Resignação e ressentimento

Há por aí, algumas vozes que adoram criticar o governo sem uma narrativa capaz de trabalhar as diversas perspectivas necessárias para entender Bolsonaro. Ou seja, pintam um ditador estilo 64, “Hitler tropical” como Ciro Gomes diz e o interpretam dentro do espectro fascista. Essa versão de Bolsonaro, geralmente para aí, ela não lembra da pauta econômica de Paulo Guedes, da ideologia das milícias, da igreja evangélica e do “anarcocapitalismo” dos morros do RJ, como projeto de Brasil. Esse outro lado de Bolsonaro, implicaria no leitor agir o quanto antes para que esse projeto não seja cumprido. A necessidade de que o impeachment e o julgamento para os crimes de Bolsonaro sejam realizados se faz urgente, a destruição das estruturas da república é algo que tem consequências profundas , desde sindemias como as que vivemos agora, como o caos social da fome, da destruição das esferas sociais, aquilo que o sociólogo francês Durkheim definia como anomia. Nós já estamos no olho do furacão dessas crises e precisamos de uma ação urgente para que a situação não piore a ponto de não ter o que fazer.

Essa narrativa propõe que há o que fazer. Enquanto o resto se utiliza de algumas artimanhas para não resolver o problema e agir como uma “crítica comercial” com intuito de autopromoção.

Quando se diz que “Bolsonaro é uma continuidade no golpe contra a Dilma”, o que está se dizendo ?

Se há golpe, ele foi institucionalizado, o governo teria poderes ditatoriais e não haveria o que fazer, nesse caso, apenas levar Lula de volta para a presidência. E se Lula perder é culpa do “sistema”. Ou seja, essa narrativa fecha o horizonte de ações para que haja uma promoção da figura de Lula. Não vai ser o impeachment, não vai ser a atuação no congresso, a manifestação de rua, etc – Se é uma ditadura, tudo isso vai ser reprimido mesmo, então não há o que fazer, senão promover Lula.

Há uma certa necessidade de que o governo Bolsonaro pareça uma ditadura nos olhos dos que acreditam nessa tese, para que o libertador do povo brasileiro, que luta contra os yankees que o prenderam através da lava jato e Sérgio Moro, venha nos salvar das garras da ditadura bolsonarista.

A narrativa do PT entre outras palavras, precisa da inércia da sua militância para se manter forte.

Não se engane : não é só o PT que acredita nisso, grande parte da esquerda institucional e da militância acredita nessa narrativa. Ainda que use outros salvadores : PDT gosta do projeto desenvolvimentista, por exemplo. O PSOL aposta na social-democracia, e os menores nem sei se projetos possuem. Os três grandes, no geral, se parecem muito e mudam de projeto salvador e todos eles apostam na inércia.

O que dá espaço para eles na mídia é o fato de que parte da burguesia gostaria de um Bolsonaro mais ágil com as reformas. Então, um Ciro Gomes falando num jornal, um Haddad saindo aqui e ali dizendo alguma coisa, é sempre bem vindo como coro às críticas que a direita faz ao Bolsonaro.

Joel Pinheiro da Fonseca, por exemplo, não destoa nenhum pouco do que muitas vezes, o Boulos vem falar em sua coluna na folha.

Digamos, no “alto clero” da oposição, a verdade é que não se quer o impeachment e se quer muito mais conquistar parte da classe média para o projeto que eles possuem. Por isso, grande parte das discussões sobre a moral de Bolsonaro são o foco e, de lado, para conquistar o pobre, um populismo vazio para ganhar alguns votos.

No baixo clero, onde se povoa uma quantidade imensa de escritores, professores, influencers, estudantes e etc, tentando fazer um dinheiro extra, se continua alimentando a inércia.

Mas nesse caso, com algumas exceções talvez, não se acredita tanto no projeto do partido, apenas continuam usando dessa narrativa para atrair os militantes. Se utiliza de um outro artifício : o ressentimento.

