O espetáculo da política como conteúdo midiático

“É mais uma influência indireta. A maneira de se falar política que o CQC ensinou diria eu ser a culpada disso. Se você ver os vídeos dos protestos você percebe uma semelhança muito grande no tom que eles falam sobre o assunto : “Eu quero menos corrupção.” Porém, nenhum discurso mais profundo sobre como fazer isso. É quase como “Eu quero menos corrupção e não tenho ideia de como fazer isso”. E tudo fica na piada, no raso do bater as panelas por bater, não tem nenhum sentido fazer isso.”

Marlin Rose Jones de 2017~2018

Esse pequeno texto é um comentário sobre a relação da mídia com a política, que eu fiz alguns anos atrás no reddit. Ainda que fosse um texto muito razoável e interessante em algumas coisas, acredito que ele não consegue ir tão a fundo no problema em questão.

Isso por um motivo bem simples : nessa época eu ainda era uma pessimista incurável que não lia Marx. Ainda que eu fosse capaz de entender algumas coisas importantes, me faltava esse tempero. Essa sensibilidade para entender o que estava na minha frente.

Hoje eu gosto de pensar a mídia muito mais como um grande shopping center. Ela é um mundo. Você nunca foi nesses shopping que tinham pistas de gelo, arcade, atrações dos mais diversos tipos e coisas como o cinema. Há uma cidade dentro do shopping – ela é uma pólis do capitalismo.

Quem é o cidadão do shopping ? O consumidor ? Não, é o capital. O dinheiro que flui de cada canto daquele prédio. Que aparece de cada lojinha com um cartão de crédito ou carnê – de empréstimos muitas vezes das próprias lojas ! Do aluguel pro dono do shopping – como dos seguros que o shopping e cada lojinha individual possui. Dos seguros de cada funcionário para si e para as coisas que o tem. E isso vai longe – afinal, o capitalismo é todo conectado.

Não fica difícil compreender a comparação com a mídia, ela faz parte do mercado. O que muita gente erra é acreditar numa suposta manipulação : A informação escorre pelos dedos, como você vai falsear uma matéria se cada mentira contada é facilmente desmentida. O jornal vende informações, se ele mente, ele perde credibilidade, logo perde assinantes e visitantes.

A mídia é, em termos simples, um mercado de informações. Como bem sabemos, o produto no mercado capitalista não aparece simplesmente pelo valor de uso, mas também, e principalmente, por seu valor de troca. Não é diferente com as mercadorias imateriais.

O vídeo, ou a notícia, ou o podcast, ou o texto – ele aparece na sua frente te chamando para ele. Ele olha para você, assim como a calça, como sujeito da história.

CQC, assim como a revista Veja e jornais como Carta Capital, eles inauguraram de certa maneira, uma forma de fazer jornalismo e falar de política extremamente imagética. O humor sarcástico do CQC – desnudo, niilista, levava a política pro campo do “isso tudo é uma grande piada”. A parte séria da política, ou seja, a biopolítica, a vida decidida pelo governo, as consequências de governar dos corpos, era largada de lado, em detrimento de uma política espetacular.

De repente, nós estávamos mais preocupados com problemas pontuais e com soluções pontuais. Por que haviam tantas denúncias de corrupção em cidades do interior ? Essa pergunta nunca deveria ser respondida pelo programa, dado que não perguntar isso, garantia que sempre houvessem episódios novos.

O que o CQC vendia ? Ele vendia para você a possibilidade de você ser um “crítico” da política, sem se politizar. Bastava ser irônico e dizer que nada vale, que tudo é uma grande piada.

Na direita isso facilitou muito para pessoas como Marco Antônio Villa e Reinaldo de Azevedo – que são dois incompetentes que se dão bem num mundo assim, por se portarem unicamente de frases prontas num pedaço de papel. Figuras desconhecidas das catacumbas da internet, como Allan Santos, Olavo de Carvalho e Pondé conseguem ganhar a atenção de milhares de pessoas por conta da aparência. Eles parecem dizer coisas – na verdade, eles falam por imagens. Assim como nas Tags de SEO, eles se pautam pelo que mais vende na hora. É um mundo onde é aceitável Felipe Moura fazer uma reportagem só com prints zombando um professor.

Na esquerda, se alimentou o leninismo. Não que signifique se leia Lênin – mas a imagem de um grande líder capaz de mudar tudo vai aparecer. Napoleão Bonaparte socialista !! Lula foi o primeiro a virar só meme, depois Ciro Gomes, Haddad, e cia. Todo homem que se destacava, virava um líder a seguir – repetindo o comportamento nosso no mercado.

Lula é um produto – já não é mais homem há muito tempo. Ele mesmo não nota que não é ouvido, o que se ouve são frases desconexas que se repetem, ecoam por todo canto e já não possuem mais sentido algum.

Aos poucos, todos começamos a fazer parte da mídia. Nós nos tornamos frases e ecos. Cada um vira um, parafraseando Byung Chul Han, jornalista de si mesmo. Nesse shopping, há aqueles que entram e criam conteúdo, transitam livremente entre as lojas. Há aqueles que o segurança vigia de perto. Quem lembra dos rolezinhos ? Os meninos da favela indo lá se divertir – eles tinham outro lugar para ir ?

Nós somos eles. Vivemos num mundo que se paga até pelo ar !! O que sobra para gente é a rua.

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