NÃO ACREDITEM NOS LIBERAIS BRASILEIROS

Nós que nascemos nessa parte do hemisfério sul, ouvimos desde criança que “há coisas como jabuticaba, só tem no Brasil”. Esse ditado contado por nossos avós é mais verdadeiro do que nunca, e a prova disso são os liberais – ou neoliberais – brasileiros.

A doutrina liberal se fortaleceu no final do séc. XVIII, época da Revolução Francesa. Foi uma das filosofias políticas que surgiu e tentou ocupar o espaço deixado pelo Antigo Regime na organização da sociedade.

O liberalismo clássico, capitaneado por John Locke e Adam Smith, pregava a liberdade perante o Estado, e a igualdade perante a lei. Prosperou com força na Inglaterra e na França, e também naquela que seria sua pátria símbolo, os Estados Unidos da América. Foi também nas terras do Capitão América que nas décadas de 70 e 80 do século passado surgiu uma vertente mais radical, o neoliberalismo.

Enquanto o liberalismo clássico pregou a liberdade perante o Estado, o neoliberalismo pregou o esgarçamento desse Estado, ou em outras palavras, um Estado mínimo. Quanto menos o Estado se fizesse presente, melhor. Uma forte oposição ao “estado de bem estar social”.

Os EUA e a Inglaterra aplicaram essa teoria ao pé da letra. Ronald Reagan e Margareth Thatcher foram os grandes precursores dessa política econômica. No Brasil, Fernando Collor foi quem inaugurou medidas neoliberais, mas não teve muito sucesso, e sofreu o processo de impeachment. Mas os liberais brasileiros sempre foram falsos liberais.

A história econômica brasileira mostra que todo o nosso desenvolvimento sempre ocorreu a partir de uma intervenção estatal. Getúlio Vargas criou grandes companhias nacionais. Juscelino Kubitschek fez estradas e construiu Brasília. Já a Ditadura Militar bancou obras faraônicas. Fernando Henrique socorreu o sistema financeiro e Lula induziu o desenvolvimento através de políticas de transferência de renda. Em todas essas ações de desenvolvimento nacional, a participação do setor privado sempre foi secundária em relação ao Estado brasileiro. Liberais como os nossos, são como jabuticaba!

Agora, em meio à pandemia mundial do coronavírus, os liberais brasileiros resolveram se preocupar com o desenvolvimento nacional e passaram a defender uma intervenção estatal para contenção da crise econômica. Esses mesmos liberais até outro dia apoiavam o neoliberalismo radical do Paulo Guedes que está desmontando o Estado brasileiro. Será que essas pessoas mudaram de opinião? Creio que não.

Os liberais brasileiros não estão nesse momento preocupados com a oferta de serviços públicos à população, de modo que o Estado ajude na superação da crise. Na verdade, a preocupação central é a manutenção das bases do capitalismo financeiro, para que aqueles que vivem de especulação na bolsa de valores não sofram grandes perdas. Todo nosso setor industrial já está financeirizado, incluindo aí os barões da FIESP. Nosso liberalismo sempre foi dependente do Estado brasileiro, ou melhor, sempre foi uma jabuticaba. Não se enganem com esses liberais, pois a preocupação deles continua sendo o fortalecimento do capital, e não o desenvolvimento nacional.

2 thoughts on “NÃO ACREDITEM NOS LIBERAIS BRASILEIROS

  1. Excelente análise! Uma introdução argumentada em fatos históricos, uma pequena aula, e depois uma opinião conceitual. É disso que o Brasil precisa, mais cultura e menos achismos.

    1. Guilherme, nesse momento em que não só no Brasil, mas no mundo todo, há um grande movimento anti ciência e anti cultura, temos o dever de retribuir a sociedade que através dos seus impostos bancou nossos estudos.

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