Existe um certo prazer, num mundo tão destroçado como o nosso, chegar alguém e te dar razão e reafirmar o seu pessimismo. Pondé é um belo exemplo, por que realizar um projeto para melhorar o mundo, se toda melhoria no mundo só fez mal ? Você olha isso, senta no seu sofá e se sente bem, pois não há o que fazer. Esse autor te pega justamente nisso, tudo é ruim e você volta a ler texto por texto dele, escuta suas palestras e assiste seus vídeos, porque aquilo legítima sua inércia.

Há um prazer em fazer parte do grupinho de pessoas que sabem mais do que os demais. “Os rebeldinhos” que não acreditam na autoridade e que são diferentes. Todos eles possuem opiniões diferentes e lutam pela liberdade de expressão.

Quando pegamos outros desses que amam a inércia e o ressentimento, como Henry Bugalho, Jessé, Olavo de Carvalho, Nando Moura e muitos outros. (Que não vejo a necessidade de separar dado que eles têm perspectivas muito parecidas) – Nós notamos que eles oferecem uma dose diária de ressentimento e de apatia. Quase como um cristianismo ateu.

Como eles fazem isso ? Eles falam o senso comum, ou seja, eles despejam ideias liberais sobre liberdade de expressão, propriedade, sexo, política, história etc. Coisas que em algum grau, todos acreditam, afinal, nenhum desses criadores são pouco vistos. Eles fazem isso num contexto opinativo, ou seja, você pode concordar ou discordar, não pode desconsiderá-los por completo. Não existe quem pensa diferente deles, existe quem tem uma opinião, como eles são “expert”, eles sempre ganham nessa queda de braço. Dentro dessa opinião, em algum momento do texto há uma torção, um algo estranho mas não muito, que os legitima como pensadores.

Olavo de Carvalho diz que a teoria da terra plana tem elementos interessantes. Isso choca com o senso comum, mas não é nenhuma ideia tão fora de órbita assim, principalmente, num país com educação tão frágil. O elemento que leva muita gente a crer na terra plana, não são as evidências, mas a conspiração que não querem que saibamos que a terra é plana. Da mesma forma, muita gente toma cloroquina porque acredita que a Covid é uma doença feita em laboratório, como arma, e que a indústria farmacêutica, globalista, quer esconder a cura. Note como há o uso do senso comum, mas se dá uma guinada para algo que qualquer um pode considerar, mas não havia considerado, pois não haviam outros que pensassem igual.

Jessé usa da narrativa do PT e a eleva à uma conspiração mundial de banqueiros. São os ricos, tais elites ditam tudo !! Não muito diferente dos Protocolos do Sábio Sião utilizadas pelo partido nazista. Claro, talvez os banqueiros do Jessé não sejam judeus, mas americanos !! Dada a dificuldade de ler Marx ou de sequer considerar Marx, se inventa uma conspiração, que na boca do Jessé e de muitos outros, é bem mais atrativa do que tentar ler aquele livro grosso chamado O capital.

A narrativa do Marx, leva à revolução, a de tipos Jessé, uma resignação, um conforto por “saber” de alguma coisa que os outros não sabem.

Vence quem oferece mais conforto, ressentimento e a sensação de grupo, não qualquer grupo, mas grupo de iguais. Enriquece mais, quem oferece mais produtos de resignação.

O palestrante mais ativo, o escritor mais vazio, o mais pessimista, o que fala mais fino e de maneira menos conflituosa, o que mais aparece e mais fala, este é o que mais faz dinheiro.

No baixo clero, o que importa é o dinheiro. Criar uma personagem cativante, uma história que leve ao nada, mas interessante, essa é a chave do sucesso deles.

Aos que não buscam lutar, quem eles são de verdade ? Adoradores do Bolsonaro tanto quanto ele mesmo. Afinal, quem fez eles aparecerem ainda mais como opinadores contrários ou a favor do Bolsonaro ? Será que a gente ouviria falar deles, se não por conta do Bolsonaro ?