Viver e sobreviver

Foi o filósofo francês Michel Foucault que definiu a política contemporânea como sendo a “biopolítica”, ou seja, a adoção de práticas disciplinares para governar a população, e não mais os indivíduos. O corpo passou então a ser um dos focos da política, como por exemplo, programas de cirurgia de redução de estômago, ou mesmo programas de saúde bucal. Foi a partir de Foucault que o filósofo italiano Giorgio Agamben, nosso contemporâneo, discorreu sobre os conceitos de “vida nua” e “vida ética”.

Agamben – ainda vivo – é muito lido e mais ainda mal compreendido. Seus textos atuais sobre o coronavírus são interpretados como se tratando de escritos sobre tirania, ditadura, etc., quando na verdade ele nos chama a atenção para o domínio da vida nua sobre a vida ética. Sobreviver se tornou a regra.

Em seu texto jornalístico “Uma pergunta”, publicado em 14 de abril do corrente ano, Agamben nos questiona sobre qual será a sociedade que teremos após a pandemia do coronavírus. Ora bolas, ele não está aqui tratando de tirania por parte do Estado italiano, mas sim chamando a atenção para o fato de que estamos enterrando de vez a vida ética para resumir tudo a vida nua, ou seja, ao corpo. A vida biológica finalmente reinará.

Primeiro Agamben nos aponta para o tratamento que temos dado aos mortos por coronavírus, ou seja, como o descarte – e agora sim, literalmente, um descarte – se tornou a regra do momento, desconsiderando qualquer rito espiritual ou cultural. Em seguida no chama a atenção para as restrições de liberdade impostas de uma forma nunca antes vista nem mesmo no período das grandes guerras. Por fim, nos mostra que separamos nossa vida em corporal e espiritual, e o corporal prevaleceu.

Quem lê esse texto e conclui que Agamben está falando sobre uma possível ditadura do Estado não entendeu do que o filósofo disse. O ponto central é de como a supremacia da vida biológica chegou ao seu auge, ou seja, o que importa é sobrevivermos a qualquer custo, mesmo que esse custo seja a destruição de nossa vida ética. Como exemplo, Agamben cita o Papa Francisco, conforme segue

“A Igreja, sob um Papa que se chama Francisco, esqueceu que Francisco abraçava os leprosos. Esqueceu que uma das obras da misericórdia é a de visitar os enfermos. Esqueceu que os mártires ensinam que é necessário estar disposto a sacrificar a vida em vez da fé, e que renunciar ao próximo significa renunciar à fé.”

            Agamben dá um soco no estômago de Francisco, e mina toda a estrutura da Igreja. A religião por natureza deveria ser espiritual, mas diante do coronavírus se tornou carnal. O que importa, neste momento, é apenas preservar a vida biológica, o corpo. É o fim definitivo da vida ética. O que seremos após o coronavírus, senão somente corpos!

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