Resumo sobre o Humor

Para começar a falar sobre o humor irei, à boa moda de Platão, desenhar uma alegoria para didatizar a explicação. De forma a tornar mais claro e límpido o que vos quero narrar.

Esta alegoria chamo de alegoria dos caixotes.

Sempre que realizamos uma mudança de casa produzimos caixotes de mudança. O problema inicia-se quando estes caixotes são esquecidos na casa nova e tornam-se parte do ambiente.

Este é o cenário de uma casa limpa, com móveis reluzentes de tão novos, porém com o destoante fato desta casa, em seu âmago, conter uma quinta coluna de caixotes da velha casa.

Após a descrição deste cenário, passo a explicar porquê trato o humor como uma técnica.

Só algumas saídas para o cenário montado. Dentre elas, uma “teológica” e outra técnica. O Humor é a saída técnica.

Se o proprietário desta casa convidar um conhecido para visitar-lhe, a tal visita certamente notará que há caixotes jogamos do meio da casa. Porém, esta percepção foi feita por um agente externo e, não é esse tipo de agente que estamos aqui investigando. Isto não tem nada a ver com o humor que aqui descrevo, por mais engraçado que seja você visitar a casa de um conhecido e deparar-se com caixotes. O Humor que investigo é o humor do hábito, ou seja, aquele produzido por um agente parte do ambiente estranhado.

Em  outra solução, temos o novo morador convidando alguém que ama. Poucos momentos após o convide, quando o morador passa a planejar as preparações para a ilustre visita. O próprio morador apercebe-se de que tem caixotes espalhados pela casa inteira. Neste cenário temos o estranhamento experienciado pelo próprio habitante. Porém, o agente causador do estranhamento é exterior. Nesse caso, chamo o estranhamento de teológico porque fora produzido por um outro, talvez um deus ou demonio. Talvez o próprio Eros. Mas não foi o habitante que gerou por si só este estranhamento.

Assim, este não é o Humor do qual falo. Por mais que hajam que saibamos que boa parte do humor produzido pelo homem é involuntário. Este humor “involuntário” é causado mais por processos inconscientes inerentes à própria condição humana do que a qualquer deus ou anjo que pudessem incutí-lo.

O terceiro caso que aqui exponho é certamente o mais próximo do que chamo de Humor. O humorista que aqui chamo é aquele homem que produziu-se através das técnicas humorísticas. É aquele ser que fez da experimentação e repetição de várias e variadas técnicas humorísticas o seu métier.

Este homem-produto-da-técnica a quem chamo de humorista é capaz de sempre, permanentemente, perceber e estranhar-se com a presença dos caixotes. É aquele que continuamente os nova, mesmo com o tempo os tornando esquecíveis e desprezíveis. Para o humorista, os caixotes sempre estão lá porque ele tem a capacidade de ver e estranhar continuamente.

Neste ponto preciso elucidar qual a estrutura do que penso ser uma piada.

Quando eu digo “quero morrer dormindo, calmo e sereno como meu avô”. Esta sentença representa um momento no qual delimito qual é meu sonho de falecimento.

Aqui é bom nos lembrarmos da forma como os lógicos entendem uma proposição (obviamente, naquelas lógicas que não levam em consideração o tempo), ou seja, uma foto, uma imagem de um momento no qual é dado esta sentença.

Agora, quando complementamos esta proposição com a sua contrária, ou seja, a forma como este indivíduo NÃO quer morrer, temos “não desejo morrer gritando desesperadamente como os passageiros do ônibus que ele dirigia”.

Agora temos a punch line da piada e devemos observar esse segundo momento gerado por ela. Uma segunda cena que contrasta com a primeira, gerando graça.

A piada é este movimento de embate e contraste entre ambas as narrativas produzidas por cada imagem que constitui a piada.

Este é um movimento de oposição e choque, que gera quase que uma contradição – se não de fato uma contradição ipsis litteris.

A graça é o produto desta contradição. Num esquema Descrição (primeira imagem) – Redescrição (punch line) – Graça.

O humorista é capaz de tomar consciência de da descrição e redescrição ao mesmo tempo e apropriar-se da graça que é a finalidade de qualquer piada. Nesta que é claramente uma estrutura triangular na qual as narrativas contraditórias formam uma caixa de ressonância, como uma bolha que explode em risadas.

Nesta caixa de ressonâncias é perceptível a interpenetração entre contradições, esta interpenetração gera a graça.

Se o Sloterdijk diz “só quem é suspeito de ter segundos pensamentos pode efetivamente ser considerado sujeito”. Eu direi “só quem é capaz de suportar narrativas contraditórias poderá ser humorista”.

A estrutura que permite piada revela uma mente humana formada por NO MÍNIMO duas personas.

Pedro Possebon, Santo André, 24 Fevereiro 2018

3 thoughts on “Resumo sobre o Humor

  1. Pedro Possebon, thanks so much for the post.Really thank you! Keep writing.

  2. Horroroso caixote mais desenquadrado!! Eu gostaria de ouvir os senhores arquitectos estrelados justificar esta aberração!! Vergonhoso!!

Comments are closed.