O coronavírus, o comunista e o liberal pedem a Nova Internacional

O que faz com que duas figuras diametralmente opostas tais como Slavoj Zizek e Henry Kissinger se juntem e venham a encher de socos e chutes o… nosso mundo?

Não é novidade para ninguém que Zizek não vê com bons olhos nossa sociedade atual, baseada em não outras leis que as do mercado. Mas não é possível escutar sem arregalar os olhos, do eterno estrategista, garoto propaganda da ordem liberal(e neoliberal), Henry Kissinger, que nosso mundo atual, isto é, o mundo organizado de maneira pela qual ele trabalhou a vida inteira, já era, ficou para o passado, que os EUA tem ‘’o trabalho urgente de planejar uma nova era’’!

Tomaram, Kissinger e Zizek, do mesmo suco ou será que Henry Kissinger avermelhou de ­­­­vez e está por aí planejando uma nova Internacional?

Não sabemos qual a fruta do gosto de cada um deles. Mas que ambos estão defendendo, sim, uma espécie de nova Internacional é o que diz dois dos mais recentes textos de Zizek e Kissinger.

Acompanhem-me.

A crise do coronavírus é realmente uma catástrofe, mas só mesmo algo tão terrível e geral como uma pandemia, para nos fazer acordar e ver que nosso mundo não se sustenta. Assim, pensa Zizek, precisamos pensar numa nova organização social que seja global, baseada na solidariedade, na ciência, mas que, diferentemente da atual, não seja regida pelas leis capitalistas e estruturada nos Estados-nação. O que faz, então, o coronavírus além de acabar com a nossa saúde? Dá ‘’Um golpe como o de ‘Kill Bill’ no capitalismo’’! – diz Zizek.

Uma vez morto, o capitalismo global pode dar lugar à uma sociedade alternativa que nada tenha a ver com um ‘’comunismo antiquado’’. Essa nova sociedade, que também é uma nova ordem mundial, limitaria, vez ou outra, a atuação dos estados nacionais da mesma maneira que lidamos quando em estado de guerra. Afinal, nosso percurso atual não é outro senão o de uma ”guerra médica”.

Ora, ”guerra” também é a palavra quando tratamos do texto de Kissinger. E sua menção ao assunto não poderia ser menos ousada. Para Kissinger, a pandemia do coronavírus, dado seu alcance, lhe faz lembrar de 1944 quando ele, jovem da infantaria, lutava na Segunda Guerra Mundial! Prevendo um cenário de ‘’dissolução social’’, Kissinger argumenta que as soluções majoritariamente nacionais tomadas pelos Estados terão como efeito a perda da confiança social perante suas instituições e, dessa forma, acabarão por gerar a perda da própria legitimidade de tais estados. A razão disso é que a pandemia exige soluções não só nacionais, mas, fundamentalmente, enfrentamentos de ordem global.

Na função de bastião dos princípios da Ordem Liberal Global, diz Kissinger, os EUA deveriam zelar não só pela saúde e economia deles mesmos, mas também pela saúde e economia globais. Porém, o que é mais impressionante, é Kissinger dizer que, para preservar tais princípios, os EUA teriam que lançar esforços na construção de um período de transição para uma outra organização mundial, ‘’pós-coronavírus’’! Nesse ‘’intervalo entre épocas’’, a tarefa dos amantes dos valores da Ordem Liberal Global torna-se a edificação da sua substituta!

Voltemos a Zizek e vejamos o que ele diz no final do seu texto:

‘’E se chamássemos ‘liberais’ aqueles que se preocupam com as nossas liberdades, e ‘comunistas’ aqueles que sabem que só podemos salvar essas liberdades através de mudanças radicais num capitalismo global que se aproxima do seu próprio colapso?’’

Zombando de Viktor Orbán, para quem um liberal é um ‘’comunista de diploma’’, Zizek fala do comunista como um ‘’liberal de diploma’’. Tanto Zizek quanto Kissinger são pessoas ‘’de diploma’’. Fica a nosso cargo sabermos se a história também.

Isaias Bispo de Miranda – 12 de abril de 2021. Escrito após uma discussão dos textos com Nicolas Melo e Ricardo Ferrari.

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One thought on “O coronavírus, o comunista e o liberal pedem a Nova Internacional

  1. Seria ingenuidade pensarmos que essa pandemia, quando for superada, fará com que todas as pessoas retornem ao devido lugar. Não mesmo. São esses momentos que história mostra que acontecem transformações profundas na sociedade. É preciso alguma coisa com uma capacidade “nuclear”, como uma guerra ou uma pandemia, para desorganizar todo a estrutura do capitalismo e permitir que as peças se reorganizem. Resta saber qual será o resultado deste processo.

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