Quando não estivemos isolados?

A primeira conversa que Sócrates teve quando foi ao Pireu foi com Céfalo. O filósofo estava na cidade para participar de festas e cerimônias religiosas, e foi chamado para visitar o velho amigo. Céfalo o recebe com alegria, e um pedido: que Sócrates não ficasse outro longo tempo sem visitá-lo. Céfalo diz a ele o que os velhos costumam dizer aos seus interlocutores, principalmente se eles não são velhos: os movimentos estão prejudicados, e a força física não é como antes. Sócrates aproveita para perguntar a Céfalo sobre o que é ser velho. Sócrates justifica sua pergunta dizendo que precisa saber o que, caso tenha sorte, encontrará em seu futuro. Céfalo evoca as lamentações daqueles que dizem que a velhice é uma condição incapacitante, mas diz concordar com quem afirma ser uma benção que os desejos de comida e de sexo não mais possam escravizá-lo. 

Desta maneira, Céfalo responde como é ser velho, associando-o à liberdade. Ele acrescenta que o importante é saber organizar a própria vida, além de viver com simplicidade. Sem estas duas coisas, até um jovem vive mal. Eis aí uma segunda resposta de Céfalo, associando o velho à organização da vida. Sócrates pergunta ao interlocutor o que ele diria a quem lhe dissesse que a riqueza que ele tem é o que explica que ele viva bem. Céfalo não o rejeita, fazendo a ressalva de que apenas a riqueza não basta, pois também é preciso viver sensatamente. O jovem insensato está perdido! Por isso, a velhice não é um fardo quando se tem riqueza e sensatez. A conversa prossegue. 

A vida de uma pessoa ocorre em meio às vidas das outras pessoas. Você é homem, velho, cidadão, em proximidade a gente que também vive isso, ou faz alguma ideia do que seja isso. Mas as ideias que as pessoas têm acerca das mesmas coisas, coincidem? Se não coincidem, como as pessoas podem viver juntas? E será que uma pessoa realmente concorda consigo mesma? Se não, como ela pode viver junto de si mesma? Indo além: o que é a realidade se estamos nessa incerteza do que são as coisas? E o que sou eu, se é justamente por meio delas que tento me definir? 

A conversa de Sócrates tem o intuito de buscar uma definição para velho, rico, piedoso, etc. Definindo estas coisas junto de cada interlocutor, Sócrates pretendia que ele conhecesse a si mesmo, e conhecesse aquilo que ele atribui a si mesmo. No fundo, a missão socrática era combater a presunção grega. Cuidar do que se sabe leva ao cuidado da própria alma e, lógico, ao cuidado da alma do outro. 

Céfalo mostrou-se, para Sócrates, em dificuldades para saber o que é ser velho. Trazendo outros elementos, como liberdade e sensatez, o que conseguiu foi nublar um objeto que, talvez, fosse caro a ele. Mas como é árduo conhecer a si mesmo! Às vezes parece mais fácil vivermos isolados.