Miriam Leitão está errada

A jornalista Miriam Leitão é um dos nomes de peso do jornalismo da Rede Globo. Conhecida por uma parte da população por suas participações no canal Globo News e por seus escritos no jornal impresso O Globo, Miriam Leitão também ficou conhecida por ter sido torturada grávida durante o Regime Militar devido a sua militância no Partido Comunista do Brasil.

Depois de quatro décadas de trabalho, Miriam Leitão não tem mais nada que a aproxime, em termos ideológicos, daquela jovem militante comunista. Ao contrário, sua atuação jornalística atual, em assuntos que envolvem economia e política, tem um viés totalmente liberal, com a defesa de propostas e projetos neoliberais.

Na última semana Miriam Leitão fez uma participação no Podcast “O Assunto”, da também jornalista Renata Lo Prete, em um episódio intitulado “A implosão do Projeto de Paulo Guedes”. Miriam afirmou para a jornalista Renata basicamente o seguinte: “que a dívida pública brasileira precisaria ser contida porque é uma dívida que pertence a todos nós, é de todos nós brasileiros”. Ora bolas, isso é uma mentira.

Dois fatores primordiais levam Miriam Leitão ao erro: primeiro, sua adesão ideológica ao neoliberalismo que faz com que ela tenha uma compreensão totalmente distorcida do que é a dívida pública brasileira; e segundo, sua visão de classe média que não consegue enxergar a pobreza no Brasil, fazendo com que ela pense que todo o brasileiro faz parte da classe média. Eu explico isso melhor.

A Coordenadora Geral da Auditoria Cidadã da Dívida Pública, Maria Lúcia Fattorelli, vem a cerca de duas décadas travando uma guerra contra a desinformação em relação a nossa dívida pública. O Brasil paga por ano em média R$ 1,2 trilhão de juros dessa dívida, o que no período de 2010 a 2020 soma um valor aproximado de R$ 12 trilhões de juros pagos. Contudo, a dívida não diminuiu, só aumenta!

Os economistas liberais dizem que esse valor não corresponde somente a juros, mas sim a amortizações, juros, blá, blá, blá. Nessa hora esses economistas usam de complexos esquemas explicativos que no fundo não explicam nada, apenas complicam e transformam o assunto em algo incompreensível para o público leigo. Mas aqueles que, como a Fattorelli, adentram nessa discussão sem nenhum apresso pelo liberalismo logo percebem que a nossa dívida é ilegal, imoral e criminosa. Ela jamais foi auditada, mesmo com uma determinação expressa na Constituição de 1988.

O outro problema da Miriam Leitão é que ela não consegue perceber que no Brasil existe pobreza, e muita. Nossa classe média é diminuta, não se comparando nem de longe a classe média americana. Metade dos brasileiros, ou seja, 100 milhões de pessoas, vive com um salário mínimo, o que atualmente é pouco mais de mil reais. Isso literalmente é sobreviver, e não viver. Mas a Miriam não consegue perceber isso, pois do alto do seu apartamento de classe média ela enxerga o Brasil como sendo um país de classe média. É quase como se o discurso do Lula fosse levado ao extremo fazendo com que as pessoas acreditassem que não existe mais pobreza no Brasil depois dos governos do PT.

Isso tudo faz com que Miriam Leitão fale a besteira de que a dívida pública brasileira pertence a todos nós. Não mesmo. A maioria esmagadora dos brasileiros, que ganha um salário mínimo ou pouco mais que isso, nem se quer sabe o que significa a dívida pública. E tecnicamente nossa dívida é imoral, ilegal e criminosa porque se constituí de contratos e acordos que não poderiam ter sido firmados, pois infringem uma série de leis e normas, fazendo com que esses juros pagos sejam canalizados a meia dúzia de famílias de banqueiros, o que explica a perpetuação da desigualdade social no Brasil.

Como bem diz Fattorelli, o Brasil é uma país rico, mas com um povo pobre, e isso em grande parte por causa da nossa dívida pública. Nós pagamos muitos impostos mas recebemos um retorno muito pequeno do Estado em termos de serviços públicos de qualidade, pois cerca de 40% dos impostos que pagamos são revertidos para o pagamento desses juros da dívida de pública, uma dívida que pertence apenas a uma diminuta elite da burguesia nacional que controla o nosso sistema financeiro.

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