar inválido para o trabalho. Com quem vou contar? Ou assassino alguém. O que acontecerá comigo? O inválido e o criminoso, pelo gerenciamento que a comunidade tem dos seus membros, tornam-se imunes, recebendo um tratamento de cuidado ou de privação de liberdade e provisão de cuidado, que os desobriga de responderem totalmente por suas vidas. A imunização é a colocação de uma situação negativa da vida na comunidade, e ela, ao lidar com essa situação, conserva-se. É para isso que se criaram os serviços públicos, inclusive os jurídicos e os policiais. Uma comunidade define-se não só pela união de pessoas, mas pela forma como ela delega certos poderes a uma outra instância, para que ela consiga viver sua vida. A comunidade jamais pode negar seus miseráveis, seus violentados, suas mulheres grávidas, seus deseducados, seus doentes e seus criminosos. Justamente pelo compromisso mútuo, ela deve fazer algo a respeito daquilo que a nega de diferentes formas, pois isso é o que a conserva, a protege. Os hospitais, as escolas, a securidade social e as polícias precisam ser cuidados como frutos da comunidade, e como seus protetores. Mas não conhecemos e não somos responsáveis por nossos vizinhos. E tratamos os problemas que surgem entre nós como objetos para terceiros cuidarem. Advogados e policia surgem nas horas de conflito, tornando todas as horas horas de conflito. E um jovem pobre e negro que passe na minha rua tem menos ainda a ver comigo: nunca tive vínculo com ele, o que ele faz nunca me obrigou a reunir-me em comunidade para decidir, então ele é o extracomunitário. Meu vizinho é um extracomunitário! Vivemos em pseudocomunidades, muito aquém de podermos entender o que é o Estado, e que só lembramos que temos vizinhos quando surge um miliciano na nossa rua. Alguém o chamou para ficar ali. Mas não se preocupe, que ele vai decidir muita coisa por você